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Se Edward Lear (1812-1888) nunca deixou de ser publicado em terras de língua inglesa, por aqui, no contexto latino-americano, o artista britânico ainda é relativamente desconhecido. Mas, aos poucos, seu nome e seu nonsense (termo que denomina um gênero literário hoje muito difundido e que foi tomado de empréstimo de seu primeiro livro de poemas, A Book of Nonsense (Um Livro de Nonsense), de 1846) vêm se impondo entre nós.Em 2004, o importante escritor argentino César Aira publicou Edward Lear (Rosario: Beatriz Viterbo), livro que analisa o nonsense do artista inglês. No Brasil, além de duas antologias de limeriques de Edward Lear, poemas curtos com quatro ou cinco versos, conforme disposição gráfica -- Sem Cabeça nem Pé Adeus (São Paulo: Ática, 1992) e Adeus, Ponta do meu Nariz! (São Paulo: Hedra, 2003) --, existem ainda traduções esparsas de alguns de seus poemas longos, como, por exemplo, as que se encontram no livro Contos e Poemas para Crianças Extremamente Inteligentes de Todas as Idades (Rio de Janeiro: Objetiva, 2003), uma coletânea de textos do crítico norte-americano Harold Bloom. Sobre Edward Lear, no contexto nacional, temos ainda um excelente estudo sobre o seu nonsense, Rima e Solução: A Poesia Nonsense de Lewis Carroll e Edward Lear (São Paulo: Annablume, 1996), de Myriam Ávila. No final de 2005, por fim, a cantora e compositora gaúcha Adriana Calcanhoto, sob o pseudônimo de Adriana Partimpim, lançou um DVD para crianças, Adriana Partimpim: O Show. O DVD, acompanhado de um cd, reproduz o show que fez grande sucesso entre o público adulto e infantil, merecendo também muitos elogios da crítica especializada. Nesse DVD, Adriana interpreta fragmentos do poema “The Owl and the Pussy-cat” de Edward Lear, ou “O Mocho e a Gatinha”, na tradução de Augusto de Campos musicada por Cid Campos. Assim, Adriana Partimpim introduz Lear ao público brasileiro através de seu poema mais conhecido. Mas não é só no Brasil que Lear está sendo servido às massas. Em breve, em sua própria terra, a Inglaterra, ele estará nos cinemas também. A trágica vida amorosa desse poeta, escritor, pintor e desenhista inglês, um dos pais da literatura nonsense vitoriana, junto com seu contemporâneo Lewis Carroll, autor de Alice no País das Maravilhas, é tema de um roteiro cinematográfico, em fase de produção, do escritor e ensaísta britânico Michael Montgomery, autor do livro Lear`s Italy: In the Footsteps of Edward Lear (A Itália de Lear: Seguindo os Passos de Edward Lear. Londres: Cadogan, 2005), recém-lançado na Inglaterra. A data do início das filmagens do roteiro de Montgomery, cujo título The Owl and the Pussy Cats (A Coruja e as Gatinhas) faz alusão ao famoso poema “The Owl and the Pussy-cat” (“A Coruja e a Gatinha”, numa tradução possível que preserva a ambigüidade sexual dos protagonistas), ainda não está decidida, mas nomes como Helen Bonham-Carter e Jim Broadbent, ganhador de um Oscar como ator coadjuvante pelo filme Íris e que já aceitou o convite para interpretar Lear, são cotados para integrar o elenco.
A respeito de seu roteiro e da obra de Edward Lear, Michael Montgomery deu a seguinte entrevista:
PERGUNTA: Recentemente você publicou um livro sobre a estada de Lear na Itália (Lear`s Italy in Footsteps of Edward Lear. Londres: Cadogan, 2005). Agora você se dedica a escrever um roteiro sobre a vida amorosa de Lear, detendo-se, sobretudo, no período subseqüente ao ano de 1870. Os dois trabalhos, o livro e o roteiro, apresentam aspectos distintos da biografia do artista: no livro, o Lear viajante é valorizado, já no seu roteiro você valoriza o ser humano, suas paixões e amizades. De fato, estudiosos acreditam que, para compreender o nonsense criado por Lear, é necessário primeiro entender a sua vida. Você concorda com isso? MONTGOMERY: Grande parte de seus versos nonsense está certamente matizada de sua própria experiência na vida real, e o conhecimento dessa última lhes confere um sabor a mais para o leitor apreciá-los. Um exemplo particularmente notável é o poema “The Courtship of the Yonghy-Bonghy-Bò” (“O Galanteio do Iongui-Bongui-Bô”), que foi escrito durante o período da sua primeira proposta de casamento abortada a Gussie Parker e da notícia do seu subseqüente noivado com Adamson Parker. Em julho de 1887, três meses após a coragem lhe ter faltado pela terceira e última vez, ele a identificou especificamente com a “Senhora”, mencionada no poema, ao escrever para um amigo sobre suas pinturas: “O, aquela Senhora Jingly Jones poderia vê-las! Se pelo menos ela fosse livre, acredito que agora certamente eu poderia propor-lhe casamento” (Parker morrera na realidade quatro anos antes). Como esse, muitos outros poemas também aludem à falta de dinheiro que o afligiu a maior parte de sua vida, mas seria um erro exagerar a procura desse tipo de alusões: afinal, sua primeira intenção era divertir e “ver seus pequenos felizes”, como escreveu na introdução ao seu primeiro livro de nonsense. PERGUNTA: Sobre o seu roteiro mais especificamente, o título The Owl and the Pussy Cats (A Coruja e as Gatinhas) é uma referência ao poema “The Owl and the Pussy Cat” (“A Coruja e a Gatinha”) de Lear. O plural (“Pussy -Cats”/ “Gatinha”) se refere, segundo se lê na sinopse do roteiro, às muitas mulheres pelas quais Lear se apaixonou, ou poderia ter se apaixonado. Sabe-se que, de acordo com os biógrafos de Lear, como por exemplo Vivien Noakes, a mais renomada deles, Lear nutria por seus amigos também algum tipo de “paixão”. Além disso, alguns estudiosos opinam que “The Owl and the Pussy-cat” discute a homossexualidade de Lear, já que em momento algum é determinado o sexo dos protagonistas do poema; ademais, se olharmos com atenção as gravuras de autoria de Lear que acompanham o texto, confirma-se ainda mais a dúvida em relação ao sexo dos protagonistas, uma vez que a gatinha se parece muito mais com um gatão e a coruja oscila entre um animal masculino e feminino. Existem indícios, nas páginas de seu diário, que o artista teria pensado num envolvimento amoroso, por exemplo, com seu amigo Franklin Lushington. Esse aspecto da biografia de Lear, muito embora não existam provas contundentes sobre ele, não é mencionado em seu roteiro. Qual a razão? MONTGOMERY: Na minha opinião, a tentativa de encontrar alusões homossexuais em “A Coruja e a Gatinha” é exatamente o excesso de zelo contra o qual tenho alertado! Eu desafio qualquer um a determinar o sexo de uma coruja ou de um gato a partir do distanciamento com que Lear os descreveu: ele mesmo costumava levar um violãozinho (no poema “A Coruja e a Gatinha”, a Coruja canta ao som de um violão) em suas viagens, e uma antiga coleção de poemas nonsense que o escritor leu quando criança incluía um texto sobre uma “Viúva (ênfase minha) Towl que navegou com uma Coruja” (‘Widow (my emphasis) Towl Who went to sea with an Owl’). Apesar disso, é certamente verdade que ele tinha inclinação por amizades estreitas com homens, particularmente Franklin Lushington (o qual eu incluo em algumas cenas do meu roteiro), mas Lear foi decididamente heterossexual durante toda a sua vida: logo depois de sua chegada à Itália, aos vinte e cinco anos, ele escreveu para o seu mentor, John Gould, o seguinte: “Queira Deus que eu tenha uma esposa!”, e, cinqüenta anos mais tarde, ele ainda estava pensando em propor casamento a Gussie. O fator crítico na sua composição psicológica foi o sentimento de isolamento criado pela dispersão de sua família em razão da bancarrota de seu pai, quando Lear tinha apenas seis anos, sentimento que foi reforçado, mais tarde, por suas deficiências físicas, e os seus diários que se salvaram mostram que os últimos trinta anos de sua vida foram dominados por queixas ainda mais amargas de solidão.
PERGUNTA: The Owl and the Pussy Cats apresenta Lear sob o seu aspecto artístico menos conhecido do público em geral, qual seja, o de pintor. Qual a importância da pintura de Lear ainda hoje e no seu tempo? MONTGOMERY: A reputação de Lear como artista foi amplamente obscurecida pela popularidade de seus versos nonsense, mesmo durante a sua vida, e quando Lady Strachey publicou uma antologia de suas cartas vinte anos após a sua morte, ela escreveu que “Apenas para uns poucos cultivados e sobreviventes da geração passada que possuem seus trabalhos a sua pintura existe”. Sua revalorização atual como pintor foi despertada pelo sucesso da exposição de sua obra, patrocinada pela Academia Real em Londres, em 1985, que atraiu mais de 50.000 visitantes, e, além disso, num leilão, uma de suas maiores pinturas a óleo foi vendida por mais de 200.000 libras esterlinas. Sua primeira profissão, como um ilustrador de pássaros – sua “Família de Papagaios” foi publicado quando tinha apenas vinte anos –, fez com que fosse aclamado como “o Audubon Britânico” (uma referência a John James Audubon, naturalista norte-americano, que desenhava e escrevia sobre pássaros); contudo, problemas com seus olhos cada vez mais fracos o forçaram a retornar às paisagens e às aquarelas, antes de finalmente envolver-se nas pinturas a óleo, no que foi fortemente influenciado pelo “Pai” dos pré-rafaelitas, William Holman Hunt. Nos seus últimos anos ele contava para sobreviver com os honorários da venda de desenhos que reproduzia por encomenda, mas suas pinturas a óleo e aquarelas esmeradas têm brilho e individualidade – particularmente no uso das cores –, o que faz com que sua obra seja imediatamente identificada.
PERGUNTA: No seu livro sobre Lear, você trabalha com os diários e as cartas do artista. Esse material certamente foi reaproveitado na escritura de seu roteiro. Os diálogos do roteiro são fiéis a esse material? Como foi adaptá-lo para o cinema? MONTGOMERY: Ao servir-me das cartas e dos diários de Lear, meu objetivo foi fazer um roteiro autêntico até onde fosse possível, tanto no aspecto histórico quanto nos diálogos. A maior licença que até agora me permiti foi na seqüência de tempo: na vida real, seus romances com Helena Cortazzi, Julia Goldsmid e Gussie Bethell – todos transcorreram paralelamente ao seu amor não declarado por Emily Tennyson –, abrangem um período de cerca de trinta anos, mas não se pode esperar que os espectadores suportem isso, logo, por essa razão, eu o comprimi em um período de aproximadamente cinco anos. PERGUNTA: Qual a importância do artista Edward Lear na Inglaterra hoje. Quais influências ainda exerce? Edward Lear é ainda lido pelas crianças? MONTGOMERY: Se levarmos em conta o que é considerado hoje como “arte”, é difícil detectar qualquer influência de Lear – de fato, pode-se supor que ficaria verdadeiramente incomodado se qualquer obra fosse atribuída a ele! Todavia, a popularidade de Um Livro de Nonsense é tão grande hoje quanto era antes, e até mesmo a edição de capa dura nunca saiu de circulação. Em 2001 The Times fez uma pesquisa sobre a poesia para crianças favorita de todas as gerações, e a vencedora? “A Coruja e a Gatinha”— naturalmente!
PERGUNTA: Edward Lear e Lewis Carroll são considerados os pais da literatura nonsense vitoriana. Embora tenham sido contemporâneos e freqüentado lugares comuns, não tiveram contato um com o outro. Cada um criou sua própria estética nonsense. Como você vê o nonsense de Lear e de Carroll? MONTGOMERY: Sim, parece que Lear e Carroll nunca se encontraram verdadeiramente, e nas raras referências ao jovem Carroll (de vinte anos), Lear manifesta um pequeno sentimento de ressentimento com o que ele entendia ser uma invasão do último no seu próprio território. É difícil compará-los, uma vez que Lear escreveu principalmente em versos e Carroll em prosa; o exemplo mais estreito de convergência é encontrado, talvez, nos seus respectivos poemas “The Cummerbund” e “Jabberwocky”. A respeito de ambos, porém, deve ser dito que criaram uma área totalmente nova da língua inglesa, a qual continua a florescer nos dias de hoje.
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