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Desenhando o humano - da casa ao corpo
Através de obras que demonstram sua extrema habilidade em faturas incansáveis, a artista Tamara Andrade preserva e valoriza a natureza do desenho e, ao mesmo tempo, busca enriquecê-la, propondo novos modos de realização. Para tanto, não se trata apenas de utilizar um método inusitado para o desenho, mas de desenvolver a chamada “técnica poética”. Esta “... não é transmissível porque não é feita de receitas, mas de invenções que só servem para seu criador.”¹ Ou seja, significa criar um procedimento que está a serviço do essencial para o trabalho e que dura apenas enquanto atende à sua necessidade específica. Em sua trajetória, Tamara demonstra essa intenção, procurando meios para realizar obras compatíveis com os interesses de sua pesquisa. Nos bordados sobre tela (Fig. 01, 02 e 03), a artista inicia uma investigação sobre o espaço doméstico, o lugar onde se desenrolam as relações familiares. Através do ritmo ditado pela máquina de costura e de enquadramentos variados, os desenhos ganham movimento. Cadeiras, mesas, camas etc. apresentam-se em arranjos incomuns, procurando por lugares que vão além daqueles já estabelecidos pela rotina. Ainda assim, os móveis estão sempre ligados uns aos outros, vindos da mesma trama. O ambiente criado permanece anônimo e a figura humana não aparece. Porém, de algum modo, se faz presente na mobília inquietante. Na série Entreparedes, a linha de costura sai da tela e ganha o espaço expositivo. (Fig. 04 e 05) O desenho realiza sua vontade tridimensional, tendo como suportes o chão, a parede e o teto. A linha é sustentada por pregos e o seu acúmulo dá forma novamente às cadeiras e mesas, que se distanciam e se aproximam do espectador, agora envolvido nessa “paisagem” do desenho. Nesta obra, cada suporte no chão instala um momento da trajetória de um mergulho que, fracionada, preserva os movimentos do nado. O tempo foi estendido, diferentes instantes foram prolongados para que o espectador desfrute, junto com o mergulhador da leveza de que somos capazes. (Fig.12 e 13) Acompanhando este percurso, nos embrenhamos em partes do corpo - ossos, órgãos e veias estão expostos. Ali está representado um homem que acena sobre do que somos feitos: de um complexo universo de estruturas sutilíssimas, ou ainda, da “combinatória de figuras elementares que determina a variedade das formas vivas.”² E para apresentar tal opulência o desenho vale-se de precisão³ e minúcia, mergulhando em seu assunto com rigor científico⁴. Desse modo, se torna impecavelmente visível a constituição do nadador. Agora, a linha do desenho penetra a superfície do vidro, como numa matriz de gravura. Através desse suporte transparente que tudo toma para si, o espectador vê sua imagem refletida naquelas águas e suas ondulações imaginárias, confundindo as linhas do seu corpo com as do mergulhador, que nessa espécie de dança aquática segue em sua procura, enquanto reencontramos nossa natureza. Através deste bordado a água ganha forma⁵. Novamente um momento foi retido na superfície para que seja apreciado em toda sua beleza. É como se a água pudesse ser vista com uma lente de aumento, numa tentativa de tornar visível a composição e a intensa variedade de cor e tonalidade que ela abriga em seu movimento. Assim, com a incisão da linha em diferentes suportes (tela, parede, madeira, chapa de cobre e vidro), vai se contornando uma obra que ainda tem muitas contribuições a oferecer para o desenho, esta modalidade tão vital para a arte.
1 Esta definição de “técnica poética” é citada por Octavio Paz, referindo-se a um tipo específico de técnica que dá origem aos poemas, e que se aplica a obra de arte em geral. Ainda sobre este ponto ele complementa: “...Cada poema é um objeto único, criado por uma “técnica” que morre no instante mesmo da criação...” (PAZ, Octavio, “O Arco e a Lira”/Octavio Paz; tradução de Olga Savary, Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1982; pág.20) 2 “...celebra a unidade de todas as coisas, animadas e inanimadas, a combinatória de figuras elementares que determina a variedade das formas vivas; e sabe principalmente traduzir o sentido da precariedade dos processos que as fizeram nascer, ou seja, mostra como faltou muito pouco para que o homem não fosse homem, nem a vida a vida e o mundo um mundo.”Comentário sobre a obra do poeta francês Cyrano de Bergerac. (CALVINO, Italo. “Seis propostas para o próximo milênio: lições americanas”/Italo Calvino; tradução Ivo Cardoso, São Paulo: Companhia das Letras, 1990; pág.33) 3 Italo Calvino fala sobre a importância da precisão em sua tentativa de definir a leveza: “A leveza para mim está associada à precisão e à determinação, nunca ao que é vago ou aleatório.” (CALVINO, op. cit., pág.28) 4 O comentário a seguir, a meu ver, também se aplica às artes visuais, demonstrando como outros ramos do conhecimento podem auxiliar o processo de trabalho: “...Mas se a literatura não basta para me assegurar que não estou apenas perseguindo sonhos, então busco na ciência alimento para minhas visões...” (CALVINO, op. cit., pág.20) Em outro comentário, Henri Matisse aproxima a arte e a ciência: “O papel do artista, assim como o do cientista, consiste em apreender verdades correntes que lhe foram constantemente repetidas, mas que para ele assumirão um caráter de novidade e se tornarão suas no dia em que ele perceber o sentido mais profundo delas.” (MATISSE, Henri, “Escritos e reflexões sobre arte”, Seleção dos textos, notas e bibliografias: Dominic Fourcade, tradução: Denise Bottmann, São Paulo: Cosac Naify, 2007, pág.49)
Luiza de Moura é graduada em artes plásticas pela Faculdade Santa Marcelina, SP (1998 - 2001) e trabalha com assessoria a artistas e catalogação de obras.
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