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Florianópolis, 29 de Novembro de 2007 POR QUE GOSTO TANTO DO ULISSES DE JOYCE Por: Sérgio Medeiros* Vejo agora na minha biblioteca enfileiradas várias edições do romance Ulisses (1922), em inglês e em outras línguas, inclusive, naturalmente, as duas brasileiras. Tive também acesso no ano passado à nova tradução de Caetano Galindo, a mais bem-humorada de todas, ainda não divulgada comercialmente no Brasil. Guardo, porém, com muito carinho, um volume que adquiri quando tinha cerca de 16 anos (e ainda morava na fronteira com o Paraguai, em Bela Vista (MS)), a edição da Civilização Brasileira de 1975, que traz a tradução de Antônio Houaiss. Ela começa com o mal-afamado “Sobranceiro”, palavra que, segundo me contou Caetano Galindo, afugenta o incauto leitor imediatamente. Mas eu fui em frente, na adolescência. E li tranqüilamente o resto da frase: “Sobranceiro, fornido, Buck Mulligan vinha do alto da escada...” Li e reli o romance vários vezes ao longo dos anos. Continuo a fazê-lo hoje, agora. Recentemente, tendo adquirido a tradução de Bernardina da Silveira Pinheiro, fui entretanto nocauteado por esse texto já na primeira página, já no primeiro parágrafo. É incrível, pois considero Ulisses o maior de todos os romances. Faço questão de citar esse texto, atribuído a Joyce, que não pude ainda digerir: “Majestoso, o gorducho Buck Mulligan apareceu no topo da escada, trazendo na mão uma tigela com espuma sobre a qual repousavam, cruzados, um espelho e uma navalha de barba. Um penhoar amarelo, desamarrado, flutuando suavemente atrás dele no ar fresco da manhã. Ele ergueu a tigela...” O adjetivo “gorducho” não me agrada, mas eu o engulo razoavelmente bem. Agora, o termo “penhoar” é demais para o meu paladar: ele ficou para sempre atravessado na minha garganta mental. Não consigo imaginar o doutor Buck Mulligan, que encena uma paródia da missa, usando um penhoar amarelo. Certos homens usam, não Buck Mulligan, ainda mais nesse romance. Na tradução de Houaiss, menos feminista, consta: “Seu roupão amarelo, desatado, se enfunava por trás à doce brisa da manhã.” Até hoje, ao que me consta, joycista nenhum do Brasil conseguiu explicar esse penhoar da Bernardina. O tradutor de Finnegans Wake (último romance de Joyce), Donaldo Schüler, olhou-me emudecido, enquanto refletia (e ainda reflete) nesse mistério. Em espanhol é “bata amarilla desprendida”, confesso que consigo ver o nosso sacerdote Mulligan usando “bata”. Em inglês é “A yellow dressinggown”, sendo que esta última palavra, se meu inglês não me falha nesta hora crucial, é “roupão”, embora o lamentável Dicionário Inglês-Português do Antônio Houaiss dê como significado “penhoar”, e ainda acrescenta a grafia francesa: peignoir. (Fiquei com medo de ler a tradução francesa do romance do Joyce, nem pus a mão nela.) Ao que tudo indica, quando traduziu o romance de Joyce, o sábio Houaiss não usou o seu próprio dicionário (cheio de palavras “portuguesas” que não existem em português), mas a Bernardina, menos previdente, o fez. Daí esse penhoar flutuando no ar da manhã. Que ela herdou do Houaiss como uma maldição. (Fantasmas assombram o Ulisses, como sabemos.) Tenho muitas razões para eleger Ulisses o maior de todos os romances, não importa em que língua eu o leia. Em todas as línguas, é um romance terrorista, em cada capítulo estoura uma granada irlandesa contra o Império Britânico. Pois Joyce, como me mostrou Dirce Waltrick do Amarante, é o livro mais engajado e político do século XX. Ao lado dele, até Neruda é comportado, politicamente falando. Hoje, citarei algumas frases memoráveis do Ulisses, reabrindo a minha velha edição de 1975, quase esfacelada, da Civilização Brasileira. Pois as frases memoráveis do livro são mais uma razão para eu apreciar até a morte Ulisses: 1) “Ele gargalhava para libertar seu espírito da servidão de seu espírito” (p. 242). 3) “Pensar que se está escapando e se está correndo para dentro de si mesmo. O caminho mais longo é o caminho mais curto para casa” (p. 427-428). 4) “A casa solitária cerca do cemitério está desabitada. Alma nenhuma lá viverá.” *Sérgio Medeiros é poeta e tradutor. Publicou este ano nova coletânea de poesia Totem & Sacrifício (Jakembó, Assunção) e a versão integral do poema maia Popol Vuh (Iluminuras, São Paulo), com a colaboração do americanista inglês Gordon Brotherston. É um dos editores do site www.centopeia.net
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