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Florianópolis, 29 de Agosto de 2008 O NASCIMENTO DE ZEUS E OUTROS MITOS GREGOS Por: Gizelle Kaminski Corso* Por fazerem parte das diversas culturas humanas desde sempre, os mitos agregam inúmeras histórias e personagens. As diferentes histórias, que vivem os deuses e os heróis, acabam remetendo a grandes aventuras que impressionam tanto adultos quanto crianças. A literatura infanto-juvenil brasileira, nesse sentido, também foi contemplada com adaptações de mitos, especialmente, da literatura grega. Uma das obras mais interessantes que trata dessa temática dos mitos gregos é “As aventuras de Telêmaco”, de Fénelon, lançada postumamente, em 1717, que chegou ao Brasil, muito tempo depois, através de uma tradução portuguesa de José da Fonseca. O início da literatura infanto-juvenil brasileira é marcado por traduções e adaptações dos contos de Perrault, Grimm e Andersen. Figueiredo Pimentel e Carlos Jansen são vistos como os primeiros tradutores/adaptadores de obras clássicas européias. “Os Contos da Carochinha” (1886), do primeiro, e “As viagens de Gulliver” (1888), “Robinson Crusoe” (1885), “D. Quixote de la Mancha” (1901), entre outras, do segundo, foram traduções-adaptações que se tornaram uma maneira de pôr o leitor em contato com o texto clássico, mesmo que traduzido. Por outro lado, por serem baseadas em obras européias, portanto, em culturas alheias, distavam grandemente da realidade das crianças brasileiras. Das publicações atribuídas para crianças brasileiras no início do século XIX, cuja temática era a mitologia grega, data de 1915 a primeira delas, intitulada “O Velocino de Ouro”, autoria de Arnaldo de Oliveira Barreto, seguido por Monteiro Lobato, quando da publicação, em 1939 de “O Minotauro”, e, em 1944, “Os doze trabalhos de Hércules”. Nessa esteira, vieram “O Minotauro e outras lendas gregas” (1967), “A cabeça da Medusa e outras lendas gregas” (1967), “O palácio de Circe e outras lendas gregas” (1967), “Os pigmeus; O Tosão de ouro, 9. Jasão e os centauros invisíveis”(1977), de Orígenes Lessa. Muitos outros autores consagrados na literatura infanto-juvenil brasileira, como é o caso de Luiz Galdino, Ruth Rocha, Ana Maria Machado, Leonardo Chianca, entre outros, adaptaram e recontaram obras clássicas abordando a mitologia grega. Embora a leitura de obras clássicas pareça estar fora do ritmo de vida vigente, em seu famoso ensaio intitulado “Por que ler os clássicos”, Italo Calvino (2001) apresenta quatorze propostas que pretendem justificar a importância da leitura desses livros. Calvino adverte que o uso do termo “clássico” em seu texto não faz distinção de antiguidade, autoridade e/ou estilo, mas refere-se a obras, tanto modernas quanto antigas, que já apresentam ter um lugar próprio no âmbito cultural. Para ele, os clássicos são livros que, quando relidos, sempre dão a sensação de que estão sendo lidos pela primeira vez. Além disso, são obras que constituem uma riqueza cultural, impondo-se como inesquecíveis, leituras de descobertas que formam uma soma de discursos, mas que logo são repelidos para longe. Os clássicos não estão abandonados no meio escolar, pois eles aparecem também por meio de antologias e listas de obras fundamentais, proporcionando aos estudantes contato com determinado universo cultural. Isso significa dizer que a literatura também depende de sua manutenção nos currículos escolares. De fato, as diversas adaptações de obras clássicas para o público infanto-juvenil possibilitam uma primeira leitura desses textos originalmente complexos. Por meio da releitura de escritores, os textos clássicos são trazidos para diversos públicos, e essas leituras, muitas vezes, conduzem ao original – que dependendo do idioma, é a tradução. Considerando que a literatura grega, por meio de epopéias, tragédias e comédias, não surgiu como literatura para crianças e jovens, as adaptações tornam-se relevantes para tentar aproximar o leitor jovem dos textos clássicos e da cultura grega. Além disso, no Brasil não temos montagens regulares e sistemáticas do teatro grego, e a forma mais fácil de apreender o manancial grego é, ainda, por meio da leitura em livro. O número de coleções e títulos de livros para o público infanto-juvenil que abordam o universo grego cresce a cada dia. É possível ter um exemplo desse crescimento nas narrativas que trazem o mito de Édipo recontado e adaptado, para citar alguns, como é o caso de “A maldição de Édipo” de Luiz Galdino, “Édipo rei”, uma versão romanceada do mito, escrita pelo francês Didier Lamaison, “A coroa de Tebas” (2002), de Ricardo Japiassu, “Édipo” (2003), de Menelaos Stephanides, e a trilogia tebana – “Édipo Rei, Édipo em Colono e Antígone”, adaptada por Cecília Casas. A preocupação em tornar o leitor jovem conhecedor dos mitos é patente. “O nascimento de Zeus e outros mitos gregos” (Cosac Naify, 2007), da professora de grego da USP, Adriane Duarte, contém uma adaptação de diversos mitos gregos. O que difere essa adaptação de tantas outras que conhecemos é a fase da vida em que esses mitos nos são apresentados. Acostumados que estamos a conhecer seus feitos e batalhas, nós nos esquecemos que, como lembra a autora em “Para começo de conversa”, introdução do livro, os deuses e heróis também “foram crianças, sim! Tiveram pai, mãe, irmãos que, às vezes, não ficaram tão conhecidos como eles. Até freqüentaram a escola, que talvez não fosse tão parecida com a sua”. Desse modo, numa linguagem acessível, fluente, os heróis e deuses gregos, que deles até então conhecíamos a vida adulta, são narrados de outra perspectiva: a da infância e de suas relações com os bichos (de estimação ou não): Zeus, alimentado pela cabra Almatéia; Hermes com a tartaruga, cujo casco transformou em lira e com as vacas furtadas (com apenas um dia de vida) do irmão Apolo; Dioniso, que foi transformado, por proteção de Zeus, em um cabrito durante a infância para livrar-se de Hera; Odisseu, em caçada, ao enfrentar um javali; Páris e seu carinho pelo Touro. Além disso, diversos heróis tiveram como instrutores, os professores da época, Fênix e Quíron, como é o caso do guerreiro Aquiles. Também é importante mencionar histórias em que não há relação direta com bicho de estimação, como é o caso de Heracles (Hércules) e as serpentes, que não as tem com estima, mas as enfrenta para salvar a si e ao irmão gêmeo, Íficles; a história das deusas, filhas de Zeus, que nasceram prontas: Ártemis e Atena; a de Teseu, aquele que depois de adulto enfrenta corajosamente o Minotauro, no labirinto de Creta; e a de Perseu, relacionado aos peixes, por ser lançado ao mar juntamente com a mãe e por terem sido salvos por um pescador, quando presos a uma rede de peixes. Essa nova abordagem do tema atrai certamente não só para si o leitor jovem, apaixonado por mitologia grega, mas todos os leitores interessados em conhecer melhor os mitos gregos de outra perspectiva. Além dos capítulos mencionados acima, consta no livro uma breve genealogia dos deuses e parentesco dos heróis, considerações acerca da infância dos mortais na Grécia Antiga e do mito ao dia-a-dia, e fontes de sugestão de leituras para melhor situar o leitor. As ilustrações do livro, que pertence à Coleção Mitos do Mundo, são assinadas por Felipe Cohen. Embora ilustração não seja pré-requisito para que leitores mais jovens tenham acesso a determinados livros, as contidas na narrativa de Adriane Duarte tornam o leitor familiarizado aos elementos citados no texto. As ilustrações também fortalecem o texto escrito e permitem que o leitor construa, por meio da imagem, outro texto, que completa o anterior. A maioria das imagens vem antes do texto escrito, o que significa um apelo maior à imagem para atrair o leitor jovem em detrimento do texto escrito. Nas ilustrações de Felipe Cohen encontramos símbolos e elementos da cultura grega que, para determinados leitores, são desconhecidos e servem de base para compreensão do texto escrito. Assim, a permanência dos mitos gregos na literatura infanto-juvenil responde a diversas necessidades como, por exemplo, inserir as crianças no mundo de uma cultura reconhecida e valorizada pelos adultos – a grega, cultura dita universal –; transmitir essa cultura a esses leitores jovens; legitimar esse discurso por autores já consagrados na literatura infanto-juvenil e tentar dar conta de uma realidade da cultura humana – um conhecimento socialmente valorizado que merece ser partilhado com esses leitores. A minha proposta para o livro era tratar da infância de deuses e heróis da mitologia grega, por isso escolhi personagens cujas histórias favorecessem essa abordagem. A idéia era aproximar as crianças do universo mitológico explorando o que há de comum na experiência dos primeiros anos de vida, apesar das especificidades pressupostas pelos contextos histórico e cultural. Na medida em que o livro ia alcançando sua forma final, notei que, além do fato de as histórias apresentarem crianças como protagonistas, em muitas delas figuravam animais, domésticos ou não. A presença de animais decorre naturalmente do mito grego, já que são emblemáticos e ajudam a definir a identidade de certos deuses e heróis, mas também põem em evidência a afetividade dos personagens. De um modo geral, a menção aos animais colaborou para conferir unidade às narrativas que compõem o livro. Escrevi o livro para crianças, na verdade, para duas crianças: Pedro e Julia, meus filhos, que hoje têm nove e onze anos respectivamente. Como professora de Língua e Literatura Grega na USP, tudo que escrevo é voltado para o público adulto e tem natureza acadêmica. Eu queria mostrar para eles o que eu estudo de uma maneira que eles entendessem e apreciassem. Então, desde o início, eu tinha em mente escrever um livro para crianças. A minha grande estratégia foi apresentar as aventuras que deuses e heróis viveram quando crianças, de modo que o leitor se reconhecesse nessas histórias. Foi bem difícil reunir estas histórias de infância heróica e divina, porque os gregos, em geral, davam pouca importância à infância. A ênfase era dada no homem maduro, que realizou plenamente todo o potencial da espécie - o que a criança apenas prometia. Então são poucos os relatos que incluem episódios da infância, de modo que creio tê-los explorado todos. As histórias que integram o livro não têm notas. Optei por inserir na própria narrativa as explicações que julgava necessárias para a compreensão do texto - e, para isso, contei com grande ajuda da minha editora, Isabel Coelho, que apontou as passagens que considerava obscuras. Outras informações, sobretudo as de caráter sociológico e histórico, foram reunidas no posfácio, "A infância dos mortais da Grécia Antiga", voltado para os leitores mais velhos e curiosos. Ali traço vários paralelos entre mito e realidade, o que evitei fazer ao longo do livro. Afinal, os contos de fadas também trazem heróis que são abandonados pelos pais, criados por madrastas, forçados a enfrentar desafios descomunais para sua idade... As crianças estão familiarizadas com este universo e muitas vezes nem estranham.
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