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Por:Dirce Waltrick do Amarante |
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Florianópolis, 18 de Julho de 2008
CONFLITO ENTRE INUMANIDADES: A INFÂNCIA QUE RESTA
Por: Sérgio Medeiros*
Na abertura do seu livro L’inhumain.Causeries sur le temps, de 1988, o filósofo Jean-François Lyotard retoma a questão da educação das crianças, tema humanista clássico, destacando o conhecido argumento de que as crianças nascem incompletas. As instituições da cultura corrigem essa falha. Um gato, ao nascer, já é um gato (a natureza o entrega ao mundo assim), mas a criança precisa adquirir uma “segunda” natureza, a fim de poder alcançar o estado civilizado: ela precisa, enfim, ser (re)programada pelos adultos, o que demanda um tempo enorme. A criança, deixada só, é apenas um selvagem. É uma boa causa torná-la refém do mundo adulto. A questão hoje e sempre é: o que chamamos de humano no homem? A miséria inicial de sua infância ou a sua capacidade de adquirir uma “segunda” natureza? Todos concordam, afirma Lyotard, que a segunda natureza pressupõe a primeira, e depende dela. “A questão consiste apenas em saber se esta dialética, (...), não deixa nenhum resto”, pondera o filósofo francês. Pois uma infância persiste na idade adulta, ou nos acompanha sempre. O adulto não apenas se adapta às instituições da civilização, mas também as critica ou tenta fugir delas. Algumas dessas “fugas” são institucionais: a literatura, as outras artes, a filosofia... (Contudo, libertar-se da selvageria da infância parece também ser o projeto do homem que visa atingir “a plena humanidade”.)
Tudo isso são trivialidades, como diria Lyotard, mas fatalmente voltamos a essas questões. O mais interessante é relembrar que toda educação é inumana, pois pressupõe a coação e o terror. A castração faz parte da educação, da menos controlada ou menos pedagógica. A educação é também poder inumano.
Fico pensando nisto: se a criança é o inumano, o poder inumano não lhe pertence, mas é exercido pelos adultos, pelos plenamente humanos. A relação entre selvagens e civilizados é mais complexa do que o vão dualismo deixa entrever. Por isso, numa definição de educação, a noção de “conflito entre inumanidades” parece-me interessante: permite-nos intuir o papel da infância como linguagem (pensamento) antes da linguagem (saber), como o inconciliável, se quisermos ainda usar a terminologia de Lyotard, como a heterogeneidade, o conflito, o acontecimento, o desvio. Como o indomável?
Aqui retomo a questão inicial, reformulando-a: o que chamamos de inumano no homem? A infância, a primeira natureza, ou o poder de castração do adulto, a segunda natureza? É possível separar definitivamente o humano do inumano, em nome de uma almejada humanidade plena?
*Sérgio Medeiros ensina literatura na UFSC, é tradutor e poeta, tendo publicado, entre outros livros, “Alongamento” (Ateliê) e “Totem& Sacrifício” (Jakembó, Assunção, Paraguai), edição bilíngüe espanhol-português.
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