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Por:Sérgio Medeiros |
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Por:Victor da Rosa |
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Por:Victor da Rosa |
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Por:Victor da Rosa |
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Por:Silveira de Souza |
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Por:Antônio Cícero |
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Por:Sérgio Medeiros |
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Por:Sérgio Medeiros |
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Florianópolis, 26 de Julho de 2008
DIÁRIO DE BARCELONA II
Por: Victor da Rosa
6, Na verdade, esqueci de dizer algo que considerei curioso: a grande maioria das salas de cinema em Barcelona exibe filme dublado. Inclusive as salas que exibem filmes mais alternativos. Dizem que é uma herança do regime do Franco, que proibiu tudo que não era língua nacional – como Getúlio no Brasil, aliás, que mandou fechar escolas de língua alemã e italiana do sul do país - no entanto parece, ao mesmo tempo, que se trata de uma herança meio apagada na memória. Algumas pessoas consideráveis chegam a defender a dublagem com o argumento de que "é melhor para prestar atenção nas imagens" – argumento que, mais do que revelar um duvidoso senso estético, revela justamente este esquecimento político. Também me enganei quando disse que BARCINO tem seis letras. Como é possível facilmente perceber, tem sete. ... Hoje comecei efetivamente a pesquisa na Fundação Joan Brossa. Programei esta semana para ler e ver os catálogos mais importantes e copiar os ensaios maiores. A maioria da critica de Brossa está em catalão. Alguma coisa em francês, também em português e em inglês, um texto em alemão, muitos em castelhano, mas a grande maioria está em catalão. Não estou tão certo disso, mas parece que Brossa – diferente de artistas como Miró ou Tapiès, dois de seus grandes amigos e interlocutores – parece ser muito admirado em circuitos mais ou menos restritos. Ainda não tem uma grande inserção internacional, por exemplo. E parece que sempre foi assim, sobretudo durante sua vida. Um dado interessantíssimo, por exemplo: ainda hoje Brossa tem um grande número de obras inéditas. Do início da década de 40 até a 1970, Brossa era um ilustre desconhecido. Deve-se a isto, talvez, o fato de Brossa ter sido um grande experimentador. Ou também talvez toda a relação de resistência que insistiu em manter com a política de seu pais. Sempre escreveu em catalão, por exemplo – língua proibida durante o regime de Franco. Isto certamente lhe restringiu muitas entradas institucionais. Hoje, por exemplo, a obra de Brossa não está inserida, de nenhuma maneira, nos circuitos mais turísticos de Barcelona. Não que isto seja bom – nem ruim – mas é um dado que considero interessante. Acredito, por exemplo, que a de Miró ou a de Tapiès esteja. Picasso, então, nem se fala. O Museu Picasso, também em Barcelona, é realmente algo impressionante. É uma construção enorme e de grande valor histórico. Isto me faz pensar que Brossa hoje ocupa um lugar político interessante: já é canonizado – a tendência é que esta canonização se estabilize cada vez mais – e no entanto permanece mais ou menos estranho, grande parte de sua obra ainda não foi devidamente lida, outra parte sequer foi publicada, etc. Barcelona, 14 de julho. 7, Meus dias estão se organizando mais ou menos assim: acordo perto de 9h, vou para a Fundação depois de tomar café, banho, todas estas coisas – chego lá perto das 11h – e fico até 16h, mais ou menos. Não creio que isto continuará assim, tão programado. Não consigo me organizar de um modo tão rigoroso durante muito tempo. Mas enquanto for possível, levarei deste modo, pois ontem foi muito produtivo. Uma curiosidade: hoje descobri que estou morando em um bairro gay, provavelmente o lugar onde tenha mais gays de Barcelona. Acho que no meu prédio tem pelo menos um casal por andar. Descobri também que casamento entre gays é permitido em Barcelona. Não sabia disso. É o maior flerte nas calçadas, nos bares do bairro. Todo mundo querendo casar. De noite fui no MACBA – na verdade não era ainda noite, e sim fim da tarde, pois os museus aqui fecham relativamente cedo (o que considero muito curioso) – e estava fechado. Não abre terça, martes (como é difícil aprender os dias da semana!). Então fui no CCBB, que é do lado, e vi uma exposição de 10 fotógrafos de vários lugares do mundo que propuseram uma poética a partir de um cineasta que admira. Wim Wenders, Antonioni e outros grande cineastas serviam de pressuposto para a construção de um novo trabalho com a imagem. E fiquei com uma impressão engraçada: de que a montagem estava mais bonita que os trabalhos. As montagens aqui em Barcelona são realmente impecáveis. Hoje, no intervalo da pesquisa, perguntei para a Pepa, viúva de Brossa, da história de todas aquelas cadeiras de balanço – há muitas na Fundação, em torno de 10 (há algumas fotos conhecidas de Brossa sentado em uma delas) – e Pepa me respondeu que Brossa encontrava nas ruas e levava para seu estúdio. Disse também que há mais algumas daquelas em sua casa. Sabe-se que Brossa era um catador de objetos. Grande parte de seus poemas-objeto são feitos de coisas encontradas – na parte mais final de sua trajetória, na década de 90, Brossa se deu ao direito ou se interessou em usar materiais mais "nobres". O primeiro de seus inúmeros objetos é feito com a casca de uma árvore. Outro de seus primeiros é feito com a palmilha de um chinelo. Muitos comentadores de sua obra e de sua vida dizem também que Brossa não tinha muito dinheiro. Vivia sempre com 3 ou 4 euros no bolso, só para pegar o ônibus. Quando a tarifa aumentou, passou a se ir aos lugares andando mesmo. Outra curiosidade que descobri hoje: a catalogação dos poemas visuais de Brossa – só os visuais; não estou falando de objetos, nem de poemas escritos, nem do teatro, dos roteiros e nem da critica – chega a quase 1.700, segundo a catalogação de Pilar Parcerisas, uma de suas principais críticas. Outra curiosidade: há um livro de Brossa com quase 300 poemas. E nós, no Brasil, temos a plena convicção de que conhecemos sua obra e podemos opinar sobre ela. Barcelona, 15 de julho. 8, Todos os dias passo pela La pedrera – a construção antológica de Gaudí – e sempre está com uma fila enorme. Aliás, uma das primeiras palavras do castelhano que aprendi em Barcelona foi esta: cola, fila. Chego na Fundação Brossa às 11h e a fila já dobra a esquina. Quando me atraso e chego 12h, por exemplo, a fila está ainda maior. Hoje foi assim. Quando saio da Fundação, em torno das 17h, passo novamente pela La pedrera e novamente a fila. Hoje pensei: nunca irei conhecer a La pedrera por dentro. Hoje, no ônibus, uma senhora me viu com um mapa na mão e me falou alguma coisa em catalão. Não entendi e respondi a ela em espanhol. Conversamos um pouco – ela ainda tentou falar em catalão, mas percebeu que de fato eu não entendia – embora de um modo meio atrapalhado, mesmo em castelhano. Ela disse que conhecia São Paulo. Disse que quando foi para São Paulo tinha muitos japoneses por lá. De fato, a língua catalã é muito mais presente na vida das pessoas do que eu imaginava. Em toda cidade, ela permanece lado a lado com o castelhano. Informações urbanas, atendentes de loja, bares, bancos - em todo lugar se fala catalão. Para ler, é uma língua muito parecida com o português – mais até do que o castelhano, talvez – mas para compreender é realmente difícil sem estudar ou praticar. Quem tem o castelhano e o catalão como língua mãe, opta sempre pelo catalão. É uma cultura muito forte. E talvez uma memória política que não se apaga. De noite, fui em um bar com vários amigos da L., no Raval – um bairro universitário que inclusive gerou um verbo: ravalejar, andar pelo Raval. Outra palavra que aprendi rápido: caña, chopp. E outra curiosidade: aqui é permitido fumar em qualquer lugar. Até em restaurantes. É normal uma pessoa acender um cigarro depois do almoço, por exemplo. Não há a mesma proibição que há no Brasil. Considero isto curioso. Falando em proibição, aliás, aqui ninguém dirige bêbado. No entanto, há uma grande qualidade e variedade nas opções de transporte urbano, o que permite qualquer pessoa sair de casa sem carro, beber e voltar a qualquer hora com o mínimo de segurança. Em 10 minutos, por um euro, vamos a um lugar muito longe, se quisermos. Há metrô, ônibus, etc. Muitas pessoas usam pequenas motocicletas. De dia, também, anda-se muito com bicicletas. Alem de tudo, pode-se caminhar sempre. Caminhamos sempre olhando para o alto. Barcelona, 16 de julho. 9, Na segunda semana em uma cidade estrangeira a vida começa a criar uma rotina. Parece que o mais importante não é a cidade em si, mas o fato de ser estrangeira. Alguns lugares se tornam conhecidos, os trajetos se repetem. Hoje tive uma sensação de pressa, algo impensável na primeira semana. Outra coisa impensável para a primeira semana e que começo a fazer depois do primeiro impacto: olhar para o chão. Passei os últimos dias lendo os principais críticos de Brossa. Grande parte deles parecem se inserir dentro de uma rígida tradição hermenêutica, dando ênfase maior para interpretações – muitas vezes políticas - do que necessariamente para análise de procedimento. Talvez exista uma armadilha nisso: se, por um lado, Brossa suspende a função dos objetos – uma de suas características mais fortes, certamente - por outro lado, então, grande parte destas leituras recolocam sua obra dentro de uma função marcadamente política. ... No final de tarde fui na conferência de um amigo de L., Herman Bashiron, no auditório do MNAC – conferência que fazia parte do ciclo de reflexões em torno da exposição de Duchamp, Man Ray e Picabia. Destaco dois temas da palestra: a relação entre Picabia e o carro (coche, em espanhol), que Herman alongou para relacionar com sua pintura, por exemplo – sugerindo relações entre a roda, o volante e as formas circulares, recorrentes na obra de Picabia (parece que Picabia chegou a ter dezenas de carros diferentes); e a cidade na obra do compositor italiano Luigi Russolo – compositor que parece antecipar muitas questões da musica no século XX, sobretudo o ruído - principalmente porque ainda não o conhecia. Uma frase de Picabia: "Nossa cabeça é redonda para permitir mudar de direção" Depois fomos celebrar a conferência conhecendo três bares em Barcelona que ainda não conhecia. O nome da cerveja popular daqui é Estrella. Barcelona, 17 de julho. 10, Hoje não fui na Fundação. Fiquei lendo Ponge, pela manhã, para tentar refrescar um pouco as coisas que venho pensando sobre Brossa. Depois, passei toda a tarde visitando três exposições. Em duas delas, havia trabalhos de Brossa. Na verdade, aconteceu algo que considero um pouco engraçado e que ilustra um pouco o excesso de opções culturais de Barcelona. A idéia era ver a exposição do MACBA, mas antes passamos em uma sala ao lado – que foi uma capela - antes de entrar na exposição nobre do Museu. Soube então que ali era o lugar para expor a coleção através de pequenas mostras. Nesta exposição "menor", havia coisas como Richard Serra e Donald Judd. Era gratuito. Vi toda exposição e já estaria contente por uma semana, mas quando saímos desta sala demos de cara com outra, de livros. Não sabíamos o que era. Entramos. Também era gratuito. Tratava-se de uma exposição feita para a última Feira de Livros de Frankfurt – que homenageou os escritores da Catalunha, algo assim – e ali havia coisas como Tapiès, Brossa, Ponç, Miró. Passei mais de 1 hora, pelo menos. Filmei algumas coisas, fotografei outras. O lindo livro Carrer de Wagner, com textos de Brossa e pinturas de Tapiès, estava ali. Na verdade, muitas coisas estavam ali. A única tristeza foi a vontade frustrada de comprar o catálogo, que estava um pouco caro. Então fomos para o MACBA, mas no caminho, mais uma vez – acho que era no hall da biblioteca - havia uma exposição pouco visitada, que propõe relações entre música e artes visuais. Vi também que havia um texto de Brossa – lembro que Brossa escreveu uma série de textos que chamou de Ações musicais. Entrei. Também era gratuito. Tratava-se de uma exposição experimental de música, La vida de la partitura. Ali havia coisas como John Cage e Yoko Ono, por exemplo. E outros compositores que não conhecia. E havia o trabalho de uma artista catalã, Eugènia Balcells, que chamou minha atenção. A artista filmou pássaros voando e inseriu as cinco linhas de uma pauta no vídeo. Não cheguei a ver a exposição toda. Estava cansado. Acabei não vendo o MACBA. Aliás, há uma série de exposições obrigatórias que ainda nem passei perto. Alguém um dia me disse que na lápide de um grande pintor – que também não lembro qual - estava escrito: "não deu tempo". Um dos lugares mais românticos de Barcelona: os caminhos em torno da Catedral, a parte romana de Barcelona, entre grandes muralhas e pequenos desvios. Em alguns pontos, sempre há músicos populares de excelente qualidade. Hoje, pela noite, enquanto caminhava para a Plaza del Rei para ver o show da impressionante e novíssima cantora espanhola La Shica, na programação do já comentado Festival Grec – La Shica faz uma mistura maluca entre flamenco e hip-hop e funk - havia um sanfoneiro, sozinho, meio no escuro, tocando uma linda música tradicional que se espalhava entre os ruídos da noite de Barcelona. Barcelona, 18 de julho. 11, Em Barcelona, as máquinas de Xerox, a Internet e o Power Point também não funcionam às vezes. Pensei que isto fosse exclusividade da periferia, mas não. Em Barcelona também há exposições duvidosas, há gente chata, etc. Em Barcelona, as pessoas não sabem dançar. Hoje foi a primeira vez que saí para dançar aqui. Fomos em um lugar chamado Pueblo Español, que é uma espécie de miniatura da Espanha. Fica no bairro de Montjuïc, um dos meus preferidos. Foi construída com objetivos basicamente turísticos. Em cada parte da vila, há uma pequena representação de alguma parte da Espanha. Dentro do Pueblo, há o La terraza, lugar com uma festa bem amena de musica eletrônica também amena onde as pessoas não sabem dançar muito bem. A cerveja lá custa a pechincha de 6 euros. Sorte que já cheguei mais ou menos embalado. Bebe-se bastante por aqui. Barcelona, 19 de julho.
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