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De onde veio a motivação para adaptar para o teatro um conto de Horácio Quiroga? Eu tinha esse conto guardado faz bastante tempo. Acho-o uma obra-prima. Sempre admirei muito os escritos de Quiroga e sabia que algum dia eu iria levar para o palco ou para a tela (cinema). Em 2006 – quando a Persona montou ‘Nem mesmo a chuva tem mãos tão pequenas’ sobre o texto ‘The Glass Menagerie’ de Tennessee Williams, colocamos o conto do Quiroga como passo seguinte. Ficávamos pensando na adaptação para o palco, em como trataríamos as questões relacionadas à construção dos personagens (chegou-se a cogitar a possibilidade de atores e não bonecos, para a representação dos filhos idiotas), e outros detalhes. Mas foi somente com a entrada do Teatro em Trâmite que a coisa tomou corpo mesmo. Lancei a proposta pra eles e juntos fomos construindo a cena e discutindo os aspectos essenciais do texto. O ator André Francisco (que faz o pai) foi muito importante na adaptação, colaborando com novas idéias para a montagem final. Desta maneira, juntamente com a cena, eu e Gláucia demos o formato final do texto cênico. Quais relações existem entre essa última montagem e as outras que a Persona Companhia de Teatro já levou aos palcos? A relação aristotélica do ‘terror e piedade’, isto é, através de uma cena de horror você ter a possibilidade de vislumbrar o que não traz o bem, para, justamente, dar valor ao próprio bem. A busca por temas que possam tocar no que há de contraditório na alma humana, sempre tendo em mente a força da experiência interior que somente a beleza pode dar. E dentro destas premissas a construção, isto é, o estilo do que faço é pautado por relações sutis entre cena e musicalidade. Qual é a sua posição em relação à comédia? Acho um gênero tão mais difícil de fazer quanto o dramático. A maioria dos espetáculos que vemos por aqui (ou mesmo filmes) que se pautam na comédia é dotada de uma relação muito grosseira com a construção e estão extremamente poluídos de vaidade e pouca inteligência. Os stand-up, que lotam nossos teatros hoje, são exemplos disso. Você lê um texto de Molière e consegue enxergar o que há por trás das passagens cômicas. Na nossa comédia atual é difícil encontrar essas relações mais sutis e ao mesmo tempo profundas: as pessoas se satisfazem com a piada em si. E nosso teatro brasileiro, hoje, é tomado da crença forte de que teatro bom é teatro cômico. Peter Sellers, cuja interpretação é de uma modéstia monumental, consegue o equilíbrio perfeito entre inteligência e nonsense. Se eu fosse trabalhar com comédia, eu começaria por aí. Mais modéstia e menos vaidade. Qual é a importância da música para as montagens da Persona Companhia de Teatro? A música, no meu trabalho de direção (independente se com a Persona ou outro grupo) é a minha ferramenta de trabalho. As relações entre a cena e a musicalidade que está por trás das ações, sempre me guiaram para a construção de um espetáculo. A música é uma sucessão de acontecimentos dramáticos. Só que, como dizia Aristóteles, ela evoca os estados da alma. Assim, procuro detalhar pra mim mesmo, e depois para os atores, o diálogo possível entre estes acontecimentos: o discurso musical que direciona as ações dos atores e a ‘grande ação’ do espetáculo. Você tem um grupo de música medieval. Já pensou em fazer uma opereta? Ou musical? Embora sejam dois grupos atuantes, não vejo ainda nenhum vínculo possível. Será necessário um texto muito específico para poder unir o que o Cantus Firmus faz com a Persona. Apesar de terem premissas poéticas semelhantes, minha exigência para o que for dito, isto é, o conteúdo do texto, é maior do que o desejo de unir os grupos num único trabalho. Como tem sido a recepção de seu trabalho aqui no Estado e fora dele? A recepção tem sido muito positiva. O trabalho tem aspectos fortes (com relação às imagens construídas) que têm suscitado muitas discussões e temos tido boas leituras sobre a obra (tanto em críticas jornalísticas quanto em escritos pessoais para os dois grupos). Estamos indo apresentar na Argentina, no Festival Internacional de Formosa, agora em agosto. Estamos curiosos para ver como vai ser a reação.
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