|
P. Estamos então na década de Slavoj Zizek e Giorgio Agamben? Eles não chegaram um pouco tarde ao Brasil? R. Creio que devemos enxergar autores como Zizek e Agamben no interior de um esforço maior de reconstituição do quadro teórico de debates da esquerda mundial. Neste sentido, poderíamos ainda citar outros nomes que têm, em comum, a tarefa de repensar o destino do legado e os desafios de um pensamento de esquerda. Incluiria neste quadro: Alain Badiou, Judith Butler, Ernesto Laclau, Rancière , entre outros. No caso específico de Zizek e Agamben, trata-se de autores que são lidos nos meios acadêmicos brasileiros desde os anos noventa (os primeiro livros traduzidos de Zizek são do começo dos anos noventa) mas que só agora começam a despertar um interesse mais geral. Talvez isto tenha a ver com um esforço da tradição de esquerda em encontrar uma agenda renovada e novos referenciais teóricos.
P. Zizek, em particular, parece empenhado em revisar a noção de "outro", dentro de um paradigma pós-desconstrucionista. Qual é a posição dele em relação ao "extremamente outro" de Derrida e Lévinas? R. Talvez não se trate de criticar a posição da necessidade de reconhecimento da alteridade como tarefa ético-política. Trata-se, de uma certa forma, de radicalizar tal tarefa colocando em evidência o caráter violento que todo verdadeiro reconhecimento da alteridade implica. Violento porque a verdadeira alteridade não é alteridade apenas em relação a nossa posição subjetiva, mas em relação ao quadro de referências no interior do qual organizamos nosso sistema de diferenças. A alteridade não é apenas mais uma peça no interior deste sistema, mas aquilo que obriga a própria suspensão do sistema simbólico de determinação de identidades. Neste sentido, ela é in-diferente, isto no sentido de se colocar em um ponto extremo de indiferenciação. Creio que se trata de uma idéia lacaniana típica que podemos encontrar em vários escritos de Zizek.
P. O feminino e o masculino são conceitos importantes para Zizek definir o ser humano em relação aos demais viventes. Ele chega até a esboçar um sublime masculino e um sublime feminino... R. Esta também é uma influência lacaniana. Lacan insiste que os processos de socialização e individuação têm, como eixo central, o problema da assunção da diferença sexual (ou aquilo que ele chama de sexuação). Ser um sujeito, ter um corpo próprio, são processos indissociáveis da capacidade de estabelecer relações com aquilo que é da ordem do sexual. Este papel proeminente da sexualidade vem do fato de que, para Lacan, a sexualidade não é algo que nos ancora no campo de uma natureza pensada como plano positivo de doação de sentido. Ao contrário, a sexualidade é o que nos coloca diante do que há de absolutamente negativo e indeterminado no ser humano. Daí por que, segundo Lacan, nunca seremos capazes de fundar uma política de identidades a partir do reconhecimento da diferença sexual. O sexual é fundamentalmente aquilo que é da ordem do des-idêntico.
P. Ainda estamos vivendo a era do multiculturalismo? Ou o Outro já começa a nos incomodar? R. Esta é uma questão interessante. Creio que nos próximos anos assistiremos a uma certa derrocada do multiculturalismo enquanto discurso de legitimação de práticas político-institucionais em países "centrais". A razão não está vinculada apenas a um certo aumento da intolerância, mas a uma impossibilidade constitutiva do conceito de tolerância multicultural ter sido capaz, em algum momento, de propor modos de relação àquilo que não se deixa colocar no interior de processos controlados de escolha. De fato, não há como negar que o impulso multicultural foi importante para dar forma legal a reivindicações de minorias sócio-culturais. Da mesma forma, aquilo que chamamos de "política de identidades" teve sua função na modificação de quadros jurídicos e práticas culturais claramente discriminatórias. No entanto, vimos nos últimos anos como a universalidade do Capital acomodou-se muito bem à multiplicidade multicultural. Maneira de insistir que reivindicações identitárias tendem a transformar o mercado no único meio neutro no qual tal multiplicidade pode articular-se assumindo a figura de uma rede mercantil de targets. Como se economia política das reivindicações identitárias dependesse do seu oposto, ou seja, da universalização do capitalismo global como "espaço cultural neutro". Por outro lado, grupos que, de uma forma ou de outra, questionaram tal processo de modernização acabaram sendo levados a preencher o espaço vazio do fundamentalismo. Este talvez seja o motor maior do que podemos chamar hoje de "questão árabe". Ela é uma questão fundamental para nós porque se trata de discutir o que fazer com aqueles que não escolhem no interior do nosso sistema estruturado de diferenças, mas colocam em questão o próprio sistema.
P. Recentemente, você publicou um importante ensaiosobre Cage, "Destituição subjetiva e dissolução do eu na obra de John Cage". Poderia resumir seus argumentos? R. Diria que se trata de mostrar que a música de Cage demonstra uma articulação maior entre forma musical e estrutura de racionalidade. Seu programa musical é o resultado de uma crítica cerrada aos modos hegemônicos de racionalização do material musical na tradição ocidental. Esta crítica é feita em nome de um programa estético de retorno a uma relação de imanência àquilo que é da ordem da natureza. Neste sentido, há algo de profundamente estóico no interior do programa musical de Cage, isto no sentido de um questionamento a respeito do que precisa ser negado e destruído para que possamos assumir a passividade da participação no curso do mundo. Entendendo por "mundo" exatamente aquilo que resta quando negamos os princípios formais de constituição da noção de "obra". Meu interesse consistia em demonstrar como uma parcela significativa do modernismo musical compreendeu modernização como retorno à presença do que se coloca como origem. Por outro lado, tratava-se de discutir exatamente o conceito de natureza presente na obra de Cage.
P. Diante da música indeterminada de Cage, como atua a "pessoa" do intérprete? R. Uma boa maneira de responder esta questão é traçando algumas diferenças gerais entre "indeterminação" e "improvisação". Por exemplo, Cage não tinha o menor interesse pelos procedimentos de improvisação no jazz. Isto porque a improvisação era vista como espaço privilegiado de manifestação da expressão subjetiva e da variação de parâmetros específicos (altura, intensidade). No entanto, a música de Cage exige exatamente o contrário, ou seja, a inexpressividade e impessoalidade. Ela quer ser uma música desprovida de Eu, música na qual o Eu não apareça mais como pólo ativo e organizador. Daí porque insisti que ela é uma música que pressupõe uma forma bastante específica de destituição subjetiva.
P. Como você vê a música pós-cageana, ou seja, a música de hoje, inclusive a que se faz no Brasil? R. Nem toda a música que se faz hoje pode ser vista como pós-cageana, já que temos várias tradições musicais que não se organizam em referência a Cage. Mas um compositor ainda pouco explorado que aparece como um interlocutor privilegiado de Cage é Morton Feldman. Devemos ver com muita tristeza o fato de Feldman ainda não ser reconhecido em sua importância devida. Ela leva a um ponto extremamente pessoal a exigência cageana de indiferença absoluta em relação ao material musical (todo e qualquer material vale, vídeo, por exemplo, Concerto para piano), assim como sua valorização da presença material do som. No entanto, o resultado de Feldman é profundamente diferente. Ele é capaz de construir tecidos musicais que não trabalham mais com parâmetros clássicos de ordenação do tempo musical (tensão/distensão, antecedente/conseqüente), sem abandonar a capacidade construtiva da forma (aí diferentemente de Cage). Obras como A viola in my life e Rothko Chapel são obras maiores do século XX. P. A última Bienal de São Paulo apostou na convivência de vizinhos, para além do conceito de fronteira, que pressupõe seres vivendo em margens contrárias, opostas... Você considera que essa proposta (bastante discutida e criticada, por sinal) de "viver junto" está sendo realizada em outras áreas culturais e estéticas, no Brasil? R. Creio que a proposta da última Bienal foi feliz no sentido de ser coesa e permitir a apresentação de produções contemporâneas distante dos centros culturais hegemônicos. è certo que ela foi muito mais clara e articulada do que as propostas das últimas bienais. Mas devemos tomar cuidado para não transformarmos propostas desta natureza em afirmações fáceis da diversidade e da multiplicidade.
P. Uma última pergunta: concorda com Zizek que, neste novo século, devemos adotar a postura de Jó e não aceitar nenhuma necessidade imperiosa ou fatalismo? R. A figura de Jó é interessante por colocar a fidelidade a uma causa para além do gozo do serviço dos bens. De fato, há épocas que precisam de exemplos desta natureza. *Sérgio Medeiros é poeta e tradutor. Ensina literatura na UFSC, onde ministrará o curso de pós-graduação “Aliens e o sublime” (cf. programa neste site, janela “Laboratório”)
|
||||||||||||||||