ORIGEM E DESTINO DO HOMEM AMERICANO

Por Sérgio Medeiros*

Florianópolis, 23 de setembro de 2007

Gordon Brotherston fala sobre o poema maia Popol Vuh, lançado no Brasil

 

 

No ensaio que abre a edição brasileira do poema maia Popol Vuh (Iluminuras, 2007, 479 páginas, R$ 62,00), Gordon Brotherston, um dos organizadores do volume e grande estudioso das culturas mesoamericanas, resume assim o conteúdo desse poema, traduzido agora ao português por Sérgio Medeiros: “O texto começa e conclui reconhecendo claramente o poder atual da cristandade e dos invasores conduzidos a quiché em 1524 por Pedro de Alvarado, tenente de Cortés. Encerrada nestes dois momentos, a narrativa começa pela própria origem dos tempos, oferece um relato das quatro idades do mundo, características da cosmogonia do continente americano, e concentra-se, a seguir, na história quiché enquanto tal e nos eventos particulares nos quais os kaveks baseiam sua reivindicação legal. Conseqüentemente, os vulcões surgidos no início da criação são depois identificados com marcos que definem e protegem o território quiché. Longe de diminuir o valor do texto, a sua função prática de título imediatamente o eleva e nos alerta para os vários e diferentes níveis de tempo e de propósitos que a narrativa no seu conjunto unifica”. Ou seja, esse texto do século XVI, escrito na língua quiché por autores anônimos que haviam sido alfabetizados pelos sacerdotes católicos e que usaram a escrita alfabética dos conquistadores para redigir a sua cosmogonia, reclama, perante o governo espanhol, “um benefício ou privilégio que datava da época anterior à invasão”, segundo as palavras de Gordon Brotherston.

A reivindicação de direitos locais exige a rememoração de um fato crucial, a criação do próprio homem americano, que foi feito de milho. Isso está no quarto e último canto do poema. A edição brasileira do Popol Vuh é bilíngüe e adota a estruturação em versos do original, reconstituída por Munro Edmonson em sua tradução do poema para o inglês em 1971. “Seguindo sua concepção de que a literatura indígena mesoamericana é caracterizada, no seu conjunto, pelo dístico”, explica Gordon Brotherston, “Edmonson organiza todo o texto em versos pares numerados”. Para o poeta Francis Ponge, em A Mesa, uma página não-escrita é um muro ou parede, a qual, uma vez preenchida pela escrita, imediatamente se transformará numa janela: “(O escrito transformaria o muro em janela: estore veneziano, persiana com lâminas, gelosias)”, conclui o autor francês. Para os narradores maias-quichés, por sua vez, o modelo de escrita não seria obviamente a janela, ou a persiana com lâminas, mas a espiga de milho, com suas carreiras paralelas de grãos, com as quais podemos relacionar tanto os dentes da boca do narrador quanto os dísticos do poema que ele compõe, ou recompõe, ao narrar em voz alta ou por escrito essa cosmogonia mesoamericana, que agora chega ao leitor brasileiro.

Na entrevista a seguir, o inglês Gordon Brotherston, Professor Honorário da Universidade de Manchester e Professor Emérito da Universidade de Essex, discute a atualidade do Popol Vuh, livro que influenciou artistas tão díspares como o escritor argentino Jorge Luis Borges e o músico francês Edgard Varèse, entre outros, e comenta a edição brasileira desse poema maia que ele ajudou a organizar.

 

P. Como é possível que um livro da importância do Popol Vuh não tenha saído publicado antes no Brasil?

R. Ao longo dos últimos cinco séculos, a cobiça imperialista sempre se esforçou para manter o Brasil afastado da América Hispânica, e todos os países afastados de suas raízes indígenas comuns.

 

P. A locução “Bíblia das Américas”, aplicada à cosmogonia maia-quiché, é correta? Ela ajuda a esclarecer o conteúdo do livro e sua posição na história da cultura?

R. O Popol Vuh é certamente inclusivo, em termos continentais, e em escala e detalhes ele ecoa em textos clássicos de outras partes da América, e não menos na Amazônia. Ele é também mais engenhosamente construído do que a Bíblia, mais literário no todo, e o que a Bíblia tem a dizer pode ser mais facilmente abarcado pelo poema maia do que o contrário.

 

P. O Popol Vuh contém mito, literatura, ciência e história. Como esses diferentes aspectos convivem entre si no texto?

R. Essas categorias são evidentemente criações ocidentais e suas definições, além disso, têm variado ao longo do tempo: o mito, por exemplo, tem um sentido em grego e outro em inglês, ou em português.

 

P. O Popol Vuh descreve a evolução das espécies. A teoria do livro é equivalente à de Darwin? Como você associaria a teoria da evolução maia com a teoria da evolução proposta pelo perspectivismo de Viveiros de Castro, por exemplo, a qual afirma que, no contexto amazônico, a cultura era compartilhada, nos primórdios, por todos os seres da Terra: humanos, animais e vegetais. A diferenciação é posterior.

R. Darwin certamente concorda com os principais eventos da história contada no Popol Vuh, muitos séculos antes dele. Quanto a Viveiros de Castro, o que ele chama de perspectivismo é uma novidade, sob vários aspectos. Talvez o mais importante seja o ataque que representa a modelos temporais ocidentais, hegelianos em especial, e por conta disso tanto marxistas quanto neoconservadores. Ele nos re-situa como espécie, olhando para um passado repleto de riquezas imaginativas, de comunicações sobre as quais o verbo humano se impõe como singularidade pobre e restrita. Ainda assim, esse perspectivismo não deixa de continuar a olhar de um ponto de vista atual, melhor dito, a-tópico, fundamental mas pouco questionado na filosofia ocidental.
Por sua vez, o Popol Vuh, texto sustentado por filosofias de origem profundamente americanas, já havia tratado dessa ordem de empobrecimento imaginativo humano, ao ilustrar nitidamente, dramatizando-as, teorias evolutivas da vida, as quais retomaria Darwin séculos depois. Situar pontos de vista neste perspectivismo americano pressupõe uma tarefa intelectual bastante delicada. Percebemos algumas das conseqüências mais imediatas de sua “outridade” em comentários feitos por autores indígenas ao texto original, entre eles, Rigoberta Menchú, e outros maias que insistiram, por exemplo, nas páginas de La Jornada, em ver o pesadelo ecológico do nosso momento não só pelos olhos da nossa espécie. Também se trata de perspectivismo, mas que toma outro ponto temporal como ponto de vista.
Com uma economia notável e raras vezes reconhecida pelas máfias literárias, Miguel Ángel Asturias, cujo Hombres de maíz (1949) lhe garantiu o Prêmio Nobel, conseguiu rastrear essa divergência radical na introdução a Leyendas de Guatemala (1930), seu primeiro livro decisivamente enriquecido pela tradução do Popol Vuh que ele mesmo havia feito três anos antes. Nessa introdução, Asturias conjuga duas entradas, “Guatemala”, que se funde com o passado arqueológico como estratos temporais, e “Ahora que me acuerdo”, que se alça a partir da consciência psíquica individual mais íntima imaginável, sob a tutela das pessoa simples, parvas, que fazem a conta dos anos, que são os séculos assinalados nas pedras.

 

P. Qual é a importância do inframundo, Xibalba, e das mulheres, no universo maia-quiché representado no Popl Vuh?

R. A viagem ao mundo subterrâneo, especialmente aquela realizada para resgatar o pai, caracteriza a épica em muitas tradições. Pensa-se seriamente que isso esteja associado ao modelo astronômico dos planetas íntimos (Mercúrio e Vênus), que parecem viajar do horizonte ocidental (onde são estrelas vespertinas) para o oriente (onde ressurgem como estrelas matutinas). Os senhores do mundo subterrâneo são assassinos, movidos de modo insensato pelo poder e pelo desejo de controlar, como no nosso mundo de hoje. As mulheres, enquanto isso, cuidam para que a linha sutil da história não se rompa.

 

P. A tradução brasileira do Popol Vuh tomou como referência a tradução para o inglês assinada por Munro Edmonson, de 1971, que estruturou o texto sobre mais de 8.500 versos. Poderia comentar a edição de Edmonson?

R. Quando ela apareceu em 1971, a versão de Edmonson era a primeira em inglês a trabalhar diretamente com o texto maia original, que ele incluiu ao lado do seu próprio texto. Também foi a primeira a respeitar os versos (dísticos) do original. Além disso, Edmonson abriu novos caminhos, ao demonstrar a função do texto como um “título”, isto é, um documento que estabelece um precedente, um direito, num sentido legal abrangente, para o qual o colonialismo europeu não tinha rival.

 

P. A edição brasileira traz o texto original do Popol Vuh. As edições existentes em outros países latino-americanos também procedem assim? Poderia comentar a importância de uma edição bilíngüe?

R. Poucas edições do Popol Vuh incluem de fato o texto maia original. Acrescentando-o, a nossa edição brasileira eleva muito a possibilidade de o leitor descobrir modelos de sentidos que seriam, sem isso, obscurecidos ou eliminados na tradução, sem considerar a presença dos nomes próprios ou a recorrência de termos-chave e frases. Isso, ademais, aumenta a importância da nossa edição do Popol Vuh, como a primeira lançada no Brasil.

 

P. Qual é hoje, no Brasil, na sua opinião, a situação dos estudos da cultura mesoamericana?

R. Como objeto de estudo, a Mesoamérica (que engloba países como o México e a Guatemala) vem atraindo cada vez mais especialistas, muito mais do que no passado, provenientes de um leque sempre maior de disciplinas. Os arqueólogos continuam a revelar tesouros, como o diorito entalhado que foi encontrado recentemente nas terras baixas olmecas, ou os murais maias de San Bartolo. Definições ocidentais gastas de escrita estão sendo reformuladas para atender às demandas dos antigos livros ou códices, dos quais o Popol Vuh é uma transcrição alfabética, e toda a questão das origens mesoamericanas está relacionada mais decisivamente com a Amazônia, graças sobretudo ao trabalho feito nos anos 1970 por Donald Lathrap. Pela primeira vez, estas mudanças estão sendo largamente absorvidas no Brasil, por exemplo, no Centro de Estudos Mesoamericanos e Andinos, da USP, que já estabeleceu ligações estreitas com especialistas e instituições mexicanas.

 

*Sérgio Medeiros (e-mail: panambi@matrix.com.br) é poeta, tendo publicado, entre outras coletâneas de poemas e prosas, Totem & Sacrifício, Jakembó Editores, Assunção, Paraguai, 2007. Traduziu na íntegra o poema maia Popol Vuh. É um dos editores do site de cultura e arte www.centopeia.net

 

 

 

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