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1. Como curador da mostra dedicada a Rogério Sganzerla, como você descreveria o que o público irá encontrar, no Itaú Cultural? Quando começa e quando termina a mostra? O público vai ter uma visão ampla e vertical do mundo criativo e existencial deste visionário que é Rogério Sganzerla. Tanto os mais iniciados como os desavisados terão contato pela primeira vez com a vasta produção intelectual do artista, desde os roteiros inéditos, anotações, cadernos de infância com desenhos e suas primeiras críticas de cinema, até a memorabilia, composta por instrumentos pessoais como as câmeras e máquina de escrever que Sganzerla utilizava. A exposição contém três linhas de fuga: a luz, o abismo e o caos. A mostra será aberta no dia 08 de junho para convidados com uma performance do legendário guitarrista Lanny Gordin com o Coletivo de Vjs, Embolex, que fará uma intervenção musical no imaginário de Rogério. No dia 9, começa a Retrospectiva completa de Sganzerla que, além de sua filmografia, apresentará filmes montados por ele como Olho por Olho; de Andrea Tonacci. Haverá também uma sessão dedicada a Helena Ignez sua mulher e musa, na qual será exibido, por exemplo, o seu documentário sobre a Belair, A Miss e o Dinossauro; e Reinvenção da Rua, ensaio editado por Rogério e dirigido por sua companheira por 34 anos. A mostra se encerra no dia 18 de junho, mas a exposição permanece em cartaz durante dois meses, reservando outras atrações com o relançamento no dia 12, do CD Copacabana Mon Amour; que traz a trilha de Gilberto Gil, criada no exílio, em Londres, para o filme homônimo de Sganzerla e seu aguardado livro de críticas, editado pela UFSC, num ato de reconhecimento ao grande cineasta catarinense. Estão programadas três mesas de debate com a presença de figuras representativas ligadas ao universo sganzerliano. No dia 09, participam Júlio Bressane, amigo de Rogério e sócio da Belair (produtora fundada pelos dois cineastas), a atriz Helena Ignez e o crítico italiano e curador do Festival de Locarno, Roberto Turigliatto. No dia 10 estarão presentes o historiador e conservador da Cinemateca do MAM, Hernani Heffner, a atriz Maria Gladys, que atuou no filme Sem essa, Aranha, e o produtor Antonio Urano, grande amigo do cineasta. Há grande expectativa também para a mesa do dia 18 de junho, que discutirá o diálogo Welles-Sganzerla, com a presença de dois dos maiores conhecedores da obra do diretor de Cidadão Kane, o crítico norte-americano Bill Krohn (Cahiers du cinema) e a professora da Universidade de Michigan, Catherine Benamou. Ambos foram responsáveis pela direção e produção, respectivamente, do documentário Its All True - Baseado no filme inacabado de Welles, que reconstrói a memória do filme rodado por Orson Welles em 1942 no Brasil, cujas filmagens foram interditadas. Os críticos e professores de cinema, Ismail Xavier (ECA-Usp) e Samuel Paiva (UFSCar) comporão também a mesa.
2. Qual a importância de Sganzerla para o cinema brasileiro e mundial? Rogério é um artista que se ocupou do cinema. Com sólida formação literária, sua atividade de crítico de cinema desde os 17 anos de idade, o fez teorizar e praticar uma linguagem ímpar, uma luz própria, calcada no universo do submundo urbano, com "olhos livres" e antenada no mundo do cinema B e A, do matinê, Welles a Godard. Um cineasta de ruptura que inscreveu seu lugar na história do cinema com a obra-prima O bandido da luz vermelha (1968), um clássico do cinema brasileiro. Depois realizou grandes filmes como A mulher de todos, tão definitivo como O bandido. Tais filmes realizam a utopia de Oswald de Andrade, que aspirava fabricar biscoito fino para as massas. O filme teve grande sucesso popular, exibido nos cinemas do centro de São Paulo, ao mesmo tempo em que dialoga diretamente com o cinema de Godard. Através da performance revolucionária de Helena Ignez, inaugura uma nova forma de representação com não atores, personagens da noite, humoristas, incorporando a cultura pop-popular, o kitsch, as histórias em quadrinhos, transformando na chave oswaldiana o ordinário em extraordinário. Além de preconizar alegoricamente o AI-5. Aliás, uma de suas frases emblemáticas é o cinema não me interessa, mas sim a profecia. O filme virou um mito do imaginário urbano. Um cineasta para o novo milênio, como bem definiu o crítico Bill Krohn em artigo no Cahiers du cinema. A partir da retrospectiva de seus filmes, organizada pelo Festival de Turim, em 2005, sua obra começou a ser mais reconhecida na Europa e surgiram convites do mundo inteiro, de Festivais e centros de arte contemporânea. E, com isso, começaram a circular cópias legendadas em várias línguas, e aos poucos a família vai sensibilizando entidades e organismos para a restauração do acervo tanto cinematográfico como documental, que necessita de um ação urgente e sistemática. Recentemente, o BAFICI, festival de Cinema independente de Buenos Aires, celebrou em grande estilo a filmografia de Sganzerla. Esta Ocupação em São Paulo reunirá pela primeira vez, publicamente, o conjunto da obra do cineasta catarinense, sempre vista em eventos esporádicos, restritos, nunca escancarada deste modo, proporcionando uma fruição aberta, em que o espectador fará sua narrativa. Certamente, ampliará o interesse pelos filmes. Cada um em seu campo de atuação, não tenho dúvida que Rogério e Glauber, são os cineastas mais significativos do país. Tanto pela radicalidade, o amor ao cinema, ao país, como pela intransigência estética.
3. Como você avaliaria hoje a relação dele com Glauber Rocha? Não tenho dúvidas que Rogério e Glauber são os cineastas mais significativos do Brasil. Os dois são artistas que se ocuparam do cinema e rompendo suas fronteiras produziram uma obra expressiva e singular que civilizaram o audiovisual, e continua inquietando, provocando e instabilizando a calmaria contemporânea. Artistas irmãos ocuparam trincheiras diferentes, às vezes, mas tinham uma forte ligação com a tradição. Rogério frequentava a biblioteca da Cinemateca Brasileira enquanto Glauber, a biblioteca do Clube de Cinema da Bahia, de Walter da Silveira. Os dois começaram como jornalistas, cursaram e interromperam a Faculdade de Direito, atuaram como repórteres policiais na província (Rogério em Joaçaba, Santa Catarina e Glauber em Vitória da Conquista, Bahia). Barrocos, polemistas, lançaram manifestos (Rogério no seu filme intitulado Fora da Lei afirma que "Em Glauber conheci o cinema de guerrilha feito à base de planos gerais". Rogério mais solitário talvez que Glauber, que se ocupou do papel de líder cultural, exercendo uma maior sociabilidade. E há uma diferença sensível de idade, Rogério era sete anos mais jovem e teve uma formação mais urbana, em São Paulo, desde adolescente. Glauber, por sua vez, antes de se mudar para o Rio, fica em Salvador até os 20 anos de idade. Há mais pontos de conexão que imaginamos e no meio um componente afetivo, Rogério se casou com Helena, que foi a primeira mulher de Glauber, e é demasiadamente humano que este dado permeasse os humores dos dois em embates pontuais. O que fica, contudo, baixando a poeira do tempo, são dois filmes de ruptura que fizeram história: Terra em transe (1967) e O bandido da luz vermelha (1968). Rogério chega a utilizar o mesmo tema de candomblé de Terra em transe em dois filmes de sua autoria, o próprio Bandido e Copacabana mon amour (1970), em cenas com Helena Ignez. Um diálogo interartístico entre autores antenados? Rogério chamava Glauber de "meu irmão, meu semelhante" e "pai do nosso cinema". Havia uma dificuldade, naturalmente, pois ambos tiveram, em determinado momento histórico, funções distintas. Glauber aglutinando em nome de um novo cinema e Rogério numa primeira fase apoiando o Cinema Novo e depois atacando os desvios do movimento. No final se encontraram, superando certas arestas, embora fossem individualidades marcantes, com projetos próprios. Em Londres, no exílio, Glauber e Rogério foram filmados em Super 8, por Dedé Veloso e Jards Macalé, e em alto astral realizaram planos mútuos, aproximando-se através da câmera na mão e cabeça feita. Paloma conta que presenciou vários encontros e ideias foram trocadas entre Rogério e Glauber, no final dos anos 1980. No abismo em que o cinema brasileiro se encontrava, os dois autores de ponta tiveram uma interlocução acima dos ressentimentos que se adensaram pelo caminho. Por ocasião da morte de Glauber, Rogério escreveu dois artigos, Necrológio de um gênio e Vulcão de ideias, em que relativiza os conflitos, e afirma que nos anos 1960 não dava pra ser diferente, não podia ser feito em paz, o embate era um instrumento de luta contra o tédio e o conformismo. Hoje, todavia, impera o bom-mocismo.
4. O filme Luz nas trevas, filmado postumamente, representa a última contribuição do cineasta catarinense ao cinema brasileiro? Sim e não, no sentido que é difícil medir essa contribuição, considerando-se o quase ineditismo da obra de Sganzerla, que a cada descoberta de um texto, uma imagem, causa um novo espanto e a partir desta ocupação, sem dúvida, ganhará mais visibilidade. De fato é sua última produção, legada para Helena Ignez, parceira por 34 anos, que dirigiu o filme com ajuda de amigos e colaboradores. Era um roteiro com mais de mil páginas e mesmo doente, lutando contra o câncer, Rogério dedicava a ele toda a sua energia. Acompanhei de perto esse momento difícil de sua vida, e lembro-me quando decidiu pelo título Luz nas trevas, assumidamente explícito, que aludia às trevas de nosso tempo, da cultura brasileira, as trevas paulistas. Ele apostava na continuação da luminosidade e preferia tratar o filme O bandido de luz, para evitar uma evocação realista. Colaborei na montagem do filme, a convite de Sinai e da Helena, que construíram mais do que uma continuação, um prolongamento do espírito do Luz que vai ter uma enorme comunicabilidade com o público, mas inquieto e atento mundo afora. Luz nas trevas é cinema de tribo, feito em família, com uma produção mais apurada do que a maioria dos filmes de Rogério, que traz a sensibilidade e inventividade das filhas Sinai e Djin Sganzerla e, sobretudo, de Helena Ignez, que amplia sua presença, ocupando de corpo inteiro todo o processo de criação do cinema. Há ainda a colaboração sensível e precisa do ator André Guerreiro, do carisma e verdade pessoal de Ney Matogrosso, que se transfigura na tela. Ney se apropria dos diálogos de Rogério e, num certo plano de identificação, encarna o personagem de forma insandecida, seguindo, no melhor sentido, a tradição fundada por Paulo Villaça no Bandido-matriz...
5. É fascinante (e intrigante também) verificar que Rogério começou a escrever crítica de cinema, no jornal O Estado de S. Paulo, aos 16 anos de idade, e que, logo depois, entre os 20 e 23 anos de idade, realizou dois filmes fundamentais, O bandido da luz vermelha e A mulher de todos. Foi um gênio precoce que, depois, por várias razões, deixou de fazer filmes de longa-metragem por mais de uma década. Como você avalia esses anos iniciais de sua carreira, comparando-os com os anos subsequentes? Pois é, depois de duas obras-primas, a criação com Helena e Bressane da produtora Belair, que foi um capítulo marcante na história do cinema independente brasileiro, afinal foram sete filmes produzidos em poucos meses, o Rogério se desinteressou de certa forma pelo cinema. Não sei se foi por falta de interlocução e apoio para produção de seus filmes ou, quem sabe, por uma postura contracultural ou, talvez, uma mistura de tudo isso. Assim como Glauber, ele denunciava a "conspiração ambiental para liquidar o talento, que é a matéria-prima de nosso cinema". Daí fez uma viagem para o deserto do Saara, onde filmou o inacabado Mijou, fora do baralho, até enveredar num profícuo diálogo com o cinema de Welles, que resultou numa tetralogia culminante em Signo do caos, seu último filme. Há dois longos intervalos da trajetória de Sganzerla, em que ele não realiza longas-metragens: de 1970 (Belair) até 1977, quando dirige Abismu e de 1977 a 1986, quando inicia com Nem tudo é verdade, sua cartografia sobre a passagem de Orson Welles no Brasil. Sobre este hiato, ele responde: "em primeiro lugar, em nenhum segundo parei, e, como digo em frente à câmera em meu último filme, não mudei, apenas melhorei, melhorei para pior e se não o parece, melhor pra mim". Na exposição, veremos o quão ele se concentrou em sua reflexão permanente, gastando "mais tinta e papel do que negativo e magnético". Neste caso, para se contabilizar a herança criativa de Sganzerla é preciso se reavaliar os parâmetros. De fato, Rogério é um enfant terrible, que começou a ensaiar desde os 11 anos e filmar aos 16 com sua máquina de escrever. Para ele, nem tudo é verdade, mas tudo é matéria de cinema, de HQ a Shakespeare.
6. Ele deixou muitos roteiros inéditos? Há inúmeros roteiros inéditos no acervo da família como O capitão do cangaço (Voodoo Chile), que seria protagonizado por Gilberto Gil, (chegou até a ser convidado por Rogério), A guerra do Contestado, uma de suas obsessões temáticas (chegou a rodar um curta chamado Irani) e A favorita, escrito a quatro mãos com o fotógrafo e colaborador Marcos Bonisson (Signo do caos, Anônimo incomum).
7. Como você avalia o fato de a Editora da UFSC, no ano em que se comemoram os 50 anos da Universidade Federal de Santa Catarina, decidir publicar os textos críticos de Rogério Sganzerla? Em tempo, a Editora da UFSC, numa iniciativa ágil e ousada, reconhece e faz justiça a um dos maiores artistas catarinenses, conferindo a sua produção crítica um tratamento gráfico e editorial sofisticado e inventivo, em fina sintonia com o cinema sem limites de Sganzerla. Certamente essa edição terá um impacto internacional, deflagrando uma revisão da obra de Rogério, pouco estudada e merecedora de novas iniciativas desta envergadura. É uma obra que, primeiro, precisa de um projeto sistemático de catalogação, restauração e conservação e, depois, um projeto gráfico que tenha continuidade e abarque outros aspectos, como a série de roteiros filmados e inéditos, escritos pelo cineasta a espera de publicação. Esta edição de textos críticos é um passo relevante, para uma ação mais abrangente, que envolva toda a produção intelectual do cineasta-maior que se projetou de Joaçaba para o mundo.
Parte desta entrevista foi publicada no jornal Diário Catarinense, Florianópolis, 5/6/2010. Suplemento "Caderno de Cultura", p.2-3.
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