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Florianópolis, 04 de Outubro de 2008 O DELICIOSO ABSURDO DAS CRIANÇAS Por: Aurora Bernardini * Eugène Ionesco Entretanto, a estrada que o levou ao sucesso não foi nada fácil. Algumas passagens de sua vida servirão de exemplo. (No Brasil, ainda se encontram nos sebos exemplares de Diálogos com Ionesco de Claude Bonnefoy (1966), além das traduções de Rinoceronte ( 1959) e Amadeu ( 1953), e talvez em livrarias exemplares de A Lição (1957) ou A cantora careca,( 1949), que tanto havia entusiasmado Pagu, quando de sua estada na França -- cf. Pagu. Vida-Obra, Augusto de Campos, 1982 .) Filho de um romeno formado em Direito e de uma francesa cujo pai era engenheiro junto às estradas de ferro da Romênia, logo após seu nascimento, Ionesco foi com os pais para Paris , onde o pai iria preparar seu Doutorado. Depois da volta do pai à Romênia, em 1916, onde este iria assumir cargos públicos e se casar novamente, ele e a irmã (um terceiro irmão morrera de meningite) ficaram na França com a mãe, terna e submissa, que, desprovida de meios, se viu obrigada a trabalhar numa fábrica e a mudar constantemente de casa. À instabilidade existencial à qual se vê exposto o menino ( houve também um interlúdio “ paradisíaco” de três anos, na casa de parentes, no campo) acresce-se a sensação de “ exílio” quando, em 22, é enviado junto ao pai a Bucareste, para ali realizar seus estudos. A atmosfera doméstica é tensa: o pai colérico, não o respeita; a madrasta e os filhos desta são-lhe hostis.Após terminar o colégio em 1927, Ionesco volta por um tempo a Paris ( sua volta definitiva, já casado, se dará em 1938, para elaborar uma Tese de Doutorado sobre “ O Mal e o Pecado após Baudelaire”), carregando consigo os traços da formação que elaborará em suas obras: continuidade e descontinuidade da existência, ansiedade e, principalmente, contradição. “ Eu sei que toda justiça é injusta e toda autoridade arbitrária, mesmo que este arbitrário esteja baseado numa fé ou numa ideologia fácil de ser desmistificada”, diz ele em Presente passado. Passado presente, uma de suas várias obras ensaísticas, sempre contestatárias. Antes disso, entretanto, e precisamente aos 13 anos de idade, a pedido dos colegas de ginásio, já dera prova de suas tendências libertárias ao descrever uma festinha de crianças que acaba com tudo sendo jogado pela janela, os pais inclusive. Mas a grande marca de Ionesco é seu humor. Geralmente , em suas peças adultas, trata-se de um humor absurdo e “ patafísico” ( onde qualquer evento pode ser visto como extraordinário – segundo Alfred Jarry, que criou o termo), lembrando às vezes o in tristitia hilaris de Pirandello, mas sempre mais engraçado. Entretanto, é nos seus contos para crianças que consegue manifestar este “ extraordinário”, como a fascinação que se sente pelo que, apesar de tudo, há de mítico, de milagroso, de maravilhoso nesse mundo, “ conferindo-lhe a profundidade exemplar de uma estrutura arquetípica”, como diz Emmanuel Jacquart em seu prefácio ao “Teatro Completo” do autor ( Gallimard, 1991). “ As palavras são tudo, o resto conversa”, era um dos achados de Ionesco ( a frase, por sinal, foi gravada no verso da medalha que ele recebeu em Paris, por ocasião da comemoração dos 30 anos de representação da peça A Cantora Careca ). De fato, tanto no conto n.1, quanto no conto n.2 dessa pequena coletânea Contos de Ionesco para Crianças, que além de conservar, na tradução de Dirce Waltrick do Amarante, a delicadeza do original , ainda vem acompanhada das ilustrações de Etienne Delessert, capazes de cativar qualquer leitor, impera o uso insólito e a repetição das palavras, tais como as entendem as crianças. Saber penetrar no que é real para uma criança é uma capacidade que poucos escritores têm – agora, torná-lo engraçado e mágico, é um talento raríssimo. Como se dá isso é o que o leitor vai descobrir. “ Eu faço com as palavras o que Beckett faz com o silêncio”, teria dito Ionesco ( cf. edição citada da Gallimard), falando do amigo dramaturgo que representou a vida segundo os grandes temas da morte e do mal-estar existencial. Mas ... “ já que somos destinados à morte e não há nada a fazer, sejamos alegres. Mas não sejamos tolos. (...) E, sim, uma única saída, talvez. É ainda a contemplação, a maravilha diante do fato de existir”. *Aurora Fornoni Bernardini
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