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Florianópolis, 03 de Agosto de 2008

DIÁRIO DE BARCELONA III
Por: Victor da Rosa 

12,
Domingo é dia de cinema por aqui. O bom disso é que antes do filme sempre encontro alguns amigos de L. no bar do argentino – há muitos argentinos por aqui, já conheci vários – e a conversa é sempre divertida. Hoje, por exemplo, descobri algo bem curioso sobre a Sagrada Família, uma das maiores obras de Gaudí (a maior em altura) – e o curioso levou a algo bastante engraçado. Explico, mas talvez nem seja novidade para todos: a Sagrada Família é uma obra que não foi terminada, pois aconteceram vários imprevistos e problemas financeiros enquanto Gaudí vivia – e mesmo depois de sua morte (dizem que foi atropelado por um trem!, mas não fui checar a verdade do fato) a obra ainda está em construção. Dizem que o inacabado virou o charme e também atração turística, e faz tempo que a obra não anda com rapidez porque não querem acabar nunca. Esta é a curiosidade. Agora vem a parte engraçada: o arquiteto francês Jean Nouvel, provavelmente em um gesto de provocação, construiu a Torre Agbar, que é um grande prédio em forma de pênis, um pouco maior do que a Sagrada Família e mais ou menos perto – e agora parece que os responsáveis pela construção de Gaudí querem aumentar uma das torres para ficar maior que o pintão. Virou uma excelente disputa para ver quem é maior: a torre da Sagrada Família ou o pintão do Jean Nouvel.
Barcelona, 20 de julho.
 
13,
O bairro Gótico é um dos lugares onde mais gosto de caminhar. É cheio de pequenas entradas e saídas, ruas sem nome, lugares estreitos – e com uma arquitetura escura e imponente. Ao mesmo tempo, é no bairro Gótico que se encontra grande parte da Barcelona romana. Creio que seja o lugar onde tenha mais construções de grande valor histórico. Comento do Gótico porque hoje L. fez aniversário e fomos jantar – com todos os seus amigos – em um restaurante por lá. E então pude caminhar mais uma vez pelo bairro. Na volta é sempre melhor, porque está tarde e então tudo fica mais vazio e é difícil ter algum lugar vazio em Barcelona, pelo menos nesta época.
Na Fundació, de tarde, encontrei excelente material para análise. Hoje conversei com Lorenzo - Llorenç, em catalão - organizador de todos os manuscritos de Brossa, e nossa conversa foi muito proveitosa. Pude ver alguns manuscritos de rascunhos e também poemas visuais originais. É interessantíssimo perceber a maneira como Brossa aproveitava qualquer papel. Como não tinha dinheiro e só usava lápis, Brossa escrevia em qualquer verso de carta comercial ou calendário velho. Por vezes, estes elementos se confundem com sua poesia. Daí o limite entre arte e vida que já não existe mais. Creio que este é um dos problemas que mais encontra ressonância e força na obra de Brossa: o fim da fronteira entre arte e vida. Já nos poemas originais, que também pude manusear um pouco – e que, claro, eram muito mais cuidadosos e com papéis mais nobres do que os manuscritos de rascunhos – encontrei algo que considero precioso: no título de um dos livros era possível ver que alguma coisa foi apagada. Não farei critica genealógica da obra de Brossa – se algum dia alguém o fizer, creio que enlouquecerá – mas esta escrita apagada e sobreposta é uma aparição de muita valia para minha pesquisa.
Barcelona, 21 de julho.
 
14,
Tive mais uma conversa com Glòria Bordons, na Fundació. Conversamos uns trinta minutos. Disse a ela das leituras que tinha feito e então selecionou os livros mais importantes de poesia do Brossa. Será entre estes livros e alguns manuscritos que ficarei pesquisando durante os dias que ainda me restam por aqui. Glòria ainda me disse de seu primeiro contato com Brossa – uma espécie de "ritual de iniciação", segundo ela. Glòria subiu o elevador de trabalho e, quando chegou no piso onde ficava o estúdio de Brossa, a porta já estava aberta. Brossa, sentado em uma cadeira de balanço, de frente pra sua pequena mesa – que está hoje na Fundació – já esperava. Enquanto Glória caminhava entre os papéis, Brossa dizia para que não tocasse em nada pois tudo estava na mais perfeita ordem. Glória sentou em uma cadeira de balanço furada (era a única que tinha) e teve que se equilibrar na madeira, com a ponta dos pés no chão. A lâmpada que iluminava a mesa de Brossa foi deslocada em direção ao rosto de Glória. Por trás, só uma sombra, um vulto.
De noite abriu uma exposição no segundo piso do CCCB. Estava completamente lotada. Era uma exposição temática da obra e a partir da obra do escritor de ficção científica J. G. Ballard. O CCCB, diferente do MACBA, é um centro de "cultura" contemporânea, e não somente de "arte", então é comum mostras que caminhem assim entre as linguagens. A mostra do andar de cima, que já comentei aqui, é entre fotografia e cinema. E creio que a idéia é sempre mais ou menos esta. Como não conhecia o escritor e não me interesso muito por ficção científica, a mostra não me chamou a atenção. A exposição era muito grande e não olhei toda com calma. Havia uma instalação fortíssima, porém: um carro em ruínas quase todo enterrado com areia, dentro de uma vitrine. Também lembro algumas fotos acumulando inúmeros objetos velhos e destruídos. Estava muito bem montada – parece que esta é uma característica do CCCB: montagem impecável - com algumas soluções criativas para leitura dos textos, mas no geral era todo um clima apocalíptico um pouco déjà vu.
De noite, a amiga italiana da L. propôs fazer uma paella – prato típico espanhol que, basicamente, mistura arroz com frutos do mar. Os convidados contavam em torno de dez. Bem, não deve ser nada simples fazer paella, principalmente para dez pessoas. Aconteceu que a cozinheira iniciou os trabalhos mais ou menos às 19h e o prato ficou pronto quase meia-noite. Como estávamos mortos de fome e a paella estava uma maravilha, creio que para todos foi difícil pra dormir. De minha parte, aproveitei pra fazer uma de minhas atividades preferidas: lavar a louça.
Barcelona, 22 de julho.
 
15,
Em todos os lugares mais turísticos há fila. Nem sempre vou a lugares turísticos – o fato de ter conhecido amigos de L. o conhecimento de lugares menos turísticos – mas não dá pra ignorar as construções de Gaudí, por exemplo. Falo das filas porque hoje, mais uma vez, fui na sala de cinema do castelo de Montjuïc. Esta é uma das melhores idéias que acompanhei por aqui: sala de cinema ao ar livre, em um lugar lindíssimo, com bons filmes e preço acessível – quatro euros, se não me engano. Antes de começar a exibição, sempre tem um grupo de música tocando alguma coisa relacionada ao filme. As pessoas vão chegando – geralmente levam coisas para comer, panos para sentar – e se acomodando. Parece que esta sala só abre em julho. A idéia é simples e o lugar fica completamente lotado. Mais de 1.000 pessoas, certamente. Dizem que chega a 2.000.
Na Fundació, de tarde, quando me viu cansado diante dos livros de Brossa, Pepa passou pela sala onde eu estava e comentou algo rápido, em catalão, algo como "não dá pra apreender tudo em poucos dias, é uma vida inteira", se referindo à obra de Brossa, certamente ...
Barcelona, 23 de julho.
 
16,
O que considero mais interessante no fato de falar uma língua estrangeira é que somos obrigados a abandonar qualquer uso histérico da fala. Pelo menos quando se trata de uma língua estrangeira que não dominamos inteiramente. Somos forçados a construir frases mais sintéticas, com pensamentos precisos, de modo a comunicar com poucas palavras o que queremos dizer. Cada frase é uma surpresa. Porém na medida em que os dias passam e acabamos construindo uma familiaridade maior como o idioma, na medida em que as palavras nos aparecem de modo mais natural, então aos poucos voltamos a ter uma relação histérica com a fala, talvez menos lúdica, mais natural. 
Hoje passei o dia inteiro na Fundació Miró, no bairro de Montjuïc, e foi um dia em que pude ver excelentes exposições em Barcelona. Primeiro, o acervo de Miró – pintor que gosto cada vez mais. Diferente do Museu Dalí, por exemplo, que decepciona um pouco pelo fato de não ter as obras mais importantes de seu artista, a Fundació Miró é representativa. Mostra desde as pinturas iniciais de Miró, quando experimentava gêneros da tradição, até a procura por uma linguagem mais própria e algo que pode ser chamado de maturidade. O acervo mostra com muita clareza este percurso. É curioso que quando Miró se torna um grande pintor, quando sua pintura encontra um ponto máximo de precisão, então passa a fazer esculturas, a usar materiais diferentes, etc. Dizia sempre que seu objetivo era destruir a pintura, mas parece que fazia isto sem agressividade, sem "ressentimento". Brossa costumava dizer que Miró é o pintor dos poetas. E na sala de exposição temporária havia uma série de instalações, esculturas e fotografias de um artista chamado Olafur Eliasson. Se não foi a melhor exposição que pude ver em Barcelona, foi certamente a mais elegante. Os trabalhos de Eliasson são, basicamente, construções com a luz. É uma poética pouco conceitual e muito material, então é difícil descrevê-lo. E, aproveitando a Fundació Miró, fiquei ainda para ver a improvisação de um baterista norueguês chamado Paal Nilssen-Love, que tocou durante mais de uma hora – quase sempre com os olhos fechados - e terminou o concerto tomado de suor. No bis, Paal comentou: "Aqui só pode tocar até às 10h, e faltam 5 minutos para as 10h. Vamos ver o que posso fazer." É curioso, aqui as pessoas não costumam aplaudir qualquer coisa de pé.
Barcelona, 24 de julho.
 
17,
Sérgio Buarque de Holanda, no ensaio Raízes do Brasil, diferencia a colonização espanhola e portuguesa com as metáforas do ladrilhador e do semeador. O semeador é o que joga sementes ao vento, sem muita organização ou compromisso, algo assim. O ladrilhador, ao contrario, que seria o espanhol, teria um senso maior de ordem. Faz tempo que li e só lembro que a idéia geral é esta. Lembrei desta leitura quando fui a Buenos Aires e percebi que o plano urbano da cidade foi feito com uma absoluta precisão, sobretudo no que se refere às quadras. É fácil de se localizar. Aqui em Barcelona tem uma parte da cidade que é toda feita em quadras, porém há grandes avenidas diagonais que criam uma pequena confusão. E tem outra parte, provavelmente a parte romana (ainda não descobri isso com precisão) que é caótica e mais difícil para se localizar, cheio de pequenas ruas e cruzamentos. Praticamente um labirinto, um caminho de ratos. Nesta parte da cidade, por exemplo, há pouco espaço para os carros. Por isto também se caminha tanto nesta cidade. Olho o mapa e é possível facilmente perceber a diferença.
A coleção do MACBA parece uma coleção de causar inveja em qualquer grande Museu de arte contemporânea. Hoje conseguir ir no MACBA com calma. Devo ter passado duas ou três horas vendo duas exposições de artistas contemporâneos, digo, vivos – que nem me impressionou muito (parece que não tive muita sorte com as exposições temporárias dos grandes Museus aqui) – e uma pequena parte da coleção do MACBA, que é finíssima. Gostei muito de ver o escritor-artista francês Henri Michaux, foi uma surpresa – um dos preferidos do meu orientador, Sérgio Medeiros - entre Calder, Vito Acconci, Bruce Nauman, Tàpies e outros do nível. Soube que Cildo Meirelles, Ernesto Neto e Jac Leirner também fazem parte da coleção, mas não estavam expostos. Brossa também. L. me disse que, há uns meses atrás, praticamente toda a coleção estava exposta, no Museu inteiro. Preferiria que tivesse sido assim desta vez.

Barcelona, 25 de julho.

 

 

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