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Florianópolis, 26 de Julho de 2008 LUIGI PIRANDELLO – 40 NOVELAS DE LUIGI PIRANDELLO Por: Aurora Bernardini (USP) Luigi Pirandello – 40 novelas de Luigi Pirandello (Seleção, tradução e prefácio de Maurício Santana Dias), Companhia das Letras, 2008. subordinação em que só podiam trapacear e afogar seus melhores sentimentos”. Prova disso é - na época das heroínas de Ibsen , das vitoriosas sufragistas inglesas, americanas e das populistas russas - a preocupação feminina constante, que se vislumbra nesses contos pirandellianos, de “fisgar” um marido, refugiar-se na maternidade ou esquivar-se, pelo sacrifício ( “O medo”; “ Xale negro”), pela “perdição”(“O ninho”) ou pela trapaça ( “A senhora Speranza”) da condenação tacanha e inexorável da moral corrente. As primeiras duas, prerrogativas das mulheres de extração mais baixa ( às vezes também dos homens, como em “ Certas obrigações”) e a última, apanágio das artistas (“Os limões da Sicília”) e de algumas mulheres cuja circunstância as levou a serem um pouco mais autônomas: “ A grande Pompea [ a cantora lírica de “ Tirocínio”] naturalmente não o deixou escapar. Porém, considerando a própria constituição física e prevendo que, com o passar do tempo, ele talvez perdesse o apetite por tanta abundância, encontrou logo meios de pôr à sua disposição uma graciosa filhinha.” Esse tom farsesco , levado adiante por Pirandello com uma maestria toda especial quando da narrativa passa à cena (vejam-se “Pense nisso, Giacomino” , “Não é uma coisa séria”e “Apelo à obrigação”[ ou O homem , a besta e a virtude] ) cede aos poucos espaço para o que o autor, em O Humorismo (um interessante tratado que, junto com Arte e Ciência, lhe valeu a cátedra na Facoltà di Magistero romana, em 1897), chamou de “sentimento do contrário”. Não se trata de “ rir de volta para a vida”, como propunha Isak Dinesen mas, “devido à reflexão inserida no germe do sentimento, feito um visgo maligno, trata-se de despertar as idéias e as imagens em contraste [ e não em acorde] com esse sentimento”.Algo como o que Giordano Bruno caracterizou como “In tristitia hilaris”. Resulta disso uma espécie de decomposição, de livre movimento da forma e da percepção, que faz com que o indivíduo veja e sinta sua própria máscara exterior (o disfarce que ele veste para viver), mas ao mesmo tempo não deixe de criar uma máscara interior. Enfim, é a desunião interna do homem moderno, obviamente, com a superação do cômico e, às vezes, com a passagem poética para o terrível, o horror ( vejam-se, por exemplo, “ Cinci” e “ O outro filho”) .Em “ A mosca”, e especialmente em “Com a morte em cima” [ ou O homem da flor na boca], o terrível funde-se ao patético. Mas há ainda uma outra dimensão, crucial nesse conjunto de narrativas que, juntamente com o drama psicológico pós-dostoievskiano ( Henrique IV), foi responsável pelo reconhecimento mundial de Pirandello: a das personagens. Nas três narrativas “ Personagens” ,“Tragédia de uma personagem” e “ Conversas com personagens”( o germe de Seis personagens à procura de autor) trata-se, entre outras, de questões filosóficas em que “ o pensamento vê a si mesmo”, a consciência é “ o espelho interior em que o pensamento se mira” e a volubilidade em que as personagens se vêem “expressa a sua essencialidade”. As personagens que mudam de ser a cada nova forma levam a se ter consciência da possibilidade de muitas alternativas. É nesse processo de busca - que o pragmatista Richard Rorty, em seu testamento ( Filosofia como Política Cultural) chamou de “ redenção” - que o leitor/espectador se torna um ser autônomo: “ No Ocidente, o intelectual esperou essa redenção primeiro de Deus, depois da filosofia e, finalmente, da literatura. Isso porque a literatura permite travar conhecimento com uma grande variedade de seres a que foi dado o nome de Deus ou de Verdade, respectivamente pela religião e pela filosofia.”
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