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Por:Dirce Waltrick do Amarante |
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Por:Sérgio Medeiros |
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Por:André Cechinel |
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Por:Ana Carolina Cernicchiaro |
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Por:Felipe Lins |
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Por:Dirce Waltrick do Amarante |
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Por:Dirce Waltrick do Amarante e Sérgio Medeiros |
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Por:Marcelo Coelho |
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POESIA SEM PALAVRAS
Por: Dirce Waltrick do Amarante e Sérgio Medeiros*
O jovem artista paulistano Cláudio Trindade, radicado há vários anos em Florianópolis, atualmente não escreve livros (já publicou dois, ambos de poesia), mas literalmente faz livros, pequenas esculturas no formato de volumes abertos com páginas em branco. Nessas páginas arrepia-se um negativo fotográfico, escorre uma tira rubra como sangue e rolam dados, nada, como facilmente percebe o leitor, que lembre versos, os quais, como disse Borges, devem conter música, rumor e símbolos. Na verdade, símbolos há na poesia-objeto de Cláudio. Primeiramente, os símbolos da modernidade, já que suas esculturas fazem claras alusões aos grandes mestres do passado, como Mallarmé, Mondrian e Duchamp. Assim, se considerarmos essa trindade que o artista cultua, é possível afirmar que o verso retorna, como algo implícito, ao livro-escultura de Cláudio, através do fantasma de um Mallarmé visual (o do poema Um lance de dados), trazido à tona pelas mãos de dois mestres das artes plásticas, Mondrian e Duchamp. Contudo, não é o verso, ou o não-verso visual, o elemento mais central das composições poéticas que pretendemos discutir aqui, mas sim o conceito de leitura e seus paradoxos. As obras mais expressivas de Cláudio se impõem como metáforas da leitura, mesmo que não contenham explicitamente palavras ou versos, mesmo que pareçam, e efetivamente sejam, mais esculturas para serem vistas ou tocadas do que poemas para serem lidos. Isso é evidente nos livros que mencionamos acima, que transformam a leitura em jogo (aceitar não a letra, o verso, mas o lance de dados) e em reescritura (introduzir sempre, na ausência da letra, do verso, um corpo estranho nas páginas que se lê). Jogo e reescritura são, na verdade, sinônimos: os dados lançados escrevem, ou melhor, reescrevem. O leitor/autor pode e deve mudar a face do livro, durante a "leitura", relançando os dados de Mallarmé ao passar os dedos pelas páginas e modificar a disposição dos seus elementos. Embora o livro seja a melhor introdução ao universo poético de Cláudio e à problemática da leitura que sua obra procura formular, talvez ele, o livro, não tenha a mesma força dos impagáveis robôs leitores, que encerram, mais do que qualquer outra peça do artista, uma poderosa parábola sobre a leitura. Os robôs são pequenas peças repletas de alusões estéticas como os livros, porém essas alusões são muito mais sutis, às vezes secretas, e não correm o risco, por isso, de soarem óbvias, modernistas demais. Construídos com lupas dotadas de pinças, os robôs seguram dados ou cartas de baralho, e parecem ler e estudar esses objetos. O espectador-detetive se curva sobre as lupas e também lê, mas a sua leitura nunca é simples nem direta: o leitor é surpreendido, ao encarar uma carta de baralho, por exemplo, bastante aumentada, com o fato de a relação sujeito-objeto estar deslocada e o baralho também ler o leitor, por intermédio do coringa, que ele examina e que, por sua vez, num jogo em abismo, também o examina, ou encara. Cria-se, assim, um poderoso jogo de olhares que origina uma metáfora da leitura muito mais instigante e contemporânea do que a metáfora que os livros do artista são capazes de trazer. Ao mesmo tempo anacrônicos (seu cerne é a velha lupa dos quase cegos) e contemporâneos (tornam nosso olhar algo paradoxal), os robôs lêem sem olhos o mundo, mas com grande concentração - belos e perversos. São as peças mais bem-resolvidas da coleção de Cláudio Trindade, um artista que tem produzido intensamente, mas sem abrir mão do acabamento impecável. Seus poemas possuem uma qualidade escultural rara, fruto do capricho com que são elaborados, e jamais correm o risco de evidenciarem apenas um amadorismo esforçado, tão comum entre os cultores da poesia-objeto.
Outras peças, que parecem exclusivamente táteis, como as coleções de comutadores, ou interruptores (se oferecem de modo irresistível aos dedos da mão), remetem também à leitura, pois não deixam de aludir, através do jogo aceso-apagado, à leitura, ao ver e ao decifrar, e também ao cegar. Assim como a função das lupas é iluminar, aumentar, também os comutadores, nas cores das pinturas geométricas de Mondrian, reacendem algo, por exemplo a relação entre arte e computador, entre produto artesanal e produto industrializado, já que os interruptores se oferecem aos dedos como um sedutor teclado. Quem o toca uma vez, é levado a fazê-lo muitas vezes. Mas Cláudio construiu recentemente um outro poema-objeto ainda mais instigante e revelador, o qual merece ser comentado aqui.
Num prato branco de louça, há um peso de papel transparente e, sob esse peso, uma gilete. Três objetos que se reúnem casualmente, sobrepondo-se sem se colarem uns nos outros. No entanto, olhando para essa peça, temos a impressão de algo coeso, como um ovo se expondo íntegro diante de nós, com seus três elementos - a clara, a gema e, dentro da gema, um embrião. A lâmina ou gilete que quer nascer, crescendo deformada através do peso transparente, remete a muitas coisas. O peso transparente é uma lente, uma lupa, mas é também o próprio olho, a pupila que vê através da lupa. Talvez seja também o olho que, no famoso filme de Dali e Buñuel, será violado por uma lâmina. Segundo a metáfora da leitura que estamos propondo aqui, essa água-viva (o olho) encerra simultaneamente a possibilidade da cegueira e da revelação, e nisso é semelhante a uma lupa diante de um livro em branco. Talvez essa peça feita de elementos soltos e, no entanto, unificados, seja uma tradução perfeita do percurso artístico de Cláudio Trindade, um designer gráfico que é também poeta, ou um poeta que é também, e inevitavelmente, um designer gráfico. A fase atual da sua arte é instigante e prometedora, se considerarmos as infinitas possibilidades de leitura que seus objetos poéticos propõem.
Poucos, porém, já tiveram o privilégio de apreciar essas peças. Elas ainda não foram exibidas, mas o serão, ainda este ano, em Florianópolis, em local a ser escolhido pelo artista. Podemos apenas imaginar o impacto que causarão, quando forem vistas em conjunto, numa sala ou galeria. No nosso caso, pudemos desfrutá-las numa mesa comprida, entre pequenos pratos redondos cheios de castanhas e biscoitos, no mais autêntico espírito de uma mesa de jogo, em que baralhos e dados convivem pacificamente com copos e pratos. Os elementos mais kitsch da poesia de Cláudio estão relacionados, aliás, ao universo do jogo de salão, do cassino, como o espelho e o veludo, elementos que ele emprega discretamente em algumas peças, sem temor flertar com o mau gosto. A relação entre jogo e arte é, aliás, uma reflexão que a obra de Cláudio Trindade provoca, quando suas peças são expostas em conjunto: o jogo se torna então, para retomar a definição de Johan Huizinga, uma atividade inseparável da própria poesia, tal como já sucedia na antiguidade, quando ela era "simultaneamente ritual, divertimento, arte, invenção de enigmas, doutrina, persuassão, feitiçaria, adivinhação, profecia e competição".
Perguntamos ao Cláudio qual era o traço mais obsessivo que ele próprio reconhecia em suas obras. Ele nos mandou a resposta por e-mail, que reproduzimos a seguir, com sua escrita peculiar: "Fiquei pensando na minha obsessão. Respondi na hora (em q fui questionado por você) q talvez a minha obsessão fosse o "papel". Não estou certo disso, apesar de todo o meu trabalho ter esse suporte ou ao menos representá-lo, ainda tenho dúvidas. E se não estou certo, não é uma obsessão. Eu penso q o ritmo é algo q eu procuro com mais afinco, o ritmo está na minha poesia desde o início. No ruído branco [seu segundo livro, publicado em 2003], o ritmo estridente é claro a qualquer leitor - o projeto gráfico do livro tem o seu o ritmo, então o papel é o suporte para o ritmo e não o contrário.. Eu escrevi buscando esse ritmo. Não seria o ritmo minha maior obsessão? E os poemas-objetos, como entram nessa história de ritmo? Penso que o poema-objeto é uma espécie de caricatura, tanto do poema como do objeto, porém essa caricatura possui o seu ritmo próprio e a sua metáfora, q não necessita de palavras. Os objetos falam em silêncio num ritmo sincopado. Então, o ritmo é algo q eu procuro constantemente, não só na minha poesia, mas nas minhas leituras e visões. Então, encontrando o ritmo, encontro a concisão. Essas palavras são reflexões de uma poética q ainda está e/ou sempre estará em construção." O ritmo com certeza é o grande elemento estrutural da mais nova obra do poeta, ainda não concluída, chamada Dédalus catarinense: um conjunto de mini-contos que descrevem passeios pelas ruas de Florianópolis, num inesperado retorno à palavra, através da prosa. * Sérgio Medeiros leciona Literatura na UFSC e Dirce Waltrick do Amarante é doutoranda na mesma instituição
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