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Entrevista: MARIA ESTHER MACIEL
Por Raquel Wandelli
Maria Esther Maciel é organizadora da obra “Pensar/Escrever o animal: ensaios de zoopoética e biopolítica” (EdUFSC, 2011), professora de literatura na Universidade Federal de Minas Gerais, romancista e autora, entre outras obras, de O animal escrito: um olhar sobre a zooliteratura contemporânea (Lumme Editor).
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P. Como você situa dentro do pensamento contemporâneo o movimento inserido nessa obra que se propõe a refletir sobre as questões da animalidade?
R. O livro parte de duas instâncias: de um lado a reflexão sobre animais e a animalidade, de outro as relações entre humanos e outras formas de vidas. Esse tema tem estado em evidência em vários campos do conhecimento, sobretudo, na Europa, América do Norte e Austrália, onde é uma questão muito viva. Envolve estudos na área de zoologia, filosofia, literatura, artes, antropologia, ecologia, compondo um novo campo multidisciplinar chamado Estudos Animais. Esse livro é uma tentativa de contribuir para a efetivação desse campo de estudos no Brasil. Creio que é o primeiro livro no país a buscar uma abordagem transdisciplinar da questão animal, sob o prisma das mais recentes discussões que tem mobilizado o pensamento contemporâneo sobre o tema.
P. Quem são os precursores desse pensamento?
R. Eu diria que Montaigne, no século XVI, foi quem prefigurou esse pensamento, através de seu magnífico ensaio “Apologia de Raymond Sebond”. Muitas das considerações apresentadas por ele se fazem presentes, hoje, nos estudos sobre as relações entre humanos e outros animais. Em Derrida, por exemplo, que se tornou uma das referências mais importantes nesse campo, sobretudo através de livros como “O animal que logo sou (a seguir)” e “La bête et Le souverain”. Podemos citar também as abordagens biopolítica de Agamben, as preocupações bioéticas de Peter Singer, autor de “A libertação Animal”, Deleuze e Guattari, com o conceito de devir-animal, Foucault ao investigar a relação entre animalidade e loucura, o conceito de animalidade formulado por Georges Bataille, a noção de “companion species” de Donna Haraway. No Brasil, Eduardo Viveiros de Castro é a grande referência, hoje, para a reflexão sobre as relações entre humanos e animais. Enfim, são autores de diversas áreas que realizam estudos instigantes nessa área de estudos.
P. O que estaria no âmago do antropocentrismo?
R. Trata-se de um sentimento de soberania e superioridade humanas, que leva à inferiorização das demais espécies. O antropocentrismo hierarquiza e tiraniza não só as diferentes espécies de viventes, mas os próprios humanos, subjugando os que são tidos como inferiores (associados a uma visão negativa de animalidade) e, por isso, podem ter suas vidas controladas pelas instâncias de poder. Ou seja, o poder soberano delibera sobre a vida e a morte desses grupos de pessoas relegadas ao lugar de prisioneiros de guerra, como fez o nazismo, por exemplo. Em síntese, a maneira como o homem soberano trata os animais é transposta para as relações humanas nesse exercício de poder em que se pode dispor da vida do outro e determiná-la.
P. O que há de novo nessa retomada da crítica ao antropocentrismo e à racionalidade humana?
R. Pela primeira vez estamos nos deixando perturbar pela presença do animal. Nessa “reviravolta animal”, estamos deixando que surja esse outro de nós mesmos, que foi excluído, desprezado, em nome da máquina antropocêntrica. O animal volta como referência para se repensar o conceito de humano e as relações entre humanos e não-humanos.
P. Aliás, a questão da animalidade ganhou impacto quando o filósofo francês Jacques Derrida publicou “O animal que eu sou”, partindo da perturbação pessoal que lhe causava o olhar de seu gato e chamando atenção para o fato emblemático de que até então a filosofia ocidental nunca havia refletido sobre como pode o animal olhar o homem...
R. Derrida faz uma crítica radical a uma linhagem da filosofia em que se inscrevem Aristóteles, Descartes, Heidegger, Levinas, dentre outros que analisam o homem partindo de um ponto de vista antropocêntrico e definindo os chamados “próprios do homem”, ou seja, as propriedades específicas dos humanos em relação aos outros animais. Derrida fala da importância dessa questão para a filosofia contemporânea e, a partir de um outro olhar, busca desestabilizar o conceito clássico de humanismo.
P. Mas afinal, porque a humanidade precisa pensar sua animalidade?
R. Aproximar-se do animal é uma forma de recuperação da animalidade e de reconfiguração do próprio conceito de humano. O ser humano pode se pluralizar com essa relação. É o exercício mais radical de alteridade e condiz com nossa necessidade atávica de recuperar uma animalidade perdida.
P. E como você vê a emergência política dessa temática para a sociedade como um todo?
R. De um lado, há uma questão contextual concreta, relacionada às grandes catástrofes ecológicas, que propiciam uma tomada de consciência quanto à natureza e ao equilíbrio entre todas as formas de vida. Por outro, há a própria crise do conceito de razão como uma faculdade superior, própria do humano, capaz de dar a ele o poder sobre as demais espécies. Estamos vivendo uma crise da filosofia humanista de feição antropocêntrica e revendo nossa maneira de nossa relação com tudo o que nos cerca. Trata-se de reconfigurar o próprio estatuto do humano.
P. Em síntese, quando e como a ciência estabeleceu a cisão entre homens e animais?
R. É difícil dizer, porque animalidade não é algo que se possa definir com precisão. A cisão se deu muito com o triunfo da razão cartesiana, que legitimou a superioridade humana e propiciou as relações de domínio dos homens sobre demais viventes. Essa cisão deixou o humano desprovido de algo que é inerente à nossa condição animal.
P. Em grande medida, tudo o que a ciência definiu sobre o homem o fez em contraste ao que pressupõe como suas vantagens sobre o animal. Mas nós sabemos quem é o animal?
R. Somos totalmente ignorantes em relação ao animal, que é um estranho por excelência, pois como imaginar o que o animal sente, pensa ou é? Não há linguagem comum que permita esse conhecimento. Os estudos da animalidade estão atentos às descobertas recentes da etologia sobre as qualidades dos seres não humanos em termos de inteligência, de sensibilidade, de atributos que eram tidos como humanos. Hoje esses estudos de comportamento animal têm revelado propriedades impressionantes em diferentes espécies de viventes.
P. Inclusive no campo da linguagem, que é um limite demarcado como o que distingue o humano por excelência?
R. Sim, há um campo exploratório bastante interessante, que tem realizado pesquisas sobre formas de comunicação entre animais da mesma espécie e espécies diferentes, sobre as várias linguagens animais. Esse campo, chamado zoosemiótica, criado por Thomas A. Sebeok nos anos sessenta, tem avançado, sobretudo, no leste europeu.
P. A ciência e o pensamento cartesiano ocidental se sustentam na distinção do humano, mas a literatura, as artes, as culturas pagãs e primitivas nunca se restringiram a essa prisão do homem como um ser absoluto que domina o mundo. Todos são povoados por personagens e figuras míticas que experimentam formas híbridas entre humanos, animais, vegetais, máquinas...
R. Sim, inclusive através da literatura é possível traçar a história do animal e de sua relação com os humanos. Desde as fábulas de Esopo, desde os gregos antigos, os animais aparecem na literatura de diferentes maneiras: antropomorfizados, alegorizados, metaforizados ou como personagens merecedores de consideração enquanto outros que sentem, sofrem e compartilham nosso espaço no mundo. Em geral, a literatura ficou muito voltada para a metáfora pejorativa ou fantástica do animal. Desde os gregos, passando pela Idade Média, o animal literário foi colocado a serviço do humano. A mudança de parâmetro se deu na idade moderna, em função de Darwin, da teoria darwiniana que questiona o criacionismo e marca as origens animais do homem. Depois, os avanços da ciência do animal fizeram com que ele aparecesse em sua autonomia e relevância enquanto ser vivo (e não apenas como primitivo do homem). Surge também na literatura uma tentativa de exercitar, por vias poéticas e ficcionais, a animalidade.
P. Mas, paralelamente, há um movimento de exclusão e demonização da animalidade nos séculos XVIII e XIX.
R. De fato, isso tem a ver com uma mentalidade religiosa de sacralização da espécie humana a partir da noção de “alma”, que se impôs no período medieval. O catolicismo contribuiu muito para a renegação do animal e para a fixação desse estigma que o relega à inferioridade, violência, irracionalidade, loucura, sexualidade, perversão. Os animais são os que não têm alma. Esse especismo religioso teve repercussão simbólica na literatura com o surgimento dos monstros, híbridos entre formas humanas e animais. Também o moralismo puritanista do século XIX propiciou a emergência desses monstros na literatura, revelando uma animalidade recalcada, que vem do imaginário como monstruosa e ameaçadora. Hoje os vampiros e os lobisomens retornaram à cena na ficção literária e cinematográfica, mas esvaziadas de sua animalidade.
P. Sim, são formas monstruosas domesticadas, controladas, que fazem sucesso pelo seu aspecto bizarro, mas não abalam o antropocentrismo... Muito diferente da experiência perturbadora que vivenciamos, por exemplo, com a leitura de “Paixão segundo G.H.”, de Clarice Lispector...
R. Ocorre que, a partir de uma série de mudanças de paradigmas e de questionamento da própria ciência e da razão, houve uma tentativa de recuperar a animalidade de forma menos traumática. Kafka teve um papel fundamental nessa nova maneira de lidar com o animal e a animalidade. No Brasil, temos, entre outros, Clarice Lispector, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, que nos conduzem à ordem animal sob várias perspectivas, que vão do exercício dos afetos, passando pela crítica ao antropocentrismo até o exercício propriamente dito da animalidade, com personagens que fazem o trânsito para a condição animal.
P. Você acredita que um dia olharemos para trás e pensaremos na relação predatória em grande escala que temos com os animais sentindo a vergonha e a perplexidade que hoje temos ao examinar crimes naturalizados no passado, como a escravidão dos negros pelo ocidente?
R. Não sei. A tendência a um mea culpa da humanidade em relação aos animais é remota, apesar de todas as iniciativas que têm sido tomadas para o reparo desses crimes. A convivência humana com os animais em uma comunidade de trocas de experiências e afetos é um pouco utópica. Infelizmente meu receio é que, daqui a um tempo, já não haja mais animais, que seja extinto esse outro que nos proporciona uma experiência radical de alteridade. Continuarão existindo os animais dos zoológicos e os que são criados nas granjas e fazendas industriais para a produção de alimentos, numa reprodução em série e cruel, dentro do pior do sistema capitalista. E aparecerão, cada vez mais, os artefatos, os animais artificiais criados pela engenharia genética, pelo avanço tecnológico acelerado. Constata-se, hoje, uma destruição avassaladora da vida animal selvagem e livre, paralelamente à humanização excessiva dos animais de estimação e à produção massiva de viventes em condições bárbaras, seres de vida curta e programada.
P. E qual a conseqüência para a humanidade do desaparecimento dessa condição mais plena do animal enquanto um “outro” que proporciona a experiência limite de alteridade com o desafio e o mistério que oferece?
R. Se os animais desaparecem, o mundo perderia vida e o homem perderia a oportunidade de aprender o que é esse outro e assim de conhecer a si mesmo e as suas potencialidades.
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