PESO PENSO POR UM FIO

é sobre fio, pertence ao fio, esta exposição. poucas vezes se explicita, menos ainda se explica; porém ata-se. é seu trabalho. liga, por vezes, os extremos mais ordinários e mais temidos da existência nossa: vida e morte, peso e leveza, imensidão e pequenez, unidade e dispersão. de outras vezes nos lembra: a morte da pedra é o vento. e ainda que “todo coração tem pena” já disse Diego de los Campos. e penas, eu acrescentaria.

não se iluda. o fio é tecido e produz trama todos os dias, o dia inteiro, enquanto lava-se roupa, varre o chão, perde-se o olhar no infinito e vê o tempo fechar. fio de aranha tramado dos humores do corpo, que, por vezes, nos traz o alimento, por outras, nos prende em sua teia e somos, agora, o jantar. jantados pela significação.

o fio ilude. ele não é uma ligação natural, irremediável. é fruto do artifício, da cenografia, como uma casa suspensa por um balão, ou uma pedra que ascende.

o serviço do fio é, por vezes, destramar. da cobra coral mortinha já se aproxima uma mosca e as formigas não tardarão. a cobra é fresta pela qual a cortina deixa ao olhar um pedacinho da imensidão. a pedra escancara a boca e grita seu silêncio milenar. cadê sua humanidade de pedra? louca de pedra?

entre humano e inumano traçamos a diferença, desenhamos a linha, construímos o muro que separa. se a linha separa o fio ata. pois é....

penso. do verbo pensar. mas do pender é que deveria ser. quem pensa pende. está pendurado por um fio, se retesa e estica e afasta e aproxima. aqui as imagens estão atadas umas às outras, tensionam umas as outras, se pensam por um fio.

retesos entre, somos esse fio.

ana lucia vilela
Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em História - UFSC

 

 

 

 

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