Silveira de Souza, o ficcionista

Por Fernando C. Boppré* e Gláucia Dias da Costa* *

Florianópolis, 15 de abril de 2008

No final do ano de 2007, João Paulo Silveira de Souza lançou “Janela de Varrer” (Florianópolis: Bernúncia Editora, 2006). Como todo livro do escritor, surgem novos textos e, sobretudo, reaparecem os antigos. Os mesmos contos que se repetem ao longo de toda a sua trajetória retornam às páginas deste novo livro. Silveira parece trabalhar no interior de um formulário em que, pouco a pouco, refina as disposições possíveis. É o mestre do mesmo no interior de sua própria literatura. Em fevereiro de 2005, fomos até a casa do escritor, no bairro de Itaguaçu, em Florianópolis (SC). Tratava-se, sobretudo, de uma grande vontade de conhecer melhor um dos escritores que se encontra no panteão de nossos preferidos. Por coincidência, ele reside na mesma cidade em que habitamos e, ao contrário de um César Aira ou mesmo de um Franz Kafka (que se encontram distantes ou mortos) ele estava a nossa disposição. Por circunstâncias do destino, a entrevista que fizemos nunca chegou a ser publicada. Retomando-a agora em 2008, em parceria com o autor, refizemos alguns trechos, suprimimos outros, acrescentamos novas questões e voilá: um pouco da vida e da obra de um escritor que atende, simplesmente, por Silveira de Souza.

 

Fernando C. Boppré: O senhor sempre esteve ligado a alguma editora. No final da década de 1950 existiu, sendo que o senhor foi um dos criadores, a “Livros de Arte”, certo?

Silveira de Souza: As Edições do Livro de Arte foram idéia de Hugo Mund Júnior. Eram álbuns artesanais que traziam pequenos textos ou poemas, compostos tipograficamente e ilustrados com xilogravuras. Mund me convidou para participar do projeto e o primeiro álbum, lançado em 1958, intitulado “Sonetos da Noite”, trazia sete sonetos de Cruz e Sousa, por mim selecionados, ilustrados com gravuras em madeira de Mund. Nessa época ele morava no Rio de Janeiro, estudava na Escola Nacional de Belas Artes e se aprofundava na arte da xilogravura, sob orientação de Osvaldo Goeldi. Os “Sonetos da Noite” tiveram boa recepção da mídia; diversos jornais cariocas reproduziram gravuras do livro com os respectivos poemas e foi inserido por Andrade Murici na bibliografia de seu livro “Obra Completa de Cruz e Sousa”, editado pela Aguilar. As Edições do Livro de Arte lançaram ainda “O Vigia e a Cidade” (1960), textos de ficção de minha autoria e “O País de Rosamor” (1962), poemas de Maura de Senna Pereira. As três edições foram ilustradas com xilogravuras de Mund.

FCB: E de onde veio a idéia do Cruz e Sousa, por que não outro poeta?

SS: Cruz e Sousa era e ainda é o grande nome, não apenas da poesia em Santa Catarina, mas do Movimento Simbolista no Brasil. Nada mais justo (e mais honroso para nós) que iniciar o nosso projeto mostrando alguns poemas desse gênio da literatura brasileira, cuja obra, nos anos 1950, não estava nas livrarias e era difícil de ser encontrada.

FCB: Quais as suas influências literárias? É uma pergunta que o senhor já deve ter respondido para muita gente, mas...

SS: Eu procuro evitar influências, pelo menos as influências conscientes, assumidas. E a razão disso me parece lógica: acredito que o propósito de qualquer artista é tentar mostrar o seu universo interior, criando a sua própria linguagem. Sei que isso é extremamente difícil, talvez mesmo impossível de ser realizado integralmente, se considerarmos o volume de nossas leituras. Harold Bloom chega a afirmar que toda escritura é uma espécie de releitura. Tudo bem, por certo Bloom está com a razão. Mas isso não impede as tentativas e experiências pessoais de cada escritor ou artista.

FCB: O senhor tem um conto chamado JLB.

SS: Na verdade é uma crônica, montada a partir de frases e afirmações de Borges. Já houve alguém que apontou a influência de Borges e Machado de Assis (e também de Kafka) em alguns contos meus. Se existe alguma verdade nisso, tal fato só me desvanece, tendo em vista a grandeza e a genialidade desses escritores, embora me deixe um tanto frustrado como criador pessoal. Mas, enfim, essas coisas não podem ser controladas e cada qual tem de cumprir o seu destino. Todos nós temos as nossas dívidas, incluindo-se aí Jorge Luís Borges, Machado de Assis e Franz Kafka, que tiveram as suas.

Gláucia Dias da Costa: O senhor escreve principalmente contos e crônicas, são textos pequenos.

SS: É verdade. Os meus textos dificilmente ultrapassam dez ou doze páginas.

GDC: Tem algum romance?

SS: Não, não tenho. Participei de uma novela, intitulada “Um ônibus e quatro destinos”, na década de 1990, escrita a seis mãos, juntamente com os escritores Holdemar Menezes (já falecido) e Francisco José Pereira. Nessa novela, que buscava recriar o clima dos anos 1950 em Florianópolis e na qual cada um de nós, os autores, assumia integralmente a estória de seus personagens, eu fiquei com o autor da novela, um personagem fictício que, em 1979, escrevia e buscava refletir sobre os acontecimentos da novela, ao mesmo tampo em que vivia o seu drama real, cotidiano. Mas “Um ônibus e quatro destino” foi a única experiência (afora uma rápida passagem pela poesia, com a plaquete “Rumor de Folhas”), realizada por mim numa esfera diversa do conto e da crônica.

GDC: Por que essa opção pelo conto?

SS: Não me parece muito fácil explicar isso. Talvez não seja nem mesmo uma opção, no sentido de algo premeditado. A verdade é que, sempre que me ocorre qualquer idéia ou imagem que considere aproveitável para um texto de ficção, essa idéia ou imagem logo se apresenta em minha mente estruturada de modo econômico, suscinto, na forma de um conto ou de uma crônica. Isto é assim desde garoto. No colégio, quando o professor exigia que escrevêssemos alguma coisa como dever de casa, eu criava estorietas curtas que agradavam e divertiam toda a sala. Além disso, como leitor, sempre dei preferência ao gênero conto. Chega a ser impressionante o número de livros de contos que consumi desde os dez anos de idade até os 74 anos de hoje.

GDC: Há críticos que relacionam o conto e a crônica como gêneros modernos, bastante modernos.

SS: O conto nem tanto, mas a crônica, a chamada crõnica literária, que até podemos considerar hoje como uma das variantes da ficção literária, é relativamente moderna. No Brasil, a bem dizer, ela teve início com Rubem Braga, Fernando Sabino e mais alguns outros.

GDC: Eu acho os seus contos muito urbanos, eu não sei se isso procede, mas parece que a vida urbana, que o sujeito urbano está ali.

SS: É bem provável. O cenário de minhas estórias é a cidade de Florianópolis. Se ela não chega a ser uma metrópole comparável a Rio ou São Paulo, é no entanto um centro urbano relativamente desenvolvido.

FCB: Seus contos apresentam, por vezes, personagens transitando pela cidade, como em “Volkswagen Gelo”, do livro “Quatro Alamedas”.

SS: É verdade. O “Volkswagen gelo”, eu o reformulei por inteiro recentemente. É uma versão, na sua essência, bastante diversificada da anterior.

FCB: E tem essa relação com a cidade que eu acho que é vital na sua obra.

SS: O cenário físico do conto é a Florianópolis da década de 60, quando podiam ser vistos Volkswagen aos montes por aí. Principalmente os famosos fusquinhas. Na verdade o conto me parece uma fantasia bem humorada sobre o consumismo, com algo de “poético”, seja lá o que isso possa significar. Na versão mais recente o título de conto passou a ser “Fusca gelo”.

FCB: Como funciona essa coisa do senhor reformular continuamente seus contos? O texto “Pequenos Desencontros”, por exemplo, pode ser lido em boa parte de seus livros anteriores, com diferenças minuciosas.

SS: Os livros que publiquei, com duas raras exceções, sempre tiveram tiragens muito pequenas, não maiores que 300 exemplares e foram publicados com largo espaço de tempo entre um e outro. Por exemplo, “O vigia e a cidade” é de 1960; “Uma voz na Praça” é de 1962 e “Os pequenos desencontros”, de 1976. Essa foi uma das razões que me fizeram aproveitar em cada novo livro, alguns textos de livros anteriores, ou seja, aqueles textos que se ajustavam à atmosfera do novo conjunto. Acho que Clarice Lispector também fez isso durante algum tempo. Isso pode parecer obsessivo numa perspectiva de hoje, ao se olhar a totalidade dos títulos publicados, mas, na época, mal eram percebidos pelos leitores, que não lembravam (ou até desconheciam) as publicações anteriores (você não deve esquecer que sempre vivemos numa província). Quanto à reformulação de textos, a explicação é simples: quando releio um texto meu e verifico que ele pode ser melhorado, de acordo com a visão literária que possua naquele instante, não tenho a menor dúvida: modifico o texto. Penso que toda arte busca a expressão a mais perfeita possível para quem a está criando. Eu não me importo com leitores e críticos, nem sou um profissional das letras. Eu busco realizar um trabalho de arte (na minha perspectiva, é claro), então vou tentar atingi-lo, modificando o já feito tantas vezes quantas forem necessárias. Não sei se algum dia irei conseguir chegar lá, mas a intenção é essa.

GDC: Como era a movimentação cultural de Florianópolis na década de 50?

SS: Nos anos 1950, quando passei a integrar o chamado Grupo Sul, a movimentação cultural em Florianópolis era intensa, um negócio incrível. Mal comparando, lembrava vagamente o que conhecíamos da Paris do século XIX, com os seus salões, cafés, bares, onde escritores e artistas se reuniam para discussões intermináveis. Talvez a diferença, no nosso caso, era que a cidade pouco participava disso. A cidade era assim como um aglomerado burguês em torno e alheio àqueles malucos. Eu achava aquilo um barato, havia uma integração muito maior do que hoje entre os criadores de toda espécie, uma convivência mais estreita, por exemplo, entre escritores, artistas plásticos, o pessoal que fazia teatro, o pessoal interessado em música.

FCB: O senhor tem saudades? Saudades, de Florianópolis de antigamente? Como é que o senhor lida com isso?

SS: Sem essa de saudade. Tudo acontece no seu tempo e esse tempo é sempre um agora. O velho e genial Camões já nos dizia que “todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades”. Para mim, aquele momento foi um momento de formação (deformação?). Eu me recordo dele lá, mas agora eu estou aqui, vivendo um outro instante, em si mesmo tão importante quanto aquele.

GDC: Como é que era o seu processo de criação na época, eu estava lendo o livro “Um Ônibus e Quatro Destinos”, e daí o senhor escreve a história do escritor, e aí está falando que “e se isso acontecesse...”, é assim que o senhor escreve? Como é o seu processo de produção?

SS: Acho que não diferia muito do processo de criação de outros escritores, cada qual com os seus rituais e manias em relação ao ato de escrever. Numa outra perspectiva, ao comparar os textos que escrevi nos anos 1960, por exemplo, com os que faço hoje, vejo que houve uma significativa evolução no sentido de maior expressividade na linguagem, maturidade de visão, maior proximidade com o “estético”. Mas isso também me parece natural. Se houve uma evolução nesses elementos que me parecem mais ligados à técnica, vejo também que permaneceu, vamos dizer assim, “o meu modo de ver as coisas”: personagens anônimos e cotidianos; a preocupação maior em refletir uma situação humana do que construir um estória linear (com princípio, meio e fim); uma narrativa tendendo para o abstrato ou “poético”, o que pode explicar o interesse pelo ritmo das palavras e também pela criação de uma “atmosfera“ no interior da qual se desenvolve a situação. Como já disse, os personagens de meus textos são anônimos e cotidianos, e os locais são em geral locais de periferia.

GDC: A periferia do Centro, não é?

SS: Exato, a periferia do Centro. Visitei muitas vezes esses locais de periferia. Olhava aquilo, procurava fixar na memória aquelas caras, as roupas que vestiam, as cores, os ambientes, não com a intenção de descrevê-los, ou “fotografá-los” com palavras. Sempre me utilizei muito pouco, apenas alguns detalhes mínimos, dessas observações. Mas elas me ajudavam a dar força e verossimilhança à situação narrada.

GDC: O senhor chegou a escrever também, eu não sei de sua biografia, mas o senhor me parece uma pessoa muito erudita porque escrevia críticas de vez em quando, críticas literárias e artísticas...

SS: Não sei. Sinto que artigos ou ensaios críticos não são o meu chão. E duvido que aqueles que escrevi se notabilizassem pela “erudição”. Na verdade, escrevi muitas resenhas de livros, em parte por obrigação, nos anos em que coordenei as edições de livros da Fundação Catarinense de Cultura, e em parte a pedido de jornais ou de escritores amigos. Eram bem mais comentários impressionistas do que rigorosas análises críticas. A bem da verdade, acho que a crítica literária, no sentido de uma análise rigorosa de textos, é um gênero cada vez mais raro no Brasil de hoje.

FCB: De onde vem o seu estranho interesse pela matemática?

SS: Paradoxalmente, porque eu não sabia nada de matemática. Fui um mau aluno nessa disciplina em meus tempos de colégio, cheguei mesmo a repetir a 3a. série de ginásio porque havia “levado pau” em matemática. Até que um dia decidi, como se diz, tirar aquilo à limpo: era um defeito meu de inteligência ou simplesmente havia sido até então mal informado sobre o assunto? Comecei a olhar livros didáticos e livros de divulgação (existem alguns excelentes), freqüentei um curso superior de matemática e acabei convencido de que simplesmente havia sido mal informado. A matemática é ótima, a geometria e a poesia estão muito próximas. Mas é claro que, quando falo em matemática, estou ciente de que nos dias de hoje ninguém, mas ninguém mesmo, pode conhecê-la em toda a sua extensão. Em um nível não muito profundo, eu me dei bem com a lógica simbólica. Afinal, pra mim, a matemática não é um ofício, uma profissão, mas pura curtição, que às vezes me ajuda a fazer certas abstrações literárias... Se você quiser saber o que a lógica matemática pode fazer na literatura, leia Lewis Carroll.

FCB: E a música, como ela aparece em sua trajetória?

SS: Quando eu era garoto, meu pai, flautista doméstico nas horas vagas, me ensinou, paralelamente a rudimentos de teoria musical, a “soprar” a flauta. Era uma flauta transversa, Böehme, cromada, importada da Alemanha por intermédio de uma loja de São Paulo. Comecei tocando valsas, tangos brasileiros, chorinhos, anotados por meu pai em folhas de música. Lembro que também ensaiei a “Ave Maria” e uma das marchas militares de Schubert. Um pouco mais tarde fiz parte de uma Orquestra Juvenil, aqui em Floripa, regida por Mário Loureiro, da qual, entre outros, participavam também amigos como Pedro Bosco (violoncelo) e Hélio Teixeira da Rosa (violino). Numa apresentação dessa Orquestra interpretei uma “Processión”, de Sardá e uma peça para coral e flauta de Villa Lobos. Lamentavelmente uma vida boêmia na época (com muita bebida e cigarros) contribuiu para que me afastasse do instrumento. Mas permaneceu o gosto pela música, qualquer que seja o seu gênero, popular ou, como se dizia então, “clássico”. Possuo muitas gravações, em vinil, em CD e DVD, de uma “quase infinidade” de músicos, mas continuo sempre fiel a alguns poucos: Bach, Mozart, Beethoven, Schubert, Brahms, Chopin, Bartok, Stravinski, Villa Lobos, Louis Armstrong, Duke Ellington, Pixinguinha, Cartola, Tom Jobim, que, juntamente com alguns filmes, mais de uma vez me salvaram do suicídio.

 

- VEJA DOIS RELATOS Por: Silveira de Souza

 

* Fernando C. Boppré é historiador. Mestrando no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Santa Catarina onde desenvolve pesquisa sobre a relação entre artes visuais e memória. Mantém o blog “Arte por extenso” (http://arteporextenso.blogspot.com)

** Gláucia Dias da Costa é mestre em História Cultural pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Santa Catarina.

1 Hugo Mund Júnior é artista e poeta. Passou sua juventude em Florianópolis onde participou das agitações em torno do Grupo Sul, sendo um dos membros do Grupo de Artistas Plásticos de Florianópolis. Estudou na Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro e, mais tarde, tornou-se professor do Instituto de Artes da UnB.


      

 

 

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