Contém, entre outros elementos: Desenhos, palavras, filmes, Esculturas, animais empalhados, Plantas secas, mímica, Objetos industrializados, Música, luzes, trampolim etc., Tudo inextricavelmente Misturado -- são como as vísceras De um pai monstro. Para apreciá-lo, o público Entrará num elevador panorâmico E subirá e descerá diante do Totem quantas vezes quiser. Não tem restrição de idade. O totem emitirá música, Continuamente: trechos de Prometheus (sonoridades e Luzes coloridas), de Aleksandr Nikolaievich Scriabin, e de Universe Symphonie (música espacial, Para várias orquestras), De Charles Ives. Às vezes, Ambas as composições Soarão juntas. O totem poderá ser exposto Em vários Shopping centers Ao mesmo tempo, em diferentes cidades: Neste caso, suas partes serão Livremente desmembradas, A fim de que ele possa flutuar Em espaços amplos não- Contínuos. O totem também poderá ser exposto Simultaneamente em vários Continentes, desmembrado Ou na totalidade -- neste caso, haverá Várias cópias dele, para atender à demanda. Helicópteros e aviões, especialmente Fretados, poderão circundar o totem, Levando o público (neste caso, pagante). A seguir, o plano do totem Visto de baixo para cima: O leitor deve imaginar que, Ao descer a página, estará na Verdade subindo, dentro de um Elevador panorâmico. Mas ele Também poderá imaginar Que se encontra no topo, nesse Mesmo elevador. Assim ele Verá o totem de cima para baixo. Na realidade, “acima” e “abaixo” São valores relativos, já que o Totem flutua e pode, repentinamente, Virar de ponta cabeça, sem que Ninguém se dê conta disso. luz solta, um pedaço apenas fica firme na grama, na brisa fria que poderia tê-lo arrasta- do (Scriabin) a capa negra, enrugada, é retirada com cuidado e precisão de cima da piscina quente, como a enorme nadadeira de um peixe-boi amazônico que, solícito, se arrastasse para fora da academia de natação (Scriabin) visto de cima o chão cimentado é um céu fechado, cheio de redemoinhos de vento, mas sem urubus ou pedaços de guarda-chuva (Ives) logo cedo o urubu ocupa a luminária pública, grande e fria, ao desalojar a gaivota que desce levando alguma claridade (Scriabin) na entrada do jardim, uma névoa que parece resto de ar paralisado, ar preso a galhos, mas faltam os galhos (Scriabin) uma pedrinha se descasca no vento, sem fim, como cabeça de alho (Ives) a folha que se enrolou no piso está prestes a cair e se balança mais que as outras ao redor, quase impassíveis na manhã gelada (Ives) os abajures acesos surgem como balões e pairam na casa quieta que a ventania circunda (Scriabin) o urubu senta-se na madeira como uma foca numa pedra, sob nuvens baixas -- mas ergue então o peito caído, voando de repente veloz (Ives) quando se balançam debaixo da janela, as folhas longas da bananeira são dorsos de elefantes reunidos em círculo num picadeiro (Ives) pequenos galhos inclinados, nus, entre eles um pássaro vai saltando para cima, de galho em galho, o rabo escuro caído (Ives/Scriabin) no teto a abelha toca a testa na lâmpada quente e gira como um pião, mas não despenca no chão (Ives) é fino o urubu com seu bico fechado sob vasto bigode negro, curvo, as pontas para cima, intacto no vento (Ives/Scriabin) do cano branco lar- gado no sol escorre a sombra escura para o lado, empapando pranchas de madeira (Scriabin) correm atrás uma da outra a folha preta e a amarela, como se o vento dissesse que uma é a sombra da outra (Scriabin) as sombras escuras sobem do gramado, arrastando para cima um plástico fino e claro, que evapora bem amassado (Scriabin) inclinados para a frente na grama, dois holofotes negros de perfil, no fim do dia, são aves mansas que não dão pios (Scriabin) uma tinta branca na grama espessa, à noite, ou pelame eriçado de gato, paralisado de horror (Scriabin) a cerração que volta de madrugada é o pelame de um bicho que o vento estende e acaricia em frente da casa (Scriabin) um imundo carro de mão de madeira com terra e raízes secas e hirtas sai como um caixão aberto do jardim (Ives) no ar (quase) parado a folhagem move-se devagar, como lagartos ao sol, os olhos vidrados (Ives) no ar que circula há folhas duras, quase imóveis, pregadas no chão, entre mangueiras de plástico amolecidas, sem uso (Ives) pedaços de pétalas secas parecem brigar e pular como galos velhos, se lançam do terraço e de repente se aquietam, como penas caídas, sujas, num canto (Ives) o branco brilhante das asas (não se vê a ave) se contorce no ar como saco de plástico desengonçado, depois cai como folha de papel que o vento lançasse para baixo (Scriabin) a folhagem mostra as costas abauladas onde o vento se mete, se esfrega e assopra fortemente (Ives) no ar parado a sombra do arbusto é uma bola redonda, cheia embora perfurada, imóvel na grama (Scriabin) pisca o reflexo do sol no holofote apagado quando todo o jardim se enrijece de frio (Scriabin) como pedras miúdas, como lascas, borboletas se misturam de rastos às folhas (Ives) ramos embaralhados e grama encharcada, madeira leitosa e água opaca, céu baixo, inteiramente varrido, mas não encerado (Ives) atrás dos prédios lavados se levantam pássaros, vapores sempre impuros (Ives) o pássaro escorre no céu, como gota numa garrafa gelada (Ives) o nevoeiro envolve os acidentes geográficos e as beiras da água, a água se vai sem fim (Ives) a água avança e se arrasta nela mesma; acidenta-se (Ives/Scriabin) pétalas emboladas, escuras; esticadas, folhas claras recicladas pelo vento (Scriabin) o pescador encasacado inclina-se estendendo os braços juntos, como um bico de ave -- belisca e puxa fios compridos (Ives) dúzias de taças de cristal deitadas na pia de alumínio, seringas longas sem agulhas, cheias de vapor (Ives) punhados de pássaros, pedrinhas negras lançadas sempre diante de grandes pedras cinza imóveis (Scriabain) o rabo duro é um arame, o focinho menos rosado que uma telha, o gambá cruza a construção impregnado de cimento (Scriabin) os galhos que o homem arranca da árvore baixa voam para os lados mais leves que os urubus que de repente se alçam por sobre o muro de pedra (Ives) entre telhados muito colados, três árvores se debatem juntas, como horro- rizadas, ou tentando saltar abraçadas (Ives) o inseto na sombra voa em pé como um trapezista e pára sentado ao sol (Scriabin) pássaros negros passam em fila rente à água, um pedaço de amurada que se afunda (Scriabin) a gata branca não se levanta do muro de pedra, como se a som- bra da grade eriçada de garras, lançada sobre ela, a retivesse ali, do lado de fora (Scriabin) sob o tumulto do vento, que agita as palmas e os tecidos, as folhas flutuam apenas na água da piscina com tremores ligeiros, entre sombras que fervilham (Ives/ Scriabin) uma semente zanza no terraço, entregue ao vento, como olho claro, eriçado de cílios longos e brancos, muito velho e insistente (Ives/Scriabin) cortando a grama, num tipo de balé ensurdecedor, o velho parece novo demais, a vasta cabeleira negra já estaria rala e branca (Ives/Scriabin) o jardineiro desce a escada trazendo para baixo um longo corrimão mole e podre, que lhe ficou nas mãos, um ramo seco (Ives) sob o plástico estendido no chão o vento é assustadoramente um corpanzil que estremece (Ives) na tv, em grande escala, a mosca bate palmas e, frenética, esfrega as patas, sem juntá-las, calma (Ives) a formiga leva a abelha morta tão fácil como um balão de festa (Ives) o bambuzal, ducha ligada antes do temporal (Ives/Scriabin) o moto- rista uniformizado abraça as folhas largas e as lança na rua num container, como se se livrasse de extravagante fantasia de carnaval (Ives) o pó cresceu feito bola e se descamou, perdeu a pele, o recheio e se tornou puro ar (Scriabin) um pássaro se enroscou como parafuso na nuvem, mas outros dois partiram velozes por baixo (Ives) no alto da construção, homens de camisas vermelhas, idênticas, passam de costas vagarosos, como balões entre a folhagem (Scriabin) a maçaneta brilhante voa na porta branca como uma asa e, não havendo vento, pousa na própria sombra (Scriabin) só telhas velhas, como unhas arrancadas, inteiras, quebradas, com pedaços de luvas negras, úmidas (Scriabin) de chapéu carnavalesco que brilha no sol, o jardineiro marcha levando estrelas secas, que arrancou das hastes firmes do jardim (Scriabin) um ônibus para- do no sinal lança seu reflexo amarelo trêmulo sob a roda de um veículo pequeno, que também fica trêmulo (Ives/Scriabin) o tucano de louça, bojudo, olha para cima, o bico quase dentro do abajur, como se apreciasse a lâmpada guarda- da dentro, amarela (Scriabin) uma mesinha de madeira sob outra, suas pernas se embaralham, uma mesma aranha, prestes a se mover no corredor (Ives) um cesto ainda vazio nas costas do aprendiz de jardineiro que, por ora, circula apenas sob os ramos (Ives) folhas de tangerinas maduras caem no assoalho da cozinha, sob o súbito rumor do ar ligado (Ives) sem pro- testo, o pássaro é levado pelo ar, erguido como um bebê pelos braços (Ives) quando move as asas, é um pássaro montado errado, depois, quando plana, tem as peças todas no lugar, na tarde cheia de palmas ativas sob sua sombra (Ives) cheio de ar ou firme como garrafão, o saco de plástico se ergue do chão e corre em círculos, rechonchudo e afoito, como um menino (Ives) apenas um resto de bolo escuro numa bandeja de vidro; o formigueiro espalha no holofote redondo, no chão, farelos úmidos (Scriabin) entre sombras paradas, longas, uma se mexe suave, a palma que vem ao chão (Scriabin) plantações (....................................... ........................................ ........................................ ........................................ ........................................ ........................................ ........................................ ........................................ ...)* (Ives) do brilho intenso que rápido se espalha o barco não prova a agita- cão; acolhe apenas re- flexos no seu casco, que se desloca moroso (Scriabin) as folhas secas diminutas se amontoam, como o avesso escuro e enrugado de um órgão que antes pulsava, a cor- rer (Scriabin) (Ives) (Ives) (Scriabin) (Ives) (Scriabin) (Ives/Scriabin) (Ives/Scriabin) (Ives/Ives) (Scriabin/Scriabin) (Ives/Scriabin/Scriabin/Ives) duas pulseiras de cimento aguardam na rua os braços que virão arrastá-las (Ives) branco e seco, o chuveiro se curva sobre o arbusto verde, que explode como um jorro (Scriabin) o inseto corre para as extremidades da vidraça, como se buscasse o corrimão que fizesse mais fácil a sua escalada até o teto (Ives) com orelhas pá- lidas e focinho podre, um tronco seco cheira as flores roxas do quintal vizinho (Scriabin) atrás da folhagem passam corpos que parecem grandiosos; vê-se a seguir, num recanto desbastado, que são mulheres pequenas, friorentas, caminhando diante do mar de casacos e calças compridas justas (Ives) o pássaro passeia no ramo seco, misturando sua cauda pequena com outra, longa, de uma pandorga (Ives) girando como pião, a folha desce com velocidade e senso de direção, enquanto as borboletas se extraviam (Ives) como um golfinho branco, a meia-lua salta entre nuvens que se afastam (Scriabin) as pernas longas se multiplicam, mas o inseto, ao caminhar, arrasta-se, como preso em rede de fios finos (Ives) a folha dobra e conta seus quatro dedos, sobra apenas um, o mais amarelo, no vento (Scriabin) como bolhas, as luzes vão estourando atrás dos arbustos negros (Scriabin) enquanto chove, as folhas duras pulam elétricas nos galhos, como pássaros molhados (Ives) o senhor que ouviu o alarme soar repetidas vezes, falseando intrusos, percebe rápidas manchas que passam no pátio como roupas ou que assomam às pedras como cabeças (Ives/Scriabin) a taça imprime na madeira uma lua úmida que já se vai apagando (Scriabin) depois de comer toda a escrita, a borracha abandona no papel vermes roliços (Ives) uma caixa d’água monumental e vazia, no chão, como o pulmão de um animal extinto; colocam-na no alto de outro corpo, duro e firme nas quatro patas (Ives) a caixa d’água, um pescoço cinza entre duras lapelas de tijolo, no alto da nova torre; os cabelos escorrem, porque chove incessantemente (Scriabin) a água se estira na luz e a luz na água, ambas se grudam, papel e goma arábica (Scriabin) na água a luz se enrola rápido e fica reduzida a um fio solto (Scriabin) banco baixo (caixa de instrumento musical); peça de roupa, acessórios deixados em cima: a luva nunca alcança o chapéu (corpo adormecido) (Ives) um lagarto (olho saltado: bombom branco com círculos de chocolate) estende a língua rubra por cima da cerca baixa: a extremidade dobrada (Scriabin) o menino na vitrine veste uma barriga para fora da roupa; seus olhos, embora abertos, ainda não foram implantados no lugar (Ives) uma pedra polida com óculos por cima -- o telefone (Ives) perfis muito retos enganam: toda a cabeça parece imensa orelha, de onde o corpo pende (Ives) a flâmula empoeirada que, no corredor escuro, se enrola no peito de quem estiver passando é da lua, que a leva embora (Scriabin) voando com as asas imóveis o pássaro quer pedir calma às águas da enseada (Ives) com a asa torcida e o bico fechado, a folha rija descansa na laje enrugada (Ives) a pessoa, aturdida e enfastiada com tudo, irritada e magoada, foge como se realmente a sua rua e a sua cidade estivessem sendo invadidas (Ives) um homem diante de um prato de sopa levanta-se para afugentar uma gata no cio; depois ele se senta de novo diante da sopa, que esfria infinitamente; então o homem se levanta para espantar outra gata no cio (Ives) vista através de uns ferros cruzados, a lua, embora no céu, parece na água, com variações de peixe no contorno, só aparentemente definido (Scriabin) o capim curto que se balança sobre a água é a luz, entre áreas limpas espalha- das aqui e ali (Scriabin) como um monstro a abocanhar as presas, a ilha eriçada e escura se assenta entre pedras alvas (Ives) a água em cima da passarela de madeira esguicha como um arbusto crescido e se firma no ar, mas suas folhas, seus galhos caem imediatamente e são substituídos febrilmente por outros (há bambus que crescem mais de um metro por dia), graças a um motor barulhento, oculto sob ramos calmos (Ives) (*) Estas frases, em razão da letra ilegível, não puderam ser reconstituídas pelo autor, que sempre redige seus textos à mão. Sérgio Medeiros é autor de dois livros de poesia: Alongamento (Ateliê, 2004) e Mais ou menos do que dois (Iluminuras, 2001). O poema acima faz parte do livro inédito Mais longo que o rio Apa. |