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Florianópolis, 18 de Julho de 2008 DIÁRIO DE BARCELONA I Por: Victor da Rosa 1, Hoje foi praticamente o primeiro dia que saí do apartamento. Depois de acordar meio-dia (devido ao fuso) e experimentar um tão esperado yogurte grego – que L. vivia comentando enquanto eu estava ainda no Brasil - passei por três bibliotecas: a de Letras da Universidade de Barcelona, a de Letras Românicas e depois a de História da Arte. Só nesta tarde já tive contato com muita bibliografia de Brossa – livros que sequer havia ouvido falar. Na Biblioteca de Letras Românicas, por exemplo, havia em torno de trinta (em meses de pesquisa no Brasil, não consegui achar sequer a metade disso). A grande maioria deles em catalão. Mas como eu tinha um encontro marcado com Glòria Bordons no dia seguinte, preferi não levar nenhum deles – L. é matriculada na UB, posso pegar livros em seu nome - mas uma gramática da língua catalã. Também conheci rapidamente o MACBA e o CCBB, dois dos centros de cultura contemporânea mais importantes de Barcelona, logo do lado do prédio da História da Arte. Passamos por algumas livrarias, a maioria especializada em arte. Deslumbrante. Mas preferi não comprar nada. Ficamos caminhando a tarde inteira. Conheci a calle Avinyó, famosa pela pintura de Picassso, Las señoritas de Avignon. Também peguei o ônibus 24, que aparece em um dos últimos livros do escritor espanhol Enrique Villa-Matas. Durante o tempo todo cruza-se com Gaudi nas esquinas, pisa-se em Miró, encontra-se de repente com Joan Brossa. Aliás, relato um fato curioso. Dentre as inúmeras obras públicas de Brossa, há uma pequena interferência no chão de La Rambla – espécie de calçadão conhecidíssimo de Barcelona, por onde passam milhares de turistas diariamente e onde se apresentam mágicos, estátuas vivas, etc. L. já havia visto esta interferência e eu conhecia somente de um pequeno catálogo de obras públicas de Brossa, que ganhei ano passado, chamado Itinerários brossianos. Acontece que procuramos esta obra e não conseguimos achar. L. estava certa de que a obra estava perto do metrô, mas procuramos várias vezes e realmente não encontramos. Certamente se escondia sob os pés da multidão que passava por ali. Já era final de tarde e estávamos cansados, então desistimos. De noite, ainda, perto das 19h – na verdade, aqui escurece quase às 10h e estamos determinados a dormir tarde, hábito ao qual não estou nada acostumado – depois de tomar um sorvete na Plaza del Rei, conheci outra obra pública de Brossa, BARCINO, que fica em frente da Catedral de Barcelona. São seis pequenas esculturas meio lúdicas: seis letras. Uma amiga italiana me disse que Barcino é o nome de um dos fundadores da Barcelona romana, que ficava exatamente no lugar onde hoje está a obra de Brossa. As muralhas ao redor, de fato, são memoriais. Daí o nome da cidade e daí também a homenagem. Eu não sabia disso. Esta amiga também disse, apontando com os dedos, que ali do lado ficava o Museu Dalí, mas ninguém da Espanha visita porque não há nenhuma obra de Dalí - e, no mais, segundo me disse, foi um Museu construído no interior de uma espécie de pacto com o Governo de Franco. Barcelona, 9 de julho. 2, Eu e L. - mais uma vez – não encontramos a intervenção invisível de Brossa. Resolvemos procurar novamente porque estávamos passando por La Rambla, mas realmente não encontramos. Agora vejo no catálogo que estávamos no lugar errado. Da próxima vez iremos com o catálogo na bolsa. Em compensação, hoje foi um dia com excelentes notícias brossianas. Primeiro: o encontro com Glòria Bordons, que já estava marcado desde o Brasil. Foi um encontro muito proveitoso. Além de Glòria ser uma das maiores críticas de Brossa, senão a maior, responsável por grande parte de suas exposições, autora de um livro fundamental e de inúmeros ensaios críticos, além de uma das patronas da Fundació, é uma pessoa absolutamente gentil e atenciosa. Cheguei às 11h da manhã no escritório da Biblioteca da Fundació, como combinamos – depois de passar por duas construções antológicas de Gaudí, La pedreda e a casa Batllo - e Glòria já estava lá. No escritório há algumas obras de Brossa, além de algumas cadeiras de balanço enfileiradas que provavelmente deviam ter sido suas - havia muita coisa pra perguntar e curiosidades como esta acabaram passando. Então expliquei meus interesses de pesquisa – infelizmente tive que optar por não ter contato com seus manuscritos, todos atrás de mim, em uma estante enorme, pois teria que investir um tempo que definitivamente não tenho – e ela recomendou que eu iniciasse pelos catálogos. Então me levou para a Biblioteca e somente neste momento – além de conhecer a viúva de Brossa, Pepa, uma senhora muito viva e interessada - tive a dimensão do tamanho de Joan Brossa. Neste meio tempo, Glòria disse coisas incríveis sobre Brossa, como toda a cerimônia que fazia ao mostrar um novo objetos aos amigos – acredito que muitas vezes a cerimônia em si fosse mais importante que o próprio objeto. "Este, este é importante, mais este...", dizia ainda Glòria, enquanto tirava catálogos das prateleiras e me dava para que segurasse. Quando escrevi meu projeto, não sabia que Brossa havia escrito tantos livros e feito tanta coisa em vida – somente depois dos primeiros meses de pesquisa, descobri que sua obra é imensa. Agora, porém, estou descobrindo que a bibliografia sobre Brossa também é imensa. Só de catálogos, separamos três "montanhas" – como dizia a própria Glòria, provavelmente com uma ponta de ironia – perto de trinta. Os mais importantes, porém, são da década de 80 e 90, pois antes Brossa não era tão cultuado pela crítica, embora já tivesse uma obra consolidada. Sem falar em dezenas de livros críticos que resolvi nem tocar, ainda. Depois ainda descemos para a sala de exposição permanente, na outra esquina, e então pude ver alguns objetos de Brossa que somente conhecia através de imagens – e outros que não conhecia nem através de imagens – com direito a uma visita guiada por Glòria Bordons. Não é todo dia que isto acontece. Aprende-se muito desta maneira. Saí da Fundació depois das 14h e no caminho para casa ainda vi Homenaje al libro, a duas esquinas da Fundació, outra obra pública de Brossa – um livro meio aberto, virado para a rua, com a páginas brancas: uma escrita ausente. De noite, ainda, fui no Museu Picasso, pois haveria uma intervenção em torno da obra de Brossa e Picasso, dentro do Festival Grec, festival de cultura que envolve música, teatro, dança. O nome da intervenção: En Brossa fa dissabete a can Picasso. É no Festival Grec que abre a arena grega que tem em Barcelona, mas também há programação em todo tipo de lugar. Esta intervenção era composta de várias pequenas ações que aconteciam dentro do Museu Picasso. Caminhávamos entre as salas com suas pinturas e desenhos. Uma das ações foi realizada exatamente na frente d´As meninas. Algumas ações eram geniais, outras meio ruins. Pelo que entendi – era tudo falado em catalão, não em espanhol – as ações eram resultados de um grupo de estudo. Em uma delas, por exemplo, certamente a melhor, um chefe de cozinha preparava um cardápio surrealista: dentro de um coco saía açúcar, dentro de bananas saíam nozes, e desta maneira ia compondo um prato minimalista, sendo que a maioria dos ingredientes eram jogados no lixo por uma criança, sua ajudante. Na volta para casa, ainda, ouvimos Vanessa da Mata na Plaza del Rei, também pelo Festival Grec. Mas estava fechada – custava 20 euros - e então ficamos pelo lado de fora, sentados em um bar e tomando chopp com mais muita gente ao redor – muitos brasileiros, inclusive. Descobri que em Barcelona não se pode beber na rua, então temos sempre que ficar perto de um bar. Muitos bebem escondido, com a garrafa escondida no casaco. Há também paquistaneses que vendem bebida ilegalmente. Um colega da L. tomou já uma multa de 150 euros porque estava tocando flauta de noite, enquanto voltava pra casa. Barcelona, 10 de julho. 3, Quase nada de Brossa por hoje. Preferi resolver coisas antes de iniciar definitivamente a pesquisa, na segunda-feira. Mas uma visita à grande exposição de Duchamp, Picabia e Man Ray, no Museu Nacional da Catalunha, um dos prédios mais imponentes que vi até o momento – o que não deixa de ser uma contradição interessante: três artistas com obras que, como se sabe, tratam do efêmero, expostos em um prédio tão histórico. Na exposição havia em torno de 300 obras, com uma excelente curadoria que propunha pequenas aproximações entre os três artistas. Ficamos duas horas para ver a metade. A idéia seria voltar no dia seguinte. A exposição mostra, por exemplo, como Duchamp e Man Ray eram, além de tudo, grandes pintores. É uma grande experiência ver uma obra como Moinho de chocolate, por exemplo. É de uma precisão gráfica impressionante. Ou então os primeiros nus e as primeiras noivas. Infelizmente não estavam expostas as pinturas que envolvem o jogo de xadrez, que eu gosto muito, mas os principais objetos estavam todos, e todos lindos, precisos, poéticos demais. Uma pintura de Man Ray me chamou a atenção, de 1914: um disfarce de sua assinatura escondido na paisagem, ou sendo a própria paisagem. Um jogo interessante com a assinatura. Uma espécie de lógica ready-made, portanto. Também é uma exposição muito bem-humorada. Há uma série de fotografias na linha de Rrose Selavy, onde Duchamp aparece de peruca, Picabia aparece imitando uma escultura de Rodin – sem camisa, meio gordinho, fazendo pose atlética – e algumas outras. Também gostei especialmente de uma obra de Duchamp que não conhecia. Trata-se de um espelho com assinatura do avesso, que propõe a multiplicação de retratos ready-made. De noite, logo apos a exposição, visitamos uma mostra de cinema no pátio de um castelo, em Montjuïc. Participam mais ou menos 2.000 pessoas deste evento. É impressionante. Todos levam coisas para comer e objetos para sentar, pois o lugar é isolado. Nesta edição, como se tratava de um filme mudo, a música ficou por conta de uma pequena orquestra de Barcelona - que fez toda a sonoplastia do filme. Aliás, em uma parte do filme que tinha guerra, o público também participou da composição sonora, estourando pequenos sacos plásticos que estavam à disposição na entrada. Subimos em um ônibus especial da mostra, na Plaza España. A fila (cola) era enorme, dava voltas, até pensamos em desistir (fomos praticamente os últimos a conseguir entradas) mas valeu a pena. Barcelona, 11 de julho. 4, Acabo de ter meu cartão Visa engolido pela máquina eletrônica de um banco catalão. Liguei para uma central de dúvidas que havia ao lado do caixa e descobri que só poderei recuperá-lo na segunda-feira. Foi curioso meu dialogo com a atendente. Com meu espanhol horrível, a princípio, ela não entendeu nada. Depois expliquei devagar: "La tarjeta... la máquina..." E fiquei pensando que verbo usar? Engoliu? Falei qualquer coisa que ela deve ter entendido e me respondeu dizendo que eu só poderia resolver isto na segunda-feira. Tudo bem. Na verdade, hoje foi o primeiro dia que saí sozinho, então também me perdi na rua e fui em lugares errados – a biblioteca de Letras estava fechada, por exemplo. Sair sozinho em uma cidade desconhecida e se aventurar em uma língua nova são experiências semelhantes: você vai descobrindo os códigos aos poucos, erra o caminho, volta, pensa que está tudo certo agora, mas às vezes não está. O mapa é então uma espécie de dicionário. Talvez uma diferença fundamental: na língua é necessário ser sintético e na cidade acabamos sendo mais dispersivos. Entrei em La Central, uma das livrarias principais de humanas, pelo menos das que conheci. Separei alguns livros que já queria comprar no Brasil e não encontrava. Notas de Duchamp, uma antologia de Ponge, outra de Michaux, um ensaio de Didi-Huberman e outros. Todos, de algum modo, tem relação com minha pesquisa. Quis comprar, mas sem o cartão não consegui, pois não tinha dinheiro suficiente. No final de tarde, voltei na Livraria com a quantia necessária e, enquanto contava para a vendedora o incidente do cartão, ela acabou se distraindo e passou um dos livros sem cobrar – o mais caro, uma grande antologia do F. Ponge. Não falei nada. Ganhei 30 euros. Depois pensei que valeu a máquina ter engolido o cartão. Gostaria de aproveitar para conhecer melhor a literatura espanhola e catalã, mas acho que não dará tempo. Acho sempre que não dará tempo para fazer tudo que pretendo. A cidade, ao invés de diminuir na medida em que a conheço, parece que cresce ainda mais. De tarde ainda voltamos para ver a segunda metade da exposição de Duchamp/Ray/Picabia, pois nas duas horas do dia anterior não conseguimos terminar – de resto, estávamos muito cansados. Na outra sala havia dois lindos vídeos e – o que eu mais gostei – objetos envolvendo o jogo de xadrez, croquis de peças estranhas, objetos relacionados ao jogo etc. E então voltamos para casa debaixo de chuva, coisa raríssima em Barcelona. Barcelona, 12 de julho. 5, Hoje aproveitei para descansar, organizar minha semana, ler e responder e-mails. Fiquei praticamente o dia inteiro no apartamento. Saí somente para almoçar, com L. Fizemos um almoço típico, com calamar e tortilas. O horário de almoço aqui é perto das 14h e não perto das 12h, como no Brasil. Domingo, então, o almoço vai para 16h. Na verdade, o dia é todo diferente, e se torna um pouco difícil para se acostumar. Por exemplo, começo a ter fome perto de 12h e tenho que esperar para almoçar com todos. Só escurece às 22h, mais ou menos, e as pessoas dormem normalmente 1h ou 2h, então fico com sono, mas espero para dormir no horário certo. Pequenas coisas assim. De noite ainda fomos no cinema, eu e L. – todos seus amigos estão enlouquecidos escrevendo teses e dissertações, então não nos encontramos todos os dias – e antes em um bar argentino, mas nada muito especial aconteceu. Barcelona, 13 de julho.
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