Por:Sérgio Medeiros
 
 
 
Por:Victor da Rosa
 
 
 
Por:Victor da Rosa
 
 
 
Por:Victor da Rosa
 
 
 
Por:Silveira de Souza
 
 
 
Por:Antônio Cícero
 
 
 
Por:Sérgio Medeiros
 
 
 
Por:Sérgio Medeiros
 
     
 

 

   

Florianópolis, 15 de Abril de 2008

DOIS RELATOS
Por: Silveira de Souza

As pulsações

   
Pelo telefone ele me disse que o seu escritório ficava no edifício Netuno, que formava uma imensa galeria comercial bem no coração da cidade. Às dez horas, subi apressado as escadas para o terceiro andar, em meio a um sem-número de pessoas desconhecidas e também apressadas que subiam e desciam. Do patamar para a direita, no terceiro andar, de ambos os lados do corredor amplo e iluminado como dia, abria-se uma seqüência de escritórios os mais diversos, de advogados, de seguradoras, de publicitários, de pequenas ou grandes firmas do interior.
 “Ah, sim”, disse-me ele, quando surgi à porta. “Entre, por favor.”
 De início decepcionei-me um tanto com o seu aspecto: pareceu-me um camponês anguloso e atarracado, metido num terno de casimira cinza-claro, de corte anacrônico e usando uma indiscreta gravata vermelha. Mas a decepção era logo desfeita pela sólida energia e vitalidade dos gestos e do olhar. Foi direto ao assunto.
 “Sabe, trata-se de uma descoberta casual, quando eu me iniciava nos exercícios da pesca submarina. Passei a chamá-las de pulsações e encontrei-as numa lagoa de águas amareladas do interior da ilha, entre dunas e vegetação rasteira. Me disseram que o senhor poderia interessar-se. Vamos vê-las?”
 Deixamos o escritório e seguimos até o local dos três elevadores, dos quais apenas um deles conduzia ao subsolo.
 “É uma preocupação constante”, disse ele, no elevador para o subsolo. “Tenho procurado manter um meio ambiente de sombra e umidade, embora não esteja certo da maneira adequada de tratá-las. Não gostaria que morressem, apesar de não representarem outra coisa para mim do que uma descoberta curiosa.”
 Enquanto falava, em tom despreocupado, ele me atirava de soslaio curtas olhadelas avaliadoras e eu pude perceber as suas intenções de valorização dos cuidados que empregava.
 De fato, sobre um estrado de madeira apoiado em cavaletes, no espaço exíguo e obscuro do subsolo, havia quatro recipientes que à primeira vista, logo que entramos, pareceram-me bacias ou gamelas. As paredes do subsolo eram de puro concreto ferruginoso e enrugado. A claridade vinha apenas da iluminação insuficiente do interior do elevador aberto.
 Era ansiedade e também, por que não dizer, algum temor, que eu comecei a sentir diante daquelas gamelas sombrias, em cada uma das quais formas estranhas jaziam sobre uma camada de serragem e mergulhadas em água. A idéia de um puro pensamento, original, ativo, incansável no esforço gigantesco de concentração para a busca de uma forma, essa idéia me amedrontava não de agora. Com freqüência sempre maior, nos últimos meses, as minhas impossíveis cogitações se dirigiam para esse pensamento doloroso e persistente, que no seu estado de isolamento, finalmente pela força de uma vontade cósmica a ele imanente, ia criando primitivas e rudes configurações materiais, germens pulsantes, que após seculares transmutações ou mortes do invólucro físico, alcançaria um dia a definitiva forma, para depois inexoravelmente desintegrar-se numa onda de energia; por quê? para quê?
 “Veja”, as mãos dele mergulharam bruscas na água e levantaram uma estrutura ovóide, escamosa, como feita de gelatina endurecida e queimada. “O que me chamou a atenção, assim que a peguei na lagoa, foram as pulsações interiores, que se assemelhavam às de um coração batendo...”
 Enquanto o braço se estendia e a minha mão pousava, como uma criatura independente, sobre a massa pulsante, uma corrente de tensão despertou para a memória as infinitas imagens imprecisas, mal definidas, que o devaneio abstrato  muitas vezes pressentia já haverem existido num mundo remoto e líquido, povoado de seres cuja existência era apenas um latejar da vontade imersa em charcos aquecidos. E por uma dessas coincidências que a probabilidade revela, o ritmo daquelas vibrações era terrivelmente familiar, como se pertencesse à mesma classe das vibrações que impulsionavam a minha carne e todo o meu ser para uma continuidade que vinha de um passado indecifrado e ia para um anseio não vislumbrado.
 Mergulhei de volta a estrutura para a gamela. Fiz um sinal de aquiescência para ele. Esperei-o depois no elevador, durante alguns instantes, ainda com um tremor de excitação, até que ele se aproximou sobraçando um embrulho cilíndrico envolto em folhas de jornais.
 No escritório preenchi o cheque. À saída, ele me apertou fortemente a mão, inclinando a cabeça. Saí apressado levando comigo a última imagem de um rosto atencioso, mas um tanto perplexo, que relutava mostrar na linha de um sorriso sutil, a irônica incompreensão de um acontecimento vantajoso e insólito.

 

Contas de vidro

As cinco primeiras peças foram trazidas por Mário, que trabalhava numa relojoaria. Não que tivessem alguma relação com qualquer das peças de um relógio; eram apenas diminutas contas de vidro sem valor, de formatos e cores diversos. Mas o simples fato de sabermos que Mário trabalhava numa relojoaria eliminava todo o espanto que eu e a prima Júlia pudéssemos demonstrar, pois sempre imaginamos que seria possível encontrar-se numa relojoaria as coisas mais espantosas e insensatas. Naquela época eu não fazia nada; havia sido despedido da fábrica de conservas. A prima Júlia, que tinha cinqüenta anos, cozinhava para nós todos, talvez porque fosse um tanto surda e  também, é claro, porque  tivesse  cinqüenta anos.
 Prima Julia e eu valorizamos de imediato (havia uma ponta de dissimulado exagero) aquelas contas de vidro, cumprimentando Mário pela sua idéia tão inspirada. Afinal, era o Mário quem sustentava a casa e por certo necessitava de nosso apoio moral em tudo que fizesse. Alinhei em seguida as cinco pecinhas sobre a mesa da sala de jantar, buscando criar com elas figuras interessantes ou engraçadas, mas prima Júlia logo percebeu que muito pouca coisa poderia ser feita. A experiência não foi além de alguns segmentos de retas, um pequeno triângulo, um “L” maiúsculo, uma cruzinha.
 Na tarde seguinte as possibilidades criativas aumentaram de modo considerável, pois Mário apareceu trazendo mais quatro peças. Então eu pude imediatamente formar o contorno de uma lemniscata, uma figura que vi certa vez num livro de geometria e que se parece com um oito deitado, sugerindo-me na ocasião angústias ou esperanças infinitas. Quando viu aquilo, prima Júlia exclamou: “Que coisa curiosa! Um laço de fita!”  Precisei aproximar a boca do ouvido dela para gritar, esforçando-me em pronunciar bem as sílabas: “É uma lem-nis-ca-ta!” Curvada como estava sobre a mesa, ela me lançou um olhar demorado de baixo para cima e disse: “Entendo”. Foi quando Mário começou a rir com o seu riso gorgolejante: “Ela não está entendendo nada!”, exclamou.
 Outras figuras puderam ser feitas com as nove peças. Por exemplo, um escaravelho sem pernas. Mas nenhuma delas despertou maiores interesses, pelo menos para prima Júlia. Devo confessar que o ar aparentemente estúpido, a quase surdez e o laconismo de prima Júlia pareciam a carapaça de uma tartaruga, em cujo interior se escondia um espírito diabolicamente refinado  que alimentava aqueles sonhos impossíveis dos artistas insatisfeitos.
 Quase todos os dias, desde então, Mário aparecia trazendo pecinhas adicionais. Eu não poderia jurar que fosse, da parte de Mário, algo de proposital, qualquer intenção sutil para testar a nossa pesada inutilidade. Mas a verdade é que um permanente desafio de criatividade acaba, mais cedo ou mais tarde, por se tornar o mais infernal dos castigos. As construções que eu fazia eram por vezes belas e poderiam ser chamadas de talentosas, pelo menos na minha opinião,   mas prima Júlia conseguia sempre encontrar nelas algo de repetitivo, um traço de estabelecida conformidade, um “déjà vu” de algum outro tempo ou espaço. Certo dia, exasperado ao máximo, gritei para ela num desafio: “Pois então faça você mesma algo melhor ou desapareça de uma vez por todas da minha frente!”
 Deus do céu, por que fui dizer tal coisa? Aquele ato de insensatez e desespero deixou-me arrasado pelo resto do dia e provocou-me um sono intranqüilo, pontuado de pesadelos, durante a noite. Prima Júlia não merecia tamanha desconsideração, ainda que na aparência não tivesse demonstrado maiores preocupações.
 Aconteceu apenas que, no dia seguinte, sobre a mesa da sala de jantar, havia aquela estranha  construção figurativa  de dezenas de contas de vidro, única na sua expressividade de cruel colorido,  como toda obra de arte renovadora e  indescritível.
 Desde então, nunca mais vimos a prima Júlia. Por isso, vivo permanentemente desolado e tendo de fazer os serviços de cozinha.   Mário no entanto  continua trazendo  diariamente  as suas contas de vidro da relojoaria, como se nada houvesse acontecido ou como se ainda houvesse alguém demais na casa.

 

 

HOME . GALERIA . POEMAS . ENSAIOS . EVENTOS . RESENHAS . TEATRO . NARRATIVAS . TRADUÇÕES . ACORDE COM VERA . INFANTO-JUVENIL . LINKS . CONTATO