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RETRATO TOTÊMICO DE CLAUDE LÉVI-STRAUSS
Por: Sérgio Medeiros

Contém, entre outros elementos:
Desenhos, palavras, filmes,
Esculturas, animais empalhados,
Plantas secas, mímica,
Objetos industrializados,
Música, luzes, trampolim etc.,
Tudo inextricavelmente
Misturado -- são como as vísceras
De um pai monstro.

Para apreciá-lo, o público
Entrará num elevador panorâmico
E subirá e descerá diante do
Totem quantas vezes quiser.

Não tem restrição de idade.

O totem emitirá música,
Continuamente: trechos de Prometheus (sonoridades e
Luzes coloridas), de Aleksandr
Nikolaievich Scriabin, e de Universe 
Symphonie  (música espacial,
Para várias orquestras),
De Charles Ives. Às vezes,
Ambas as composições
Soarão juntas.

O totem poderá ser exposto
Em vários Shopping centers
Ao mesmo tempo, em diferentes cidades:
Neste caso, suas partes serão
Livremente desmembradas,
A fim de que ele possa flutuar
Em espaços amplos não-
Contínuos.

O totem também poderá ser exposto
Simultaneamente em vários
Continentes, desmembrado
Ou na totalidade -- neste caso, haverá
Várias cópias dele, para atender à demanda.
Helicópteros e aviões, especialmente
Fretados, poderão circundar o totem,
Levando o público (neste caso, pagante).

A seguir, o plano do totem
Visto de baixo para cima:
O leitor deve imaginar que,
Ao descer a página, estará na
Verdade subindo, dentro de um
Elevador panorâmico. Mas ele
Também poderá imaginar
Que se encontra no topo, nesse
Mesmo elevador. Assim ele
Verá o totem de cima para baixo.
Na realidade, “acima” e “abaixo”
São valores relativos, já que o
Totem flutua e pode, repentinamente,
Virar de ponta cabeça, sem que
Ninguém se dê conta disso.

luz solta,
um pedaço apenas
fica firme na grama,
na brisa fria
que poderia tê-lo arrasta-
do (Scriabin)
a
capa
negra,
enrugada,
é
retirada
com
cuidado
e
precisão
de
cima
da
piscina
quente,
como
a
enorme
nadadeira
de
um
peixe-boi
amazônico
que,
solícito,
se
arrastasse
para
fora
da
academia
de
natação
(Scriabin)
visto de cima o chão cimentado
é um céu fechado,
cheio de redemoinhos de vento,
mas sem urubus ou pedaços
de guarda-chuva (Ives)
logo cedo o urubu
ocupa a luminária pública,
grande e fria, ao desalojar
a gaivota que desce levando
alguma claridade (Scriabin)
na entrada do jardim,
uma névoa que parece
resto de ar paralisado,
ar preso a galhos,
mas faltam os galhos 
(Scriabin) uma pedrinha
se descasca no vento, sem fim, como
cabeça de alho (Ives) a folha
que se enrolou no piso
está prestes a cair e se balança
mais que as outras ao redor,
quase impassíveis na manhã
gelada (Ives) os abajures acesos
surgem como balões e
pairam na casa quieta que a
ventania circunda (Scriabin)
o urubu senta-se na madeira
como uma foca numa pedra, sob
nuvens baixas -- mas ergue então
o peito caído, voando de repente
veloz (Ives) quando se balançam
debaixo da janela, as folhas longas da
bananeira são dorsos de elefantes
reunidos em círculo num picadeiro (Ives)
pequenos galhos inclinados,
nus, entre eles um pássaro vai
saltando para cima, de galho
em galho, o rabo escuro caído (Ives/Scriabin)
no teto a abelha toca a testa
na lâmpada quente e gira como um pião,
mas não despenca no chão (Ives)
é fino o urubu com seu bico fechado
sob vasto bigode negro, curvo,
as pontas para cima, intacto no
vento (Ives/Scriabin) do cano branco lar-
gado no sol escorre a sombra
escura para o lado, empapando
pranchas de madeira (Scriabin)
correm atrás uma da outra
a folha preta e a amarela, como se o
vento dissesse que uma é a
sombra da outra (Scriabin) as
sombras escuras sobem
do gramado, arrastando para
cima um plástico fino e claro,
que evapora bem amassado (Scriabin)
inclinados para a frente na
grama, dois holofotes negros
de perfil, no fim do dia, são
aves mansas que não dão pios (Scriabin)
uma tinta branca na grama espessa,
à noite, ou pelame eriçado
de gato, paralisado de horror
(Scriabin) a cerração que volta de
madrugada é o pelame de
um bicho que o vento
estende e acaricia em frente da casa
(Scriabin) um imundo carro de mão
de madeira com terra e raízes
secas e hirtas sai como um caixão
aberto do jardim (Ives) no ar
(quase) parado a folhagem
move-se devagar, como lagartos
ao sol, os olhos vidrados
(Ives) no ar que circula há folhas
duras, quase imóveis, pregadas
no chão, entre mangueiras de
plástico amolecidas, sem uso (Ives)
pedaços de pétalas secas parecem
brigar e pular como galos velhos,
se lançam do terraço e de repente
se aquietam, como penas
caídas, sujas, num canto (Ives) o 
branco brilhante das asas (não se
vê a ave) se contorce no ar como saco
de plástico desengonçado, depois
cai como folha de papel que o vento
lançasse para baixo (Scriabin) a
folhagem mostra as costas abauladas
onde o vento se mete,
se esfrega e assopra fortemente
(Ives) no ar parado a sombra
do arbusto é uma bola redonda,
cheia embora perfurada,
imóvel na grama (Scriabin) pisca
o reflexo do sol no holofote
apagado quando todo o jardim
se enrijece de frio (Scriabin)
como pedras miúdas, como lascas,
borboletas se misturam de rastos
às folhas (Ives) ramos 
embaralhados e grama encharcada,
madeira leitosa e água opaca, céu
baixo, inteiramente varrido,
mas não encerado (Ives) atrás
dos prédios lavados se levantam pássaros,
vapores sempre impuros (Ives)
o pássaro escorre no céu,
como gota numa garrafa gelada
(Ives) o nevoeiro envolve
os acidentes geográficos
e as beiras da água,
a água se vai sem fim
(Ives) a água avança e
se arrasta nela mesma; 
acidenta-se 
(Ives/Scriabin) pétalas
emboladas, escuras; esticadas,
folhas claras
recicladas pelo vento 
(Scriabin) o pescador encasacado
inclina-se estendendo
os braços juntos, como um bico
de ave -- belisca e puxa fios
compridos (Ives) dúzias de taças
de cristal deitadas na pia de alumínio,
seringas longas sem agulhas, cheias
de vapor (Ives) punhados de pássaros,
pedrinhas negras lançadas sempre diante
de grandes pedras cinza imóveis
(Scriabain) o rabo duro é um
arame, o focinho menos rosado
que uma telha, o gambá cruza
a construção impregnado de
cimento (Scriabin) os galhos
que o homem arranca da árvore
baixa voam para os lados
mais leves que os urubus que
de repente se alçam por sobre o muro
de pedra (Ives) entre telhados
muito colados, três árvores
se debatem juntas, como horro-
rizadas, ou tentando saltar
abraçadas (Ives) o inseto
na sombra voa em pé
como um trapezista e pára
sentado ao sol (Scriabin)
pássaros
negros
passam
em
fila
rente
à
água,
um
pedaço
de
amurada
que
se
afunda
(Scriabin)
a gata branca não se levanta
do muro de pedra, como se a som-
bra da grade eriçada de garras,
lançada sobre ela,
a retivesse ali, do lado
de fora (Scriabin) sob o
tumulto do vento, que agita
as palmas e os tecidos, as
folhas flutuam apenas
na água da piscina
com tremores ligeiros, entre
sombras que fervilham (Ives/
Scriabin) uma semente zanza
no terraço, entregue ao
vento, como olho claro,
eriçado de cílios longos
e brancos, muito velho e
insistente (Ives/Scriabin)
cortando a grama, num tipo
de balé ensurdecedor, o
velho parece novo demais,
a vasta cabeleira negra
já estaria rala e branca
(Ives/Scriabin) o jardineiro
desce a escada trazendo
para baixo um longo
corrimão mole e
podre, que lhe ficou 
nas mãos, um ramo seco (Ives)
sob o plástico estendido
no chão o vento é
assustadoramente um corpanzil que
estremece
(Ives) na tv, em grande
escala, a mosca
bate palmas e, frenética,
esfrega as patas, 
sem juntá-las, 
calma (Ives) a formiga
leva a abelha morta
tão fácil como
um balão de festa
(Ives) o bambuzal, ducha
ligada antes do temporal
(Ives/Scriabin) o moto-
rista uniformizado abraça
as folhas largas e as lança
na rua num container,
como se se livrasse de
extravagante fantasia
de carnaval (Ives) o
pó cresceu feito bola e se 
descamou, perdeu
a pele, o recheio e
se tornou puro ar (Scriabin)
um pássaro se enroscou como
parafuso na nuvem, mas outros
dois partiram velozes por
baixo (Ives) no alto da
construção, homens de
camisas vermelhas,
idênticas, passam de
costas vagarosos, como balões entre
a folhagem (Scriabin) a
maçaneta brilhante voa
na porta branca como
uma asa e, não havendo
vento, pousa na própria
sombra (Scriabin) só telhas
velhas, como unhas arrancadas,
inteiras, quebradas, com
pedaços de luvas negras,
úmidas (Scriabin) de
chapéu carnavalesco
que brilha no sol, o
jardineiro marcha levando
estrelas secas, que arrancou
das hastes firmes do jardim
(Scriabin) um ônibus para-
do no sinal lança seu
reflexo amarelo trêmulo
sob a roda de um veículo
pequeno, que também fica
trêmulo (Ives/Scriabin)
o tucano de louça,
bojudo, olha para cima,
o bico quase dentro
do abajur, como se
apreciasse a lâmpada guarda-
da dentro, amarela
(Scriabin) uma mesinha
de madeira sob outra, suas
pernas se embaralham, uma
mesma aranha, prestes a se
mover no corredor (Ives)
um cesto ainda vazio
nas costas do aprendiz de
jardineiro que, por ora,
circula apenas sob os
ramos (Ives) folhas
de tangerinas maduras
caem no assoalho
da cozinha, sob o súbito rumor 
do ar ligado (Ives) sem pro-
testo, o pássaro é levado
pelo ar, erguido
como um
bebê pelos braços (Ives)  
quando move as asas,
é um pássaro montado
errado, depois, quando
plana, tem as peças todas
no lugar, na tarde cheia de
palmas ativas sob
sua sombra (Ives) cheio de ar
ou firme como garrafão,
o saco de plástico se
ergue do chão e corre em
círculos, rechonchudo e afoito,
como um menino (Ives)
apenas um resto de bolo
escuro numa bandeja de
vidro; o formigueiro
espalha no holofote
redondo, no chão,
farelos úmidos (Scriabin)
entre sombras paradas,
longas, uma se mexe
suave, a palma que vem ao chão
(Scriabin) plantações
(.......................................
........................................
........................................
........................................
........................................
........................................
........................................
........................................
...)* (Ives) do brilho intenso
que rápido se espalha
o barco não prova
a agita-
cão; acolhe apenas re-
flexos no seu casco,
que se desloca moroso
(Scriabin) as folhas secas
diminutas se amontoam,
como o avesso escuro e
enrugado de um órgão
que antes pulsava,  a cor-
rer (Scriabin) (Ives) (Ives)
(Scriabin) (Ives) (Scriabin)
(Ives/Scriabin) (Ives/Scriabin)
(Ives/Ives) (Scriabin/Scriabin)
(Ives/Scriabin/Scriabin/Ives)
duas pulseiras de cimento
aguardam na rua os braços
que virão arrastá-las (Ives)
branco e seco, o chuveiro se
curva sobre o arbusto verde,
que explode como um jorro
(Scriabin) o inseto corre
para as extremidades
da vidraça, como se buscasse
o corrimão que fizesse
mais fácil a sua escalada até o
teto (Ives) com orelhas pá-
lidas e focinho podre, um tronco
seco cheira as flores roxas
do quintal vizinho (Scriabin)
atrás
da
folhagem
passam
corpos
que
parecem
grandiosos;
vê-se
a seguir,
num
recanto
desbastado,
que
são
mulheres
pequenas,
friorentas,
caminhando
diante
do
mar
de
casacos
e
calças
compridas
justas
(Ives)
o pássaro passeia no ramo
seco, misturando sua cauda
pequena com outra, longa,
de uma pandorga (Ives)
girando como pião, a folha
desce com velocidade e
senso de direção, enquanto
as borboletas se extraviam
(Ives) como um golfinho
branco, a meia-lua salta
entre nuvens que se afastam
(Scriabin) as pernas longas se
multiplicam, mas o inseto,
ao caminhar, arrasta-se,
como preso em rede de
fios finos (Ives) a folha dobra e conta
seus quatro dedos, sobra apenas um,
o mais amarelo, no vento (Scriabin)
como bolhas, as luzes vão estourando
atrás dos arbustos negros (Scriabin)
enquanto chove, as folhas duras pulam
elétricas nos galhos, como pássaros
molhados (Ives) o senhor que ouviu o
alarme soar repetidas vezes, falseando intrusos,
percebe rápidas manchas que passam no pátio como
roupas ou que assomam às pedras como 
cabeças (Ives/Scriabin) a taça imprime na madeira
uma lua úmida que já se vai apagando (Scriabin)
depois de comer toda a escrita, a borracha
abandona no papel vermes
roliços (Ives) uma caixa d’água monumental
e vazia, no chão, como o pulmão de um animal
extinto; colocam-na no alto de outro corpo, duro e
firme nas quatro patas (Ives)
a caixa d’água, um pescoço cinza
entre duras lapelas de tijolo,
no alto da nova torre; os cabelos escorrem,
porque chove incessantemente (Scriabin) a água se
estira na luz e a luz na água, ambas se
grudam, papel e goma arábica
(Scriabin) na água a luz se enrola rápido e
fica reduzida a um fio solto (Scriabin)
banco baixo (caixa de instrumento musical);
peça de roupa, acessórios
deixados em cima: a luva nunca alcança
o chapéu (corpo adormecido) (Ives)
um lagarto (olho saltado: bombom branco com
círculos de chocolate) estende a língua
rubra por cima da cerca baixa: a extremidade
dobrada (Scriabin) o menino na vitrine veste
uma barriga para fora da roupa; seus olhos, embora
abertos, ainda não foram implantados no lugar
(Ives) uma pedra polida com óculos por cima --
o telefone (Ives) perfis muito retos enganam: toda a  
cabeça parece imensa orelha, de onde o corpo pende (Ives)
a flâmula empoeirada que, no corredor escuro, se enrola no
peito de quem estiver passando é da lua, que a leva embora (Scriabin)
voando com as asas imóveis o pássaro
quer pedir calma às águas da enseada (Ives)
com a asa torcida e o bico fechado, a
folha rija descansa na laje enrugada (Ives)
a pessoa, aturdida e enfastiada com tudo,
irritada e magoada, foge como se realmente a sua rua e
a sua cidade estivessem sendo invadidas (Ives)
um homem diante de um prato de sopa
levanta-se para afugentar uma gata no cio; depois ele se
senta de novo diante da sopa, que esfria infinitamente; então o
homem se levanta para espantar outra gata no cio
(Ives) vista através de uns ferros cruzados,
a lua, embora no céu, parece na água, com variações
de peixe no contorno, só aparentemente definido
(Scriabin) o capim curto que se balança
sobre a água é a luz, entre áreas limpas espalha-
das aqui e ali (Scriabin) como um monstro a abocanhar as
presas, a ilha eriçada e escura se assenta entre
pedras alvas (Ives)
a
água
em
cima
da
passarela
de
madeira
esguicha 
como
um
arbusto
crescido
e se
firma
no
ar,
mas
suas
folhas,
seus
galhos
caem
imediatamente
e são
substituídos
febrilmente
por
outros
(há
bambus
que
crescem
mais
de
um
metro
por
dia),
graças
a
um
motor
barulhento,
oculto
sob
ramos
calmos
(Ives)

(*) Estas frases, em razão da letra ilegível, não puderam ser reconstituídas pelo autor, que sempre redige seus textos à mão.

Sérgio Medeiros é autor de dois livros de poesia: Alongamento (Ateliê, 2004) e Mais ou menos do que dois (Iluminuras, 2001). O poema acima faz parte do livro inédito Mais longo que o rio Apa.

 

 

 

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