Entrevista com José Saramago: Um autor engajado

Por Aurora Bernardini*

Florianópolis, 03 de Julho de 2010

Conheci pessoalmente José Saramago em Lisboa, em janeiro de 1983, quando, embora já escritor muito publicado, ainda não era mundialmente famoso. Na verdade, almoçamos juntos, graças ao convite do prof. Paolo Angeleri, na época adido cultural da Itália em Lisboa e com o qual eu havia colaborado intensamente nos anos em que fora adido cultural da Itália em São Paulo. Ele havia reunido, em saraus promovidos pelo Instituto de Cultura Italiano em Portugal, a fina flor dos escritores e poetas portugueses: Fernando Assis Pacheco, Alexandre O'Neill, José Cardoso Pires, Isidro Gonçalves, Lídia Jorge, Vasco da Graça Moura, Oscar Lopes , Sophia de Mello Breyner Andresen,Urbano Tavares, Wanda Ramos, Nuno Rocha, Rodrigo Tavares, David Moura Ferreira, Fernando Namora, Pedro Tamen e mais alguns, que tive o prazer de conhecer durante minha estada. Alguns deles haviam estado Brasil e haviam sido objeto de um trabalho de Cremilda Medida, patrocinado pela Fundação Gulbenkian e publicado em "O Estado de S.Paulo", com o título (cito de memória) "Os escritores portugueses".

Disse-me Saramago também já haver estado no Brasil e ter tido uma recepção bastante morna por parte de certas "múmias" que não cabe, obviamente, nomear.

Desde o início da conversa, entrou diretamente (engajadamente) "in medias res" e começou:

Sinto-me ibérico, não europeu.

Países onde a Europa vai instalar indústrias poluidoras, de celulose, dos eucaliptos, justamente na faixa costeira onde ela costumava passar as férias de verão.

O projeto do governo é manter a Aliança Atlântica.Antes de 25 de abril, qualquer solução para Portugal devia encaminhar-se para o socialismo, numa democracia política e econômica.

Depois de 25 de abril verificou-se que o que estava no espírito dos militares não era o socialismo, mas tão somente a democratização, com previsão de associações cívicas não partidárias.

Quem fez com que se iniciasse o processo revolucionário não foi o MFA, mas a massa popular que se manifestou de uma maneira intensa. Tivemos uma revolução enquanto ato de desobediência qualificada, uma vez que os militares pediram que não saíssem e as pessoas saíram. Tanto que o embaixador americano foi pronto em declarar: " O caso português é um caso perdido".

Já em 1976, já antes das primeiras eleições, sabia-se que o partido socialista não estava interessado em cumprir seu programa em conjunto com o PCP. O pessoal do partido comunista português é um pessoal capaz e organizado, eles sabem liderar o processo. O partido teve um milhão de votos, com duzentos mil militantes, só que ele é encurralado no interior de muros e apresenta grande dificuldade de acesso ao social.

Há algumas prefeituras, como Évora, P. Alegre e Além Tejo geridas pela aliança de dois partidos: o PC e o MD. A administração dessas câmaras é influente e caracteriza-se por uma eficácia que não tem comparação. Os outros partidos são baronados políticos, sem organização.

Nas Universidades havia caça aos estudantes de esquerda. Mas talvez hoje a situação seja pior. Há uma grande apatia. Hedonismo, droga, desgosto. Os estudantes preparam-se a seguir a carreira dos pais. Um dos grandes males de Portugal tem sempre sido o problema das elites.

Logo depois do rei D. Sebastião, quem se comprometeu em ligar Portugal à Espanha foram as elites. Como se Portugal não pudesse se governar por não ter quem o fizesse. O povo não se assume como elite.

Em "Levantando do chão", que se passa no Alentejo, é contado como, em fevereiro de 1935, os latifundiários foram abandonando as terras cultiváveis. Pois bem, os trabalhadores ocuparam as terras, sem apoio algum, nem técnico, nem financeiro.

Apesar disso, sua capacidade de dedicação à tarefa foi heróica. Sem salário que garantisse a compra de máquinas, gado, etc., organizaram a Unidade Coletiva de Produção. As pessoas que participaram desse movimento são descritas no livro.

Infelizmente a vida política em Portugal se faz em volta da elite política, que não é a elite nacional. A estrutura superior do partido da elite mantém o domínio sobre os estratos inferiores: é difícil passar de um nível a outro, o que é emanação de certa verdade popular. Há poucos que ascenderão por moto próprio.

O intelectual português faz questão de ficar do lado de fora. O intelectual português desanima logo, o trabalho do porão lhe desagrada.

Pratica o ceticismo elegante: quando chegar a hora, lavaremos as mãos.

É assim que eles fazem.

Atualmente, a política está em fase de transição (Mário Soares).

Os jornais e a TV são órgãos amplificadores dos pontos de vista do governo.

Um antigo resistente antifascista é colocado no governo para realizar o programa da campanha, para exigir tarefas, mas o que acontece? Nada. Ele é um dos que se decepcionaram.

Quem lê os livros?

Muitas pessoas que estão tendo um entendimento novo. Muita gente pensa que pode esclarecer-se através da Literatura.

Até 25 de abril os livros lidos eram as traduções de autores estrangeiros, principalmente franceses. Nos últimos anos, isso se tornou claro agora, o leitor prefere o escritor português. De 10 livros, 5 ou 6 são de autores portugueses."Memorial do Convento" vendeu 52 000 exemplares em dois anos. "O Ano da Morte de Ricardo Reis", 21 000 exemplares.

O leitor quer conhecer o escritor, quer falar com ele. A ação cultural tem um objetivo político. O leitor quer fazer perguntas sobre os livros: qualquer coisa que dê esperança. Há um alastramento, o grau de consciência vai se intensificando. O leitor sente que isso é com ele.

 


(*Aurora Bernardini é escritora, tradutora e professora de língua e literatura russas na USP.)

 

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