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Ronald Polito – mineiro, de Juiz de Fora – é um escritor de gestos mínimos. Primeiro enquanto poeta de elaboradas miniaturas como de passagem (Nankin, 2001), terminal (7Letras, 2006) ou a plaquete de poemas gráficos, com edição própria, intitulada Objetos (1997). Depois, enquanto editor da Espectro Editorial, editora íntima dedicada a pequenas tiragens com pequenos poemas de autores geralmente pouco conhecidos entre nós. Finalmente, enquanto tradutor e leitor de escritores catalães como Narcís Comadira, Maria-Mercè Marçal e Joan Brossa. Em recente entrevista concedida a Carlos Augusto Lima, poeta de Fortaleza, Ronald terminou escrevendo justamente que “os gestos são mínimos porque as coisas são assim, desse tamanho”. O impulso desta conversa foi justamente o interesse de Ronald pela literatura catalã e especialmente pelo poeta e artista visual Joan Brossa (1919-1998). De Brossa, Ronald traduziu dois de seus três livros publicados no Brasil. Nos últimos três anos – vale mencionar – também foi responsável pela tradução de O porquê de todas as coisas, de Quim Monzó (Globo, 2005); Desdesejo, de Narcís Comadira (Lamparina, 2005); A irmã, a estrangeira, de Maria-Mercè Marçal (Espectro, 2006); e, ainda, ao lado de Josep Domenech Ponsatí, pela tradução da antologia 12 poetas catalães (Lumme Editor, 2007). A conversa se fez, então, em torno deste trabalho de Ronald, da existência e das entradas destes autores no país.
Victor da Rosa – Pelo menos desde o ano de 1993, quando você leu e começou a traduzir, ao lado de Sérgio Alcides, os Poemes Civils de Joan Brossa para o português – tradução que veio a ser publicada cinco anos depois – há um interesse de tua parte pela literatura catalã. Nos últimos anos, você traduziu, organizou e até mesmo editou algumas antologias e poetas determinantes. Gostaria que falasse um pouco deste teu trabalho e da entrada da literatura catalã no Brasil. Ronald Polito – Em outra ocasião já escrevi a respeito, mas é sempre necessário retomar dois pontos fundamentais: a relação de João Cabral de Melo Neto com a literatura catalã, o que levou o leitor brasileiro a tomar conhecimento de alguns autores; o trabalho de tradução mais extenso e detalhado de Stella Leonardos, cuja própria poesia se deixou impregnar por aquele universo literário. As traduções de Stella Leonardos, hoje só encontradas em sebos, são importantes pelo número elevado de autores e pelos critérios de seleção. No que me diz respeito, o acaso me fez conhecer um livro de Joan Brossa, os Poemas civis, através de Sérgio Alcides, que o descobriu e me mostrou. A partir daí foi bastante arbitrário o conhecimento que fui obtendo sobre a literatura catalã. Tanto que o segundo autor que li e traduzi foi Ramon Llull, filósofo medieval. Daí não me recordo exatamente quem chegou primeiro, mas num terceiro momento me interessei muito por alguns autores como Maragall, Salvat-Papasseit, Salvador Espriu, Pere Guimferrer, Josep Carner, Pere Quart, Vicente Molina Foix, Martí i Pol e alguns outros. De Papasseit, por exemplo, traduzi algumas dezenas de poemas e até hoje não publiquei nenhuma. O quarto e último momento, que considero o atual, iniciou-se quando eu estava no Japão e passei a manter contato, a partir de 2003, com Josep Domènech Ponsatí, meu amigo catalão. Ele me apresentou uns 50 autores, no mínimo. Dentre eles, alguns que considero grandes escritores. Em primeiro lugar, Mercè Rodoreda, de quem traduzi Flores autênticas, que considero o texto mais valioso que já traduzi até hoje. Menciono ainda os poetas Narcís Comadira, Maria-Mercè Marçal e Carles Camps Mundo, muito especiais. Sobre a entrada da literatura catalã no Brasil, creio que estamos diante de um terceiro momento cronológico, considerando Cabral e Leonardos os dois anteriores. Que espoca simultaneamente no início e logo depois se diversifica. Basta lembrar que antes de lançarmos Poemas Civis, Joan Brossa esteve no Brasil para o encontro dos três Joões, com ele, Cabral e Ashbery, organizado por Antonio Cicero. Casualmente, a revista Cult publicou extensa matéria sobre Brossa, com texto e traduções de João Bandeira, exatamente no mesmo mês em que saía Poemas civis. E de lá para cá surgiram outros tradutores e há até um livro ou outro traduzido. Para mim, as publicações mais importantes são Tirante lo blanc, de Joanot Martorell, com a merecidamente premiada tradução de Claudio Giordano, além de A praça do Diamante e Espelho partido, dois grande romances de Mercê Rodoreda, com excelente tradução de Luis Reyes Gil. Mas há também diversos textos de Ramon Llull, que adquiriu certa visibilidade no pensamento atual. De minha parte, traduzi, dentre outros, O porquê de todas as coisas, de Quim Monzó, o autor homenageado na Feira de Frankfurt do ano passado, cujos contos são mais que divertidos. Victor – Um tradutor ou um organizador é, de algum modo, também um crítico que seleciona, recorta, faz opções e relações. Praticamente todos estes escritores são da segunda metade do século XX, inclusive muitos se mencionam – lembro de Maria-Mercé Marçal falando de suas sextinas como “devedoras do espírito com que Joan Brossa se lançou à investigação sobre as possibilidades da estrofe”. Neste sentido, o que você diria que te interessa na poesia destes autores? Há alguma coisa que os aproxima? Afinal, como foram se delineando estas tuas opções? Ronald – Nem todos são do século XX. Maragall, por exemplo, é do século XIX. Na internet, no site weblivros, você encontrará duas traduções minhas de La vaca cega, que é um poema importantíssimo. Salvat-Papasseit, outro exemplo, escreveu nos anos 20. Por outro lado, o privilégio recaiu sobre a segunda metade do século XX pelo desejo de conhecer a contemporaneidade literária e pensá-la ao lado de outras, como a nossa. No entanto, de algum tempo para cá, meu interesse tem se voltado para a primeira metade do século XX. É uma antologia de poesia desse período que eu gostaria de ter pronta dentro de algum tempo. Mas o interesse comercial que uma edição assim possa ter é praticamente nulo. E sobre as articulações entre alguns dos escritores que traduzi, elas são sem dúvida importantes. Há, por exemplo, um belo poema de Narcís Comadira em homenagem a Maria-Mercè Marçal após sua morte. E Brossa escreveu o prefácio em forma de sextina para o primeiro livro de poemas de Maria-Mercè Marçal. Esses gestos dizem alguma coisa. Mas não creio ser muito distinto esse padrão de sociabilidade literária do nosso.
Victor – Depois da tradução dos Poemas Civis, de Brossa, você também traduziu Sumário Astral – último livro do poeta. Além disso, a literatura de Brossa chega ao país através de poesia vista, com a seleção e tradução de Vanderley Mendonça, muitas publicações esparsas em revistas e, em 2005/2006, ainda, através de consideráveis exposições de seus poemas-objeto em São Paulo, Porto Alegre e no Rio de Janeiro. Mas antes já havia relações entre Brossa e João Cabral de Melo Neto e também com os concretos, que certamente se influenciaram. Parece que sua obra tem sido bem lida e admirada no país. Ronald – Creio que sim. Mas, veja, Brossa é um artista tão múltiplo (ainda que uma unidade o constitua), que seu extenso teatro e seus roteiros para cinema quase são desconhecidos por aqui. E mesmo a poesia, com tantas dezenas de livros, é muito mais diversificada do que o público leitor brasileiro possa imaginar. Privilegiamos certos poemas e temas, digamos assim, mas há outros Brossas. O das inúmeras sextinas, por exemplo, demanda um trabalho árduo de leitura e tradução que ninguém ainda ousou. Por outro lado, mesmo sobre o território do Brossa que conhecemos, seria muito apropriado que se publicasse uma antologia com, digamos, 70 poemas recolhidos de seus livros com poemas em versos livres. Victor – Em dezembro se completam dez anos do falecimento de Brossa. Em janeiro de 2009, ainda, noventa anos de seu nascimento. Estas datas sempre criam uma demanda de visibilidade da obra de escritores e artistas – lembro que a programação do dossiê da Cult, mencionado acima, tinha interesse inicial de homenagear justamente os oitenta anos de Brossa, como afirma aquele editorial, não fosse sua morte repentina um mês antes. Você acredita que estes “outros Brossas” podem aparecer nestes próximos anos no Brasil? Tem notícias de novos projetos neste sentido? Ronald – É muito difícil saber. Acho que poemas dele continuarão sendo publicados aqui e ali. Não sei se há interesse editorial. Ou melhor, ocasionalmente há, mas é fruto de uma conjunção de “acasos”. Às vezes até de ânimo para investir. Eu próprio tenho traduções inéditas de diversos poemas de Brossa, além de alguns que divulguei em revistas. E saberia mais ou menos quais outros poderiam ser traduzidos para compor uma “antologia”, nos termos a que me referi na pergunta 3. Mas não pretendo compor esse livro, como foi o caso dos anteriores. Só se houvesse alguma perspectiva de ele ser publicado. E note: nem estou pensando, num caso desses, em ser remunerado pela tradução. E suponho que mesmo obtendo-se a cessão dos direitos autorais por parte dos herdeiros de Brossa, ainda assim não será nada fácil encontrar um editor que o encampe. Victor – Você acredita que há traços específicos na obra de Brossa que o fazem ser lido especialmente no Brasil? Se pensarmos o humor brossiano, por exemplo, me remete muito ao trocadilho do Oswald de Andrade, a uma graça mais contingente. Ou ainda toda a relação entre poesia e imagem que encontra ressonâncias fortes em uma linha da poesia brasileira a partir da década de 50. Não por acaso, mas talvez eu esteja equivocado, parece que a entrada de Brossa no Brasil hoje acontece também através de escritores que seriam os “herdeiros destas tradições”. Ronald – É possível, sim, que o humor e a pesquisa da interação entre poesia e imagem de Brossa tenham facultado sua entrada no Brasil por certas portas. E que herdeiros, se há, dessas tradições possam reivindicá-lo. No que me diz respeito, como encontrei em Brossa um número elevado de questões entrelaçadas, achei que seria interessante divulgá-lo e conhecer sua obra um pouco mais, o que venho fazendo lentamente. Victor – Você menciona “um número elevado de questões entrelaçadas” que te fizeram se interessar pela obra de Brossa. No Posfácio de Poemas Civis, você também comenta do impacto que foi a primeira leitura deste livro – que o fez, inclusive, estudar a língua catalã. Para terminar: poderia dizer um pouco destas questões? Ronald – Brossa percorreu um campo muito extenso de criação poética. De algum modo, até estendeu-o, ao cobrir um grande território de “enunciados”, a princípio, não poéticos, além de trabalhar com diversas linguagens artísticas e com suas interseções com a poesia. Ele pertence a um segmento particular da arte da modernidade, no qual eu situaria Duchamp e Man Ray, dentre outros, mas teve de encontrar saídas próprias para poder se situar onde queria: no território das vanguardas, além de se distinguir por ter feito especificamente o percurso da poesia para as artes plásticas. Reduzi-lo a qualquer uma delas é meio inócuo. Seria melhor traçar com precisão as aproximações e distâncias que ele guarda com cada um daqueles experimentos, no sentido específico que a vanguarda dá a esta palavra. E trabalhar mais particularmente o privilégio que Brossa confere a temas como a política, o senso comum, a mágica e a alquimia, por mais estranhos que pareçam aqui dispostos um ao lado da outro, para se compreender especificamente sua obra. De minha parte, situado historicamente num mundo depois do moderno, é interessante pensar o trabalho dele e de outros podendo encontrar aqui um usufruto diverso.
* Ensaísta, mestrando em Literatura pela UFSC, e autor das narrativas de “piano e flauta – fragmentos de um romance” (Lumme Editor, 2007). Outros de seus textos podem ser lidos em www.literaturamenor.blogger.com.br
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