PATÓPOLIS: ENTRE A MEMÓRIA E A FICÇÃO
Dirce Waltrick do Amarante*

ENTREVISTA COM MARCELO COELHO SOBRE O LIVRO "PATÓPOLIS"

 

Florianópolis, 13 de fevereiro de 2011.

Num dos ensaios de "Infância em Berlim", Walter Benjamin lembra que "nunca podemos recuperar totalmente o que foi esquecido. E talvez seja bom assim. O choque do resgate do passado seria tão destrutivo que, no exato momento, forçosamente deixaríamos de compreender nossa saudade."

Em "Patópolis", livro lançado no final do ano passado pela editora Iluminuras (SP), o jornalista e escritor Marcelo Coelho parece retomar e desenvolver a teoria de Benjamin. Aliás, seu livro, como o de Walter Benjamin, é uma mistura de memória com crítica literária (a mais refinada e contemporânea), incorporando as devidas notas de rodapé. Logo no início de "Patópolis", lemos que "a infância: de seu mal-entendido, de sua desproporção entre cabeça e corpo, retenho um quadrinho, um desenho, que vi numa das histórias de Disney, lida e relida, mil vezes, e que não lembro como continua."

Mas o escritor se esforça para reviver suas lembranças: vem daí o choque do resgate do passado e da experiência com as estórias de Walt Disney.
"Patópolis" traz também uma reflexão sobre os produtos culturais produzidos para a infância. Esta, para o escritor, é o "reino da necessidade", do olhar novo e curioso para o mundo: "E as crianças talvez se vistam de marinheiro porque acabaram de desembarcar no mundo. Razão forte, aliás, para o fato de vomitarem tanto: falta de hábito com a terra firme." A epígrafe de Walt Whitman, escolhida por Marcelo Coelho, enfatiza essa tese: "... um menino curioso, nunca perto demais, nunca os perturbando. Cautelosamente expiando, absorvendo, traduzindo."

Mas, para apreciar o que um dia nos encantou, como diz Robert Musil, "deves voltar a ser quem eras, a ilusão persiste em meio à ilusão."
Quanto aos livros infantis, Marcelo Coelho lembra que o dinheiro do Tio Patinhas estava seguro, escondido nas estantes de sua "biblioteca infantil" (fundada justamente para ocultar a sua fortuna), entre livros que ninguém tem interesse em ler, ou dentro de um enorme boneco que, através de um dispositivo mecânico, contava "histórias infantis, historietas".

Sobre essas e outras questões, desenvolvidas em "Patópolis", o escritor Marcelo Coelho fala na entrevista que me concedeu a seguir.

 

 

ENTREVISTA COM MARCELO COELHO SOBRE O LIVRO "PATÓPOLIS"

 

P: O título "Patópolis" poderá levar o leitor a crer, inicialmente, que encarará uma dessas leituras fáceis, ou então mais um dos "Contos Chatos", coletânea lida por Donald e citada em "Patópolis". Poderia falar da escolha desse título?

R: Sem dúvida, há uma brincadeira entre o livro que Donald lê e o livro que o próprio leitor de "Patópolis" está lendo. É como se eu não me preocupasse em estar sendo chato ao escrever, ou pretensioso, ou incompreensível, uma vez que subliminarmente eu próprio estaria indicando ao meu leitor que ele não deveria prosseguir na leitura do que eu escrevi. De certo modo, essa é uma tradição antiga, a do "Leitor, abandone este livro!", que está na página inicial dos "Ensaios" de Montaigne, por exemplo. Vale também lembrar que minha intenção inicial era fazer com que no final de "Patópolis" aparecesse um 'conto chato', de minha lavra, que fosse como um daqueles lidos por Donald. Na verdade, comecei a escrever esse conto chato, que depois evoluiu para uma novela independente: chama-se "Jantando com Melvin", e acabei publicando-a antes mesmo de terminar "Patópolis".

P: Em "Patópolis", livro que mistura memória com crítica literária, existe uma aparente falta de nostalgia. Nessa falta de nostalgia há uma tendência ao "caráter destrutivo", o qual, segundo Walter Benjamin, "não vê nada de duradouro", ou "não idealiza imagens" e, justamente por isso, está sempre em busca de um novo caminho, de uma nova imagem.

R: De fato, não tenho nostalgia nenhuma pela infância. Gostaria que fosse menos duradoura, mas o contrário acaba acontecendo: as memórias da infância sempre voltam à minha cabeça, como moscas... E tenho a impressão de que esse é um dos dramas vividos pelo próprio Donald, sempre vestido de marinheiro, tentando passar por um pato adulto, mas caindo nas esparrelas, birras e ataques de fúria típicos de uma criança. Nesse sentido, o livro, ou melhor, o andamento do livro, parece sempre estar procurando saídas e novas imagens, mas na verdade tudo se trata de um andar em círculos, de uma prisão da memória. O presente, a rigor, não consegue se impor, porque a memória do passado não deixa.

P: Os seus personagens parecem viver apenas o lado fastidioso e amorfo do cotidiano (segundo Maurice Blanchot, o cotidiano também pode ser o inacabado, portanto, inesgotável), sem quase nenhuma epifania, já que "não é sempre que surge, eureca! a lâmpada de uma ideia salvadora...", como lemos em "Patópolis". Você poderia falar sobre isso?

R: Não consigo mesmo ver esse aspecto inacabado e inesgotável no cotidiano, de que fala Blanchot. Se é cotidiano, é rotina e repetição. Não desgosto da rotina, entretanto. E acho mais "artística", por assim dizer, uma realidade em que pouca coisa acontece. O humano nesses animais é sem dúvida sentir, como no "Eclesiastes", que não há nada de novo sob o sol. Já ideias de milagres, adventos, evangelhos, podem ser bonitas, mas têm seu lado meio espetacular e sensacionalista.

P: Ainda no tocante ao tédio, ele está relacionado ao regime de governo dos patopolenses e à sua "igualdade de abajures", ao seu "socialismo de torradeiras elétricas" e à escassez de tudo, inclusive de idéias. Essa escassez está presente nos acontecimentos do dia a dia dos patopolenses e também nas memórias de infância de Marcelo Coelho, vivida na era da ditadura militar no Brasil. Fomos de fato um dia patopolenses?

R: Continuamos a ser, eu acho! Certamente o passado tem um componente de ridículo (modas, medos, convicções) que nos escapa no presente, mas a sensação "patopolense" de que estamos numa espécie de coletividade forçada e estereotipada é muito forte para mim.

P: Num determinado momento de seu livro, você define a infância como "reino da necessidade" e a criança como uma invenção. Existe aí uma distinção entre infância e criança, dois termos que lhe são caros, já que você é também autor de livros "infantojuvenis" e reflete sobre o tema. Como você vê o uso desses termos no mercado editorial e nas escolas?

R: Acho que há um bocado de abuso e desorientação nessa área. Não entendo a própria ideia de falar na Criança e no Adolescente como se fossem um só problema a ser cuidado pelo mesmo Estatuto legal. A criança pode até existir, o adolescente é certamente uma invenção das mais artificiais. Em todo caso, a menção ao termo "invenção recente" era uma alusão a "As Palavras e as Coisas", de Michel Foucault, que a dado momento declara que o homem ou o humano são apenas uma construção do discurso, esse tipo de lance formidável de retórica que, digamos, não seria muito injusto considerar uma bela pata-coada. Acho muito bom que existam mais e mais lançamentos de livros para crianças e jovens, às vezes cuidadosamente calibrados conforme a faixa etária. Gosto muito quando se investe em não-ficção para crianças. Meus livros para crianças têm aliás um aspecto mais memorialístico e menos inventado também. O grande problema, a meu ver, é que se banaliza demais o livro para criança, fazendo produtos que são mais ou menos brinquedos, com zero texto, e se pensa que assim se estimula a criança a ler quando for maiorzinha. Querem entupir demais a criança de livros, e acho normal que existam crianças que não gostem de ler, assim como há as que não gostavam de correr ou jogar bola (o meu caso).

P: No seu livro você define a leitura como "uma queda lenta", um "despencar-se sem gritos no poço sem fundo do elevador das letras". Quem é o leitor Marcelo Coelho? Como você definiria seu processo de (re) leitura dos quadrinhos de Disney?

R: Eu realmente me perdia naquelas revistas, lia-as inúmeras vezes, decorando várias falas dos personagens. Muitas vezes guardo de um livro apenas algumas frases, algumas construções vocabulares, enquanto a história propriamente dita se apaga rapidamente. Por isso, aliás, romances e filmes muitas vezes não me prendem a atenção; acho que o palavrório, ou alguma formulação especialmente contundente e feliz, têm uma atração maior sobre mim, e me fazem afundar naquilo que, visto de outro modo, seria apenas a superfície plana e chata de uma página.

 

 

* Tradutora e ensaísta. Autora de Para ler Finnegans wake de James Joyce (Iluminuras, 2009). Coeditora do site de arte e cultura www.centopeia.net

 


 

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