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Florianópolis, 23 de Março de 2008 QUASE A MESMA COISA: IRMÃOS GRIMM EM QUADRINHOS Por: Dirce Waltrick do Amarante Professora de Literatura Infanto-Juvenil na UFSC A publicação recente de Irmãos Grimm em quadrinhos (Desiderata, 2007), uma antologia de quatorze contos dos filólogos alemães Jacob e Wilhelm Grimm, “reinventados pela nova geração de quadrinistas brasileiros”, me fez lembrar de um diálogo entre os escritores argentinos Adolfo Bioy Casares e Jorge Luis Borges a respeito das adaptações para o público jovem. Certa vez, Bioy Casares disse a seu amigo Borges que, quando criança, ele era “muito snob e não lia os livros da Biblioteca Araluce, porque eram obras famosas, adaptadas para crianças (lia livros para crianças, como Pinóquio, mas não admitia obras grandes adaptadas para crianças)”. Borges rapidamente concordou com ele: “acontecia algo parecido comigo. Uma vez lia com muito orgulho uma História da Grécia até ver que na página de rosto dizia Adaptada para crianças”. De um modo geral, as adaptações provocam no leitor (principalmente naqueles mais exigentes) uma certa desconfiança, ainda que ele concorde com Ferreira Gullar, o qual, ao se referir à sua adaptação de Dom Quixote, diz que ela “não pretende obviamente dispensar a leitura do texto original e, sim, pelo contrário, induzir o leitor a buscá-lo mais tarde, com tempo e disposição, para usufruir-lhe toda a riqueza de idéias (...)”. Embora se duvide delas, as adaptações são inerentes a algumas formas narrativas, como os contos da tradição oral. Segundo a teoria de Claude Lévi-Strauss, aliás, todos os contos do mundo são variações de um único modelo de conto. Isso não significa, no entanto, que uma determinada versão não possa ser transmitida num determinado local com precisão durante gerações. A esse respeito, Wilhelm Grimm opinava que, “aqueles que dizem que os textos da tradição oral não podem ser transmitidos com exatidão porque são continuamente adulterados, e que por isso é impossível que perdurem em sua forma exata, tinham que escutar essa mulher [numa referência a Katherina Viehmann, uma camponesa de Niederzwehren, que contou a ele e seu irmão Jacob Grimm dezenove fábulas], que nunca se afasta de sua narração e é cuidadosa com os detalhes. Quando repete uma história, nunca faz mudanças, e se ela se equivoca em algum ponto, ela corrige. Num povoado que segue um antigo modo de vida sem mutações, a fidelidade aos modelos herdados é tão intensa que, para nós, se torna incompreensível, dada a nossa mania pelo diferente”. O fato é que, cristalizados nas páginas de um livro, esses contos mutantes adquirem status de versão definitiva, principalmente quando ganham um autor específico, como Charles Perrault, Jacob e Wilhelm Grimm ou Hans Christian Andersen. Afinal, a “Cinderela” de Perrault não é “A Gata Borralheira” dos irmãos Grimm: apesar das estórias serem semelhantes, seus finais não coincidem de modo algum. Apesar disso, os contos reunidos pelos irmãos Grimm (assim como outros contos que foram retirados da tradição oral) converteram-se, no decorrer do século XIX, quando a produção de livros para crianças começou a tornar-se expressiva, em fonte de inúmeras traduções, adaptações e simplificações. Desse modo, “narrados aqui e ali, de livro em livro, de tradução em tradução”, como lembra Ítalo Calvino, “os contos dos Grimm retornam ao grande mar da tradição oral de onde saíram, ancorando na melhor das hipóteses em suas margens mais distantes”. Mas o problema talvez não seja as diferentes traduções dos contos e sim as adaptações e simplificações que, tendo em vista o universo infantil, deixam de lado os aspectos considerados truculentos, bárbaros e, por vezes, ilógicos desses contos, para salientar apenas suas características morais e edificantes. Com isso, elas deformam de tal modo o texto de origem que dele muitas vezes só o título é preservado. Nessa atmosfera de desconfiança, Irmãos Grimm em quadrinhos parece resgatar a fé dos leitores na adaptação e, ousaria afirmar, não desapontaria os jovens “snobs” Bioy Casares e Jorge Luis Borges, tão avessos a adaptações para crianças. É certo que, em Irmãos Grimm em quadrinhos, a diversidade semiótica entre o texto original (cuja linguagem é verbal) e os quadrinhos anuncia desde logo a obrigatoriedade da adaptação, já que “um dado sistema semiótico”, como afirma Umberto Eco, “pode dizer seja mais, seja menos que um outro sistema semiótico, mas não se pode dizer que ambos sejam capazes de exprimir as mesmas coisas”. Assim, nos quadrinhos brasileiros dos Irmãos Grimm, a protagonista do conto “Margaret Esperta” (adaptada por Roberta Lewis), estória pouco conhecido entre nós, é retratada de forma bastante caricata: uma mulher feia, mas vaidosa, muito maquiada, com longos cílios e boca e bochechas bem marcadas, beirando a vulgaridade. Na versão original do conto, no entanto, sabemos bem menos, sabemos apenas que a protagonista do conto era uma cozinheira, certamente vaidosa, “que usava sapatos com salto vermelho, e, quando saía com eles, caprichava nos passos e, muito satisfeita da vida pensava: ‘Não há dúvida de que sou uma moça bonita!’”. Não obstante essas diferenças entre o original e a adaptação, grande parte dos quadrinhos dos irmãos Grimm conserva não apenas a atmosfera original dos contos recolhidos pelos filólogos alemães, como também o enredo dessas estórias, surpreendendo os leitores desavisados com uma narrativa por vezes brutal e violenta, diferente daquelas que a Disney ou as versões adocicadas de livrinhos das prateleiras de supermercado lhes apresentam. Na versão em quadrinhos de “A Gata Borralheira”, o quadrinista Fido Nesti não ameniza o destino cruel das irmãs malvadas da Borralheira, as quais, depois de cortarem, uma, o dedo do pé e, outra, o calcanhar, num derrame de sangue, para que coubessem no sapatinho da irmã, terminam com os olhos furados por pombos justiceiros/ vingativos, tal e qual a versão alemã do conto: “Assim, a maldade e a falsidade delas foram punidas para o resto da vida com a cegueira...”. Irmãos Grimm em quadrinhos, apesar de ser uma adaptação, é um excelente convite para se conhecer o universo dos irmãos Grimm.
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