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Florianópolis, 08 de Junho de 2008 METEOROS MECÂNICOS Por: Sérgio Medeiros M E T E O R O S M E C Â N I C O S T O T E M & S A C R I F Í C I O (Poemas ou prosas) In the sum of the parts, there are only the parts Wallace Stevens Prefácio, 5 Sob(re) meteoros mecânicos, 6 O estio, 22 Um bestiário indígena, 23 A agonia de Machado de Assis, 31 A casa da cicuta e do pavão, 44 Cemitérios femininos, 49 O jardineiro do hotel colhe múmias, estátuas e souvenirs, 52 O esqueleto de Diego Rivera / de Oswald de Andrade, 68 Platão ou o diálogo póstumo de Sócrates, 72 O inumano (Epílogo), 73 Nota, 82 TOTEM & SACRIFÍCIO, 83 Como comprida assombração, caiu um meteoro atrás dos pinheiros do jardim (...) Descrevo a seguir o que vi então e depois, na ilha em que passamos o verão prolongado * * * Não estávamos sós: cruzamos nitidamente com animais e crianças o pó plana sobre o Continente; mas, nas ilhas, caem pedaços grandes e claros (...) há luzes piscando no alto das antenas e escorrendo por elas, como gotas de chuva (...) na água salgada reflexos jorram como sementes ensandecidas -- o fruto é cortado ao meio (...) a onda se achega mansa aos jogadores recostados, como grande bandeira no chão (...) um plástico sujo recobre o monte de areia como carapaça dura; as patas, tijolos imóveis, puxam para baixo as pontas negras (...) junto ao charco, cadeiras brancas de plástico, viradas para cima, brilhando atrás do capinzal, como costelas de paquiderme (seus ossos ainda cobertos de pêlos longos) (...) na parede, sobre a porta, num nicho recente, pas- sam canos e fios finos, pernas empoeiradas, fechadas, e entranhas emaranhadas, furta-cores, fora da roupa rota se enleiam no operário, que balança a cabeça e, uma vez, semicerrando os olhos, volta-se para cima, as mãos caídas (***) dois aviões se vão afastados, atrás um do outro, sobre a enseada, e a embarcação, que parecia una, se divide, a escuna e o barco seguem separados para os montes (***) a baía, quadro negro deitado no chão, o giz úmido se esfacela sem prolongar o traço de latas abertas, secas -- suas folhas iguais, fundos redon- dos limpos, sem restos de conserva, caldas, graxas (...) folhas gelatinosas imensas, ainda unidas, o salpicado teto transparente da casa; vem para a rua depois o grande toldo branco, carregado aberto, sujo, como a lâmina de uma faca sem cabo (...) a geléia consistente de areia branca, ao abrir-se a carroceria, é lançada logo fora, esfarela-se, como um bolo seco (...) a abóbora de plástico, na grama rala, tem um fio de cabelo penteado, alça negra levantada (...) a mulher obesa leva uma cadeira branca no braço / ou traz apenas o esqueleto nu de sua enorme bolsa (...) uma bóia lilás na areia branca, límpida (...) a menina arrasta na areia um saco sujo, sortido de latinhas (...) a sombra queimada é leve na grama verde e redonda como um prato, e fica às moscas, à tarde (...) raspa-se a areia, fina, espalhada nas lajotas molhadas (há uma Via Láctea em cada uma, gravada), e enche-se com essa areia um prato negro, e vacila-se, momentaneamente, sem saber aonde levá-lo de dentes, pequena múmia de cabelos azuis eriçados, imersa na piscina (***) sobe da água a lagarta de gomos coloridos, içada por um barco; paira (...) (...) (...) (...) inchada, cérebro sobre a enseada; o turista pendurado, gosma (***) caída nas lajotas, atrás do carro imóvel, uma palma cor de melado, como dois fêmures de múmia unidos e longa espinha que apenas se adivinha entre as rodas inteiro no chão: num canto, pano embolado, um monte (...) na vidraça, manchas secas e esbranquiçadas, entrelaçadas, uma esponja que se esfrega na cidade (árvores escuras, cortinas de fumaça) (...) numa névoa de demolição, um guarda-sol verde-abacate diante da água que nuvens obscurecem, lavando-se apáticas (...) a pá atira para baixo punhados de pedras (sobre as abas caídas da carroceria), cubos pesados, amontoados, ao redor um vapor espesso (...) na areia fina, uma coluna lança sua sombra sobre linhas esticadas, o martelo aperta pedras de três cores que lentas se vão juntando, como se boiassem em água parada (...) a água estremece, os re- flexos do teto, verticais, são espátulas longas; linhas movem-se deitadas como se quisessem (necessitassem) se estirar mais no fundo da água; e nada, absoluta- mente, flutua na superfície indócil e translúcida; atrás da vidraça suja, no entanto, “olhando-se de fora”, fiapos saltam em câmera lenta e ... gua de múltiplas cores dentro da sua boca tur- bulenta; um vulto, com panos no ombro, cru- za na sua frente, como se os panos, tocando o seu rosto, fossem uma língua de réptil puxando-o para a penumbra da peça; na janela do andar de cima a gaiola de um pássaro, até o meio num pano listrado [miniatura de carruagem virada num cânion], gira no ar; um varal brilha, atrás da gaiola sem pás- saro, como um trapé- zio; nos outros andares, vidros fechados, como por- tas de um armário (...) ao acender-se um holofote, a cortina escura, agora azul-clara, é lisa como papel; nenhum obstáculo à vista, porém o pássaro insone pára, corre, pára no para- peito da janela; ouve- se então a cortina se rasgar, tro- vão desengonçado; o pás- saro voa para o alto da palmeira (...) à meia-noite nublada, jorra do helicóptero baixo uma luz que é um guindaste erguendo e passando adiante sua sombra ensurdecedora; vacilando como uma chama ao relento, um reflexo passeia dentro de um barco quieto na água escu- ra (...) na tela [da janela] contra insetos, a palma úmida passa sua som- bra tão lenta quanto a chuva; enquanto o portão escorre para o la- do, diante de possantes faróis acesos que lançam da rua areia na umi- dade (...) as sombras se deitam felinas nas cadeiras de descanso; um ou outro espaldar branco se destaca como lâmina de guilhotina (...) numa grande caixa de plástico, doces recheados, empilhados como conchas, e cobertos de açúcares como areia, que dois chefs, vestidos a caráter, “perdidos” , transportam sob a lua pela praia (...) um garoto magro leva, numa vasilha de lata, um pólipo caramelado, de grossos tentáculos duros (...) crianças esquecem seu tubarão de plástico, rosado e calmo, sob a lua nublada, informe (...) e uma grande bola lilás, de plástico, com tetas ou pés de banco, fica imóvel na grama (...) [9 ou 10 horas depois] com os braços cobertos de pó branco, a cabeça enrolada na camiseta e a calça suja de tinta, sentado à beira da piscina encapada com lona azul, o estrangeiro fala com forte sotaque ao celular, os olhos negros (...) um carro de mão, deitado e vazio, é umedecido pelo jorro de longa mangueira azul, enquanto nele se bate para desamassar os lados (...) em pé numa escada de alumínio, impecavelmente limpa, o jardinei- ro trata do tronco da palmeira, lançando ferrugem no chão (...) diante do navio silencioso, o pescador, numa canoa, bate com o remo na água, o estardalhaço da manhã (...) uma serena árvore -- com pedras suspensas nos galhos -- dá montículos redondos (...) (...) pilha torta de chapéus, o mais claro por cima, no espaldar de uma poltrona ao sol -- como se um ser empoeirado cochilasse (...) um teddy-bear sorridente, oculto atrás de uma flor vermelha que, no seu peito, é escudo imenso, curvo e imponente, mas já amolecem as pétalas (...) sobre as raízes de plástico, uma mangueira roxa, enrolada no gramado -- e os galhos baixos, pisoteados, ainda verdes co como peteca carbonizada na mão do menino dois dedos sempre unidos, grossos, movem- se lentos num tipo de rito (***) um sapo macaco, num galho (***) a sombra dos galhos balança no container cheio e sai para fora, como líquido negro, escorrido (***) a luz da janela se apóia na folha alta e longa, a qual vacila, visi- velmente (***) a onça de papo claro, orelhas limpas, olhar oriental, chupa as narinas, excessivamente, na cama, achatando o rosto, enquanto pousa o rabo atrás (***) tela fina e malha de nylon, no escuro, e a lâmpada amarela pende como mamão maduro entre folhas ásperas (***) a taturana vasta se sustenta mal numa parede; a trepadeira verde- escura desabrocha mais, quebrada (***) a cobra grande aspira a paisagem pintada, sobe ávida e solta-se, cai nos pedregulhos (***) na água exausta, um boi em pé olha para a praia, parado (***) como escamas luminosas, as gaivotas rodam no ar claro, cercando o peixe opaco (***) o esqueleto pré-histórico projeta sombras finas, embaralhadas, um grande carteado (***) o rabo do esqueleto (...) passa na parede a sombra nítida: samambaia, feto numa “cortina transparente”, as borboletas esvoaçam [(praga, não prega)] no jardim, indo e vindo, sistematicamente [“...”?] (...) duas mangas verdes, a grande sobre a pequena, pendem do galho fecha- do, como etiqueta para fora (...) como um trapo que se amarra no asfalto // as extremidades secas e trêmulas // duas borboletas copulam entre os carros, laços e nós [?] (...) as libélulas grudam no ar, com pouco esforço se desgrudam (...) sobre o beco, no alto, passa de um quintal para o outro um galho fino, com folhas para baixo, centopéia lépida (...) na grama úmida sob o aguaceiro, uma seqüência de cogumelos brancos, se vão inflando como balões (...) e num monte de folhas uma borboleta pálida (faz sol), o seu fogo definha até apagar [nenhum sopro] (...) de um turbante cáqui bem trançado no chão sobe o coqueiro com seus fios imensos, vivos e “se remexe” no chão, sem “se elevar”, as for- migas pululam diminutas no formigueiro “pisoteado” (***) duas aranhas se “acariciam” no chão, duras como duas “bromélias”; ou duas “bromélias” “lutam”, encarando-se paradas como “aranhas” roda vagarosamente um transatlântico, então ele se “solta” desse longo “eixo” natural (...) / / / / / / (...) pedras “e pão preto” “picado” em cubos se amontoam num “cesto” no chão, onde cochilam bichos como uma bota -- de repente salta (***) ela dá um nó no ar e não aperta, a sua sombra escapa do poste Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas (... ) – (...), -- (...) (...) um (...) (...) restituído (...) (...) a sensação (...) aumentava (...) (...) as plantas torceram-se (...) Henri Michaux (...) formiga! (...) mistério (...)
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