Códice

Por Dirce Waltrick do Amarante

Antes mesmo de iniciar essa breve apresentação da obra visual de Rodrigo de Souza Leão (1965-2009), uma dúvida me surgiu: deveria chamá-lo de escritor e pintor, ou inverter a ordem, e dizer o pintor e escritor Rodrigo de Souza Leão? Raros são os artistas que se dedicam a duas artes com tamanho talento e afinco a ponto de não sabermos mais quem vem na frente, se o pintor ou o escritor. A propósito, o absurdista Edward Lear é um desses nomes, grande desenhista e grande poeta, como sabemos. O nonsense (o insensato) é um dos ingredientes, aliás, da prosa de Rodrigo, e talvez também da sua poesia, como já foi observado pela crítica. Nesse sentido, ele é um quase herdeiro nacional de Lear, por que não?

Autor de “Os cachorros são azuis”, livro já consagrado, Leão nos oferece agora suas telas, ou melhor, seus painéis enormes com paisagens coloridas. Ou seriam códices contemporâneos, nunca inteiramente desdobrados, pinturas-e-desenhos como que grudados num muro infinito, que a vista não abarca? Desenhos primitivos e formas abstratos. Grandes telas místicas, cheias de gestos psicodélicos, de um Xul Solar carioca e atual. Ou tudo isso junto. Melhor não concluir, por enquanto, só fruir, pois é uma obra em construção, um “work in progress” (ainda não conhecemos toda a produção pictórica de Leão) que cresce vertiginosamente e se revela como relâmpagos súbitos, mas irrefreáveis, na turbulência destes tempos.

(Escrevi esse breve texto, agora levemente retocado, no último domingo de junho e o enviei ao escritor, pintor, poeta e amigo Rodrigo de Souza Leão, não obtive resposta. Ficaremos sem a resposta e sem a poesia de Rodrigo, pois ele faleceu no dia 2 de julho.)

 

 

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