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Florianópolis, 25 de Fevereiro de 2008 SOBRE LITERATURA, CRIANÇAS, ADULTOS E OUTROS BICHOS Por: Jair Tadeu da Fonseca UFSC A criança, enquanto outro do adulto, é produção recente. Entre outras coisas, a literatura ajudou na produção do infante, e já que falo em produção, vou empregar dois outros termos de economia. Digamos que de adulto subdesenvolvido a criança passou a ser considerada como ser humano em desenvolvimento. Ou seja: a coisa mudou, mas não muito. A infância seria fase de incompletude, de imperfeição, de inacabamento, cujo telos é a vida adulta. E é desta que surge a produção artística, cultural e social que produz a criança, criada (mesmo etimologicamente a criança é criação) à nossa imagem e semel hança – para servir à imagem e semelhança de nós, adultos – como se fôssemos a origem e o destino da criança – alguém que não teria a menor chance no mundo – um mundo de adultos – sem (justamente quem?) os adultos. Daí a superioridade, a autoridade auto-conferida e a bonomia complacente com que tantas vezes vestimos o autoritarismo pelo qual produzimos a infância, ao produzirmos discursos e práticas sobre ela e para ela. Sublinho a palavra sobre e cito Bruno Bettelheim, que escreve acerca de “Chapeuzinho Vermelho”: “Nos comentários e preceitos morais que Perrault acrescentava às estórias, ele falava como se estivesse piscando para os adultos por cima das crianças.” Claro que o próprio Bettelheim, ao tratar dos contos de fadas, por sua vez, lança aos adultos suas piscadelas A produção de discursos e práticas não só sobre as crianças, mas para as crianças, legitima e, antes, institui, demarca o lugar de quem se julga no direito de falar pelos que não teriam voz e por isso têm seu lugar demarcado, instituído: o lugar do infante, do infans – etimologicamente, o que não fala. Com isso, na produção de discursos e práticas discursivas diversas com que produzimos a infância em relação à vida adulta, como as conhecemos, empregamos o processo que chamo de ventriloquia. Particularmente, a ventriloquia cultural e artística. Pelas bocas de nossas narrativas, poemas, canções e produções audiovisuais sobre e para as crianças saem nossas vozes – disfarçadas – de adultos ventríloquos. Estranho diálogo esse que é proposto entre a suposta afasia da infância e a ventriloquia da vida adulta, entre quem supostamente não fala e quem tem o dom de desviar sua fala, de mudá-la e mantê-la sob controle, por ser o dono da (outra) voz. Mas o que parece um monólogo disfarçado em diálogo é capaz de calar naquele que supostamente se cala, em função da voz do outro. Interessante palavra esta: calar, que significa tanto “não falar”, “não ter voz ativa”, quanto “gravar-se, penetrar fundo”. Não se trata, portanto, de considerar como passiva a recepção que a criança tem da produção adulta dirigida a ela (e aos próprios adultos), e que contribui para produzir a infância. Ao se apropriar de elementos dessa produção (literária, audiovisual, ou musical), a criança não reproduz, apenas. É também capaz de produzir, mas principalmente de se auto-produzir a partir do que produz o outro sobre ela, para ela e principalmente em vez dela, com a voz dela. Ou seja, o que importa não é só, numa postura maternal-paternalista, o que se faz da criança, mas o que ela faz do que é feito dela. Nesse processo de produção de si mesma, processo de alteridade, o infante fala, mesmo “baixinho”, em surdina, ou grita, berra bem alto – ou fala tranqüilamente, mesmo que não o escutemos, quando estamos preocupados em fazer falar nossos alegóricos bonecos de ventríloquos. As mercadorias, principalmente, estão cada vez mais loquazes e bem falantes, na prosopopéia da publicidade. Entretanto, quero chamar a atenção para outras figuras que têm papel importante nas produções literárias, audiovisuais e musicais para as crianças (e os adultos também), nos processos de ventriloquia cultural e artística : os animais. Eles estão presentes em nosso imaginário, ou no que posso chamar de animaginário. Isso não só porque estão no mundo, como nós, mas porque também somos animais, embora disso nos esqueçamos. E como lembra Derrida, em O animal que logo sou, nos damos o bíblico direito de dar nomes aos animais e de assim considerá-los, colocando-os, por isso, numa posição hierarquicamente inferior. Os animais (quero dizer, os outros animais) não teriam alma. No entanto, a palavra animal tem a mesma origem da palavra alma: vem de anima/animus, relacionando-se etimologicamente ao princípio vital da respiração: ao sopro, ao ar, como forças cósmicas, que nos tornam animados: nos dão ânimo e movimento. E nos permitem falar. Apesar disso, como vimos, a partir da etimologia da palavra infância, infantes não falam, ou seja, não têm direito pleno à fala ou de serem escutadas, mesmo quando, apesar de tudo, falam. Mas lhe concedemos uma alminha, embora sejam, quase sempre, muito animadas, demasiadamente animadas, quase animais. Já os animais (os outros), geralmente animadíssimos, não teriam alma, nem falariam – a não ser nas fábulas e nos desenhos animados. Entretanto, como escreve Derrida, o que distinguiria os animais dos humanos, em última instância, Ou seja, nesse processo, ou metamorfose, não é simplesmente o homem que se torna animal, ou vice-versa, mas é o tornar-se animal que produz o homem, é o tornar-se homem que produz o animal e evidencia seu potencial de inacabamento, seu devir. Deleuze e Guattari também afirmam: “Kafka é fascinado por tudo que é pequeno. Se não gosta das crianças, é porque elas estão presas em um tornar-se-grandes irreversível; o reino animal, ao contrário, confina com a pequenez e a imperceptibilidade.” Isso se relaciona, claro, à valorização do que é “menor” pela perspectiva político-filosófica dos pensadores em questão, na qual mesmo uma baleia poderia ser considerada menor, em relação à “grandeza” humana. A partir disso, lembro alguns escritores brasileiros, como João Alphonsus, Graciliano Ramos, Murilo Rubião e Guimarães Rosa, que produziram ótimas narrativas “animalistas”, ou, como poderíamos chamá-las, humanimalistas, que também traduzem essas zonas de contaminação mútua do humano e do animal, embora nem todas encarem com tanto desencanto o devir-adulto da criança. Referências bibliográficas
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