O visível e o invisível

Por Victor da Rosa

Conheci Rodrigo de Souza Leão, antes de tudo, através de sua novela. Sérgio Medeiros, meu orientador e amigo do escritor, que escreveu a orelha do livro, sugeriu por e-mail que eu lesse a prosa de Rodrigo. Antes da novela, um nome e uma imagem: Todos os cachorros são azuis é o título, disse Sérgio - título que me provocou a perceber, como escrevi na resenha que publiquei alguns dias depois, intitulada O céu está morto, que a novela de Rodrigo se inicia com certa distorção cromática: não existe cachorros azuis, mas existe. Lembro que recebi o livro de Rodrigo em um momento de certo desânimo com a literatura, principalmente com a narrativa, lembro que eu não estava muito disposto a escrever outra resenha, mas o livro, desde a primeira frase - desde o título - golpeava mesmo a minha inércia através principalmente da força de suas imagens. A escrita de Rodrigo não me dizia nada, não me convencia de nada, apenas me golpeava tornando visível as imagens que eu não conseguia ver. De fato, toda a narrativa é tratada com extremo equilíbrio entre visibilidade e invisibilidade - fantasmas assim se proliferam.

Rodrigo passou a estudar pintura no Parque Lage, no Rio de Janeiro, e produziu algumas imagens - ainda não sei exatamente quando e nem o tamanho desta produção. Então surgiu a idéia de realizar uma exposição virtual com suas pinturas. Dirce escreveria um texto. Passamos a trocar alguns e-mails. Nunca trocamos mensagens muito longas, mas Rodrigo me pareceu inventivo com a escrita de e-mails: abreviaturas, síntese, cortes, erros propositais, como em seus poemas e, talvez também, em suas pinturas. Nunca escutei sua voz, mas conhecia seu rosto através de fotografias que o escritor publicava em sua página virtual de relacionamentos. No dia 30 de junho, às 21h43m, ainda mandei uma mensagem para o e-mail de Rodrigo, com o texto da Dirce e a exposição pronta. Dois dias depois, através do Sérgio, que me apresentou a sua literatura, veio também a notícia de seu falecimento. Esta exposição, portanto, fica entre o desejo de Rodrigo e nossa homenagem póstuma. Entre o visível e o invisível, afinal.

* Ensaísta, mestrando em Literatura pela UFSC.

 

 

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