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SOBRE CRIANÇAS E INFÂNCIA Por: Dirce Waltrick do Amarante Num ensaio de 1924, Walter Benjamin afirma trata-se de preconceito ver as crianças como “seres tão diferentes de nós, com uma existência tão incomensurável à nossa, que precisamos ser particularmente inventivos se quisermos distraí-las”.2 Apesar disso, acrescenta o filósofo alemão, “desde o Iluminismo, essa tem sido uma das preocupações mais estéreis dos pedagogos”, que, “em seu preconceito, não vêem que a terra está cheia de substâncias puras e infalsificáveis, capazes de despertar a atenção infantil”.3 De fato, parece que as crianças se sentem “atraídas por detritos, onde quer que eles surjam – na construção de casa, na jardinagem, na carpintaria” e também na literatura e demais produtos culturais dirigidos a elas. Por detritos, entende-se qualquer detalhe ou fragmento que possam ser utilizados pelas crianças para a construção de “seu mundo de coisas” e de idéias.4 Por isso, quando se aplica a teoria de Benjamin à literatura, pode-se duvidar que os jovens leitores” apreciem textos unicamente “por sua moral”. No tocante às fábulas, por exemplo, é difícil acreditar que as crianças a utilizem como uma fórmula de edificação “de sua inteligência, como uma certa sabedoria que tudo ignora sobre a infância”. Nas fábulas, segundo Benjamin, “as crianças se divertem muito mais com os animais que falam e agem como homens do que com os textos ricos em idéias”.5 E, nem por isso, elas deixam de construir seu próprio universo. Sobre a literatura infantil, o filosofo alemão afirma, de forma pessimista, que, pelo fato de não ter escapado ao controle das teorias filantrópicas e dos pedagogos, “‘a literatura especificamente destinada aos jovens começou com um grande fiasco. Podemos acrescentar que em muitos casos ela permaneceu um fiasco”.6 Mas, na literatura infantil que herdamos do passado, há, é claro, exceções e, segundo Otto Maria Carpeaux, o escritor dinamarquês Hans Christian Andersen pode ser considerada uma delas, pois esse autor “não foi um adulto que sonha da infância – atitude que desfigura a maior parte da literatura infantil – e sim um adulto que viveu a infância”.7 Em vista disso, pôde perceber que, para a criança, nem tudo é brincadeira sem conseqüência, como os adultos costumam pensar: "mas as crianças são realistas a seu modo: a brincadeira lhes parece muito séria. Por isso gostam tanto dos contos de Andersen, porque ele também tomou a sério o mundo dos brinquedos. Mas como podia assumir essa atitude vedada aos adultos? Porque não foi adulto e sim criança.”8 Carpeaux nos aponta a necessidade de se rever o conceito de criança e de infância. Uma vez que ainda “estamos acostumados a pensar a criança numa perspectiva simplesmente etária que a considera como um organismo em formação por excelência”, como afirmam Marisa Lajolo e Regina Zilberman, ou seja, “um ser incompleto que se define em função de algo que é evoluído, completo: o adulto”.9 Mas se a criança é um dado etário, “este dado está imerso na História, conseqüentemente, é em relação a ela que esse etário se define”.10 Razão pela qual a criança deve ser vista como alguém “sujeito a condições históricas e, por isso, variável”.11 A infância, porém, vai além desse conceito e dessas variações históricas e sociais. Na opinião do filósofo italiano Giorgio Agamben, a in-fância “não é simplesmente um fato do qual seria possível isolar um lugar cronológico, nem algo como uma idade ou um estado psicossomático que uma psicologia ou uma paleoantropologia poderiam jamais construir como um fato humano independente da linguagem”.12 A infância seria, portanto, um experimentum lingua, ou seja uma experiência com a linguagem, uma tentativa de nominar “conceitos vazios”13, ou ainda, segundo o próprio Agamben, a infância seria “aquilo que chamamos de pensamento”.14 Agamben toma como certo o pressuposto de que a infância é o lugar da experiência, isto é, que a infância “situa-se na fratura que marca irremediavelmente a linguagem humana, a diferença entre língua e discurso”.15 Concluímos, com Agamben, que a infância está presente em toda existência do homem, “não pode ser simplesmente algo que precede cronologicamente a linguagem e que, a uma altura cessa de existir para versar-se na palavra”. 16 Mas essa idéia ainda parece nova e, portanto, preferimos continuar a entender a infância, ou a criança, “enquanto faixa etária ‘incompleta’, que deve ser consumidora passiva de produtos culturais elaborados para ela pelo grupo social, a fim de que possa se tornar um ser humano evoluído, ‘completo’, vale dizer ‘adulto’”. Desse modo, a “criança passa a ser um depositário de um mundo criado pelo adulto(...)”, sendo que a cultura17 deve “exercer uma função domesticadora e coercitiva”, que dificulta “a participação da criança na História enquanto sujeito”.18 Para a sorte das crianças, nem tudo o que se produz para elas leva em conta essa última afirmação. Na literatura, por exemplo, muitos outros escritores engrossam a lista de nomes que, ao lado de Andersen, escreveram não para crianças, mas para si mesmos, enquanto pessoas que vivem a infância (os contos de Andersen, aliás, “não visavam apenas ao público infantil. O que intentava ao escrevê-los era que também fossem apreciados pelos adultos (...), conforme ele próprio o declarou expressamente, mais de uma vez”19). Só para citar alguns nomes, lembraria Lewis Carroll, Edward Lear, Oscar Wilde, Eugène Ionesco, Wolfgang Goethe (O Aprendiz de Feiticeiro acaba de ser lançado pela editora Cosac Naify, na coleção Dedinho de Prosa), Kafka (com suas Narrativas do Espólio – por que não para crianças? --, “nebulosas” e melancólicas, por vezes muito semelhantes aos contos do escritor dinamarquês), dentre outros. No Brasil, temos Érico Veríssimo, Clarice Lispector, Manuel de Barros, Arthur Nestrovisky, etc., lista bastante expressiva. No cinema a questão, contudo, parece ser outra. Os filmes desenvolvidos para crianças nasceram, na sua maioria, de adaptações de contos de fadas, fábulas, etc. Sucesso garantido. Mas, hoje, o que vemos são filmes com argumentos próprios, desvinculados – de certo modo — dos contos de fada já existentes, ou, como no caso do filme Shrek, mesclando vários contos de fada para criar uma estória original. O que constatamos, em suma, é que esses novos filmes para crianças são “entretenimento mágico para todas as idades”, talvez porque eles passaram a ser feitos a partir da criança e não para a criança, tal como sucede, aliás, na literatura do escritor dinamarquês. Wallece e Gromitt: A Batalha dos Vegetais, por exemplo, ganhou nesse ano o Oscar de melhor animação (categoria que não é específica para a produção cinematográfica para crianças), tornando-se um grande sucesso internacional, assistido pelo público adulto e infantil. Se o filme agrada os adultos por sua metalinguagem, paródia e outros elementos da construção da narrativa, as crianças ficaram certamente fascinadas por Gromitt, o cão do “protagonista” do filme, mais esperto e heróico que seu dono, pelos coelhos que agem como seres humanos, dentre outros elementos lúdicos do filme. E é a partir desses fragmentos, dessa bricolagem de idéias, que a criança de hoje poderá rever e reavaliar seu mundo, como afirmou Benjamin, mesmo que os adultos não encontrem nada de edificante nessas novas criações culturais. BIBLIOGRAFIA: ADORNO. Theodor W. Educação e Emancipação. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2003. AGAMBEN, Giorgio. Infância e História: Destruição da Experiência e Origem da História. Belo Horizonte: UFMG, 2005. ARRIGUCCI Jr., Davi. Outros Achados e Perdidos. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica, Arte e Política: Ensaios sobre Literatura e História da Cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994. BLOOM, Harold. Contos e Poemas para Crianças Extremamente Inteligentes de todas as Idades. Volumes 1,2,3,4. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003. CARPEAUX, Otto Maria. Ensaios Reunidos (1942-1978). Vol. I. Rio de Janeiro: Universidade Editora e Topbooks, 1999. CEVASCO, Maria Elisa. Dez Lições sobre Estudos Culturais. São Paulo: Boitempo, 2003. KAFKA, Franz. Narrativas do Espólio. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. LISPECTOR, Clarice. A Mulher que Matou os Peixes. Rio de Janeiro: Rocco, 1997. WILDE, Oscar. Contos e Novelas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998. ZILBERMAN, Regina (org.). A Produção Cultural para a Criança. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1990. ZINANI, Cecil Jeanine Albert e Salete Rosa Pezzi dos Santos (orgs.). Multiplicidade dos Signos: Diálogos com a Literatura Infantil e Juvenil. Caxias do Sul: Educs, 2004.
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