|
1.) Como começou a pesquisa para o livro “O Sexo Vegetal” (Iluminuras, 2009)? R.: O livro é conseqüência de meus livros anteriores: “Mais ou menos do que dois” (Iluminuras, 2001, São Paulo), “Alongamento” (Ateliê, 2004, Cotia) e “Totem & Sacrifício” (Jakembó, 2008, Assunção, Paraguai), edição bilíngüe espanhol-português. Nesses três livros pratiquei a literatura como posto de observação, ou seja, a literatura é, em todos, o lugar de onde posso ver o mundo. Então são livros visuais, imagéticos, abusivamente até. Neles, a linguagem do “como” (o símile, a comparação) é fundamental. Uma coisa é igual a outra coisa sempre, em todos os meus textos. É assim que consigo descrever o mundo, sentado ou em pé no meu posto de observação -- o verso, poema em prosa, “nova narrativa” etc. Então, de repente, percebi que a linguagem do “como” (usada por escritores que admiro muito, como José de Alencar, Clarice Lispector e João Cabral, entre outros) era um tipo de “sexo”. A comparação pressupõe, parece-me, contato, conexão, por meio dela as superfícies heterogêneas se tocam ou querem se tocar. De repente, então, nasceu o sexo vegetal, ou minha intuição de um possível sexo vegetal, que posso definir, agora, provisoriamente, como uma maneira de fazer a língua do “como” (meu posto de observação poético) alcançar novos horizontes (palavra que aprecio).
R.: Quis começar com o sexo vegetal, porque, segundo os mitos ameríndios -- penso, por exemplo, no poema maia “Popol Vuh” (Iluminuras, 2007, São Paulo), que eu mesmo traduzi para o português, com o auxílio do americanista Gordon Brotherston --, as árvores surgiram antes dos homens. Então pensei comigo mesmo que podia fazer uma glosa mítica, comentando começos -- o instante em que as plantas acolhem (ou expelem) os homens que estão aparecendo no mundo. O meu novo livro é, assim, um livro que fala de começos, é um elogio do começo. Quando penso no começo, assumo outra posição na história do mundo e olho com olhos primitivos ou selvagens o capim, a árvore, a fruta etc. É como se momentaneamente eu retrocedesse ao instante da cosmogonia. Mas faço isso com humor, “nonsense”, não é o regresso místico ao instante inicial, à origem. É sempre um jogo, uma experiência cosmogônica possível ou viável nos dias de hoje e que está ao alcance de qualquer um. Por isso afirmo, logo no início do livro: “O sexo vegetal é uma cosmogonia. Uma humilde (re)criação do mundo.” Aí estou dizendo que cada vez que eu roço num galho, por exemplo, posso estar (re)criando o mundo. Daí também a importância do “décor”, do cenário, nesse livro: junto a cada história, ou glosa mítica, vem um cenário, um mundo vegetal que ora exclui ora inclui o homem. Assim, o livro “O sexo vegetal” é, como todo texto meu, híbrido, duplo, mais ou menos do que dois: compõe-se de pequenas aventuras cosmogônicas, protagonizadas por figurantes humanos em várias regiões do país, e de muitos cenários (quase) vazios, inumanos, que são deixados à margem da narrativa, como para lembrar que o nosso mundo nos obrigará à recriação do mundo, nesse novo cenário que comenta, amplia ou nega o cenário da aventura precedente. Meu próximo livro, aliás, vai se chamar “Figurantes”, e, pelo que sei, descreve seres pós-inumanos, antes ou depois do homem atual. Já descrevi centenas desses figurantes, sei que eles proliferam facilmente, mas ainda não entendi o seu acasalamento. Não pude ainda apreender, do meu posto de observação, as suas práticas sexuais. Assim, o obscuro sexo pós-inumano é o meu novo tema. Não entrei no humano, mas já vislumbro, talvez, algo que está além do homem.
3) Qual seria uma representação contemporânea dos mitos ameríndios? Você citaria outros? R.: Para mim, a representação contemporânea da mitologia ameríndia é a obra de Lévi-Strauss, esse grande recriador dos mitos das Américas. A sua obra “História de Lince”, que cito no meu livro, é fundamental nesse sentido: ela reconta em suas páginas centenas de mitos, de forma sucinta e vibrante, relacionando vertiginosamente uns com os outros. Os antropólogos mais jovens têm também muito a dizer sobre os contatos possíveis e impossíveis entre humanos e inumanos, citarei Philippe Descola e Eduardo Viveiros de Castro, dois especialistas em perspectivismo amazônico, a ciência dos xamãs. Outra referência é o conto “Tantalia”, do escritor argentino Macedonio Fernández, que descreve a relação difícil de um homem com um trevo. Eu cito isso no meu livro. O trevo é um parceiro complexo, poderoso. Falo no livro que o trevo argentino é, ou poderá ser, também sádico. Para mim, isso sim é uma recriação atualíssima do sexo vegetal indígena: uma contigüidade intensa, não necessariamente uma cópula, um ato sexual consumado ou perverso.. Encontro também muito sexo vegetal na música de John Cage, onde galhos e ramos se agitam, emitem sons, viram música, ao serem tocados pelo compositor ou por músicos profissionais e amadores. Aliás, toda a música, mesmo a de concerto, aquela mais tradicional, pratica o sexo vegetal. Não é possível música sem a madeira, pelo menos a música que aprecio. Assim como não é possível música experimental sem o canto dos pássaros: a obra de Olivier Messiaen, mestre de Pierre Boulez, é um exemplo disso. Voltando, porém, à literatura, outro texto magistral, que me influenciou muito, é “Comment une figue de paroles et pourquoi”, de Francis Ponge, que descreve em centenas de páginas a incrível relação de um homem com um figo seco. O homem fica olhando e apertando o figo. Isso é bíblico, mais que indígena. Como sabemos, Eva no Paraíso mordeu um figo e não uma maçã, segundo especulações atuais. No meu livro cito as duas coisas: a maçã e o figo, brinco com essa incerteza e passo do mito ameríndio para o mito bíblico e vice-versa. Mas também cito, no livro, já na epígrafe, o mito grego (e latino), tão cheio de sexo vegetal. E o mito japonês. Homenageio no meu livro, por exemplo, a bananeira que aparece nos haikais e que dá nome ao maior poeta japonês, justamente Bashô, Bananeira, se quisermos traduzir seu nome para o português. Eis aí um caso interessante de sexo vegetal oriental que parece muito indígena. Bashô é filho e pai da bananeira, e decerto marido também. Quando morreu, plantaram uma bananeira sobre o seu túmulo.
R.: Ninguém o registrou tão bem quanto Lévi-Strauss. É o Ovídio das Américas. Descola e Viveiros de Castro também oferecem dados preciosos sobre o papel do inumano na vida afetiva dos indígenas. Mas não devemos ficar só na antropologia: . Clarice Lispector e Maria Gabriela Llansol, a escritora portuguesa falecida recentemente, também entendiam do tema, e são profundamente indígenas mesmo não o sendo na aparência. O que elas dizem, um índio podia dizer. Manoel de Barros também tem grande noção do sexo vegetal, mas, no seu caso, a relação é mais explícita, direta, uma cópula de fato com as árvores, por exemplo. Pode ser impressionante e muito indígena, sem deixar de ser poético. Não é pornográfico, seguramente. O que eu imagino e descrevo no meu livro é diferente: uma continuidade entre o passado mítico e o presente que anuncia uma cosmogonia humilde, uma ilusória (re)criação do mundo, não um gozo pessoal apenas. Manoel de Barros é mato-grossense, nasceu em Cuiabá; eu sou sul-mato-grossense, nasci em Bela Vista, fronteira com o Paraguai. Somos os dois do Centro-Oeste, e a gente do Centro-Oeste é muito dada a relacionamentos com o inumano, seja este planta, pedra ou bicho. Ney Matogrosso, meu conterrâneo, encena nos seus shows e em pelo menos um dos seus filmes cenas desse tipo. Tetê Espíndola, para citar outra artista da voz, se especializou em reproduzir ou recriar o canto de pássaros. Nada disso surpreende, se lembrarmos que o Centro-Oeste é, a cima de tudo, a terra dos xavantes, dos bororos etc. Os xavantes aparecem no meu livro, são índios e/ou japoneses. Eles adoram uma madeira, não se separam dela. São casados.
5) Há tensão sexual entre as plantas? As plantas sentem prazer? R.: Eu nunca imagino as plantas sozinhas, entregues a si mesmas. No meu livro as plantas existem, de repente surge o homem ou a mulher no meio delas. Então, a partir daí, há contato, conexão, ou rejeição, espanto, susto. As plantas, digamos, também têm rosto, para usar um conceito de Lévinas que aprecio muitíssimo. Mas o rosto das plantas, é claro, surgiu antes do rosto humano, então elas podem se olhar, se falar, se comunicar. Sei que as plantas proliferam, então deve haver sexo entre elas. Isso é o começo do mundo. Só que, no meu livro, o homem sempre surge inesperadamente no meio das plantas. Então o sexo vegetal, neste caso, para se efetivar, pressupõe um casal, composto de um inumano e um humano.
6) Como a botânica vê o fenômeno do sexo vegetal? R.: A botânica é explícita demais para o meu gosto. Fala abertamente de hermafroditas, esmiúça “órgãos reprodutores” etc. Para mim, isso é obrigar as plantas a se expor demais. A ciência é impiedosa e sua terminologia muito dura. Li a botânica amadora do Rousseau, achei-a curiosa, confesso (era dirigida a uma menina), e, a seguir, fiz no meu livro uma pequena homenagem ao filósofo. Ele catalogava flores no fim da vida. Mais do que isso não faço pela botânica.
7) O sexo vegetal contemporâneo ainda é uma cosmogonia? R.: Bem, é a minha tese, já expus acima. Toda vez que eu toco numa folha eu sou transportado ao início do mundo e eu então o (re)crio. Ou, melhor, eu (re)crio a situação do primeiro homem que apareceu na Terra, entre flores, vegetais... O homem, o primeiro homem, ainda não era o centro do mundo, muito pelo contrário...
8) Por que o fenômeno ainda é visto como uma aberração? R.: O meu sexo vegetal é mítico e humorado, embora volta e meia possa cair no grotesco, mas não na pornografia nem na aberração. O meu livro tem até parábola infantil. Acho que muitas passagens são líricas. O meu sexo vegetal seguramente não é nem quer ser esse outro sexo vegetal que entende a “cópula” ao pé da letra, transformando o inumano em substituto do humano. No meu sexo vegetal, o humano não é mais o umbigo do Universo, como diria Llansol, e não pode mais sujeitar ou explorar o inumano. É claro que sempre poderá haver um humano perverso ou mesmo uma planta perversa à espreita, em toda cosmogonia. O meu livro cita, por exemplo, um trevo argentino sádico. Uma planta terrível, dessas que enlouquecem um ser humano. Mas qualquer coisa pode enlouquecer um ser humano. Borges falou disso no célebre conto “O Zahir”.
9) A certa altura, você faz um alerta: “as plantas não são inocentes”. Por quê? R.: As cosmogonias poéticas são possíveis. Ou seja, a qualquer momento podemos perder nosso lugar no Universo e voltar às origens, ao seio das plantas. Elas podem fascinar. Elas podem olhar para nós e nos paralisar. Como já recomendou Viveiros de Castro, é preciso ter muita diplomacia nessa hora e sair de mansinho. Por isso eu disse que as plantas não são inocentes. Elas podem nos prender para sempre no começo do mundo. No meu livro, os começos são humildes, não levam a situações extremas como essa. Mas, ao mesmo tempo, o livro todo estremece sob o peso dessa ameaça, a ameaça de ficar preso no começo. Então o narrador, quase sem querer, ou por instinto de sobrevivência, recorreu a certas estratégias para fugir do perigo. Por exemplo, o livro tem um prefácio, o começo de tudo. Mas esse prefácio parece ser o de outro livro e não daquele que se vai ler. (Isso só fica claro numa leitura retrospectiva.) À medida que vai avançando na leitura, o leitor percebe que o narrador não sabe exatamente em que parte do livro está, se no prefácio, num capítulo avançado... Não sabe e não quer saber. As coisas ameaçam cair no caos. Estou plenamente convencido de que o prefácio não corresponde ao texto do livro e que isso salvou o livro, o fez avançar um pouco. O prefácio é um falso começo, uma tentativa de começo.Talvez todo o meu sexo vegetal seja isso: uma mera tentativa de (re)criar ou (re)começar. Ilusória mas inevitável, segundo a tese que defendo no livro. Um voltar para trás para ir para a frente. Esse vai-e-vem (a mecânica do “amor”) é a única referência mais explicitamente erótica que o meu livro contém. Gostaria de acreditar nisso. O resto são toques e visões.
|
||||||||||||||||