Por:Dirce Waltrick do Amarante
 
 
 
Por:Sérgio Medeiros
 
 
 
Por:André Cechinel
 
 
 
Por:Ana Carolina Cernicchiaro
 
 
 
Por:Felipe Lins
 
 
 
Por:Dirce Waltrick do Amarante
 
 
 
Por:Dirce Waltrick do Amarante e Sérgio Medeiros
 
 
 
Por:Marcelo Coelho
 
     
 

 

   

ANIMAIS DE TODO MUNDO: LEITURA
Por: Dirce Waltrick do Amarante

O livro Os Animais de Todo Mundo, recém-lançado pela editora Cosacnaify (São Paulo), do renomado poeta francês Jacques Roubaud (1932 - ), é uma daquelas obras que reacende a discussão em torno de uma definição de literatura infanto-juvenil.

Os versos que compõem o livro de Roubaud trazem à cena vários animais domésticos e selvagens, tão caros às crianças, numa linguagem humorada, limpa e objetiva, como, por exemplo, neste poema que fala sobre a girafa: “A girafa adelga o pescoço/ até quando se adora queijo/ se deve ser magra no queixo/ esguia e fina como um caniço// Essa moda provoca tantos/ problemas à nossa girafa/ ela passa, o avestruz desabafa/ e nem vou mencionar os Bantos!// Ela sonha com tagliatelle/ com presunto cru (San Daniele)/ mas ‘madame girafa’ diz: não// e sua dieta é sem cerveja!/ coitada! sobre o pescoção/ lá no alto, ela lacrimeja”.

Mas, além de poesia, encontramos em Os Animais de todo o Mundo também duas cartas: a primeira, do autor para um ouriço (onde ele explica o seu fazer poético) e, a segunda, do representante de um clube de “catorze cães” ao poeta. Já que nenhum soneto foi dedicado à raça canina, esta lhe cobra explicações: “Escrevo-lhe para dizer que estamos raivosos! Nós, os catorze cães do meu clube. É por causa do seu livro: o senhor pretende evocar os animais de todo o mundo, e esquece o povo canino, os cães, ora!”

Levando-se em consideração os exemplos citados (que, acredito, resumem de certa forma o espírito do livro de Roubaud), quem não afirmaria tratar-se de literatura infanto-juvenil, mas, concomitantemente, que leitor, de qualquer idade, não se sentiria atraído a continuar lendo a obra?

Num ensaio intitulado “Três Maneiras de Escrever para Crianças”, o escritor irlandês Clive Staples Lewis, autor de As Crônicas de Nárnia, ressalta a sua posição em relação à chamada Literatura Infantil, que, para o escritor, é antes de tudo uma forma artística (escreve-se “uma história para crianças porque é a melhor forma artística de expressar algo que você quer dizer”): “Não preciso lembrar o público a quem me dirijo de que a classificação rígida dos livros segundo faixas etárias, tão cara a nossos editores, tem uma relação muito vaga com os hábitos dos leitores reais. Aqueles que são censurados quando velhos por lerem livros de criança também eram censurados quando crianças por lerem livros escritos para mais velhos. Nenhum leitor que se preze avança obedientemente de acordo com um cronograma.”

De fato, parece que, já no século XVII, quando se passou finalmente a escrever histórias que “vieram a ser englobadas como literatura também apropriada à infância”, o problema da faixa etária a quem o texto deveria ser dirigido era também de difícil solução. Em 1696, o conto “A Bela Adormecida” (cujo enredo, nessa época, diferia da versão definitiva do texto) foi publicado na revista Le Mercure Galant, com algumas linhas de apresentação do autor: “Ainda que os contos de fadas e ogros pareçam ser bons apenas para as crianças, estou convencido que esse que vos envio vos dará prazer. Ele está escrito de maneira agradável e o estilo é perfeitamente adequado ao tema”. O autor do conto, Charles Perrault – autor de Contos da Mamãe Gansa, cujo título original era Histórias ou Narrativas do Tempo Passado com moralidades (1967) --, manteve-se, todavia, no anonimato, não assinando a obra, procedimento natural na época, quando se tratava de livros dedicados às crianças.

Em 1704, um ano após a morte de Perrault, os leitores de todas as idades, que apreciaram seus textos, foram surpreendidos com a tradução adaptada de As Mil e uma Noites, obra do orientalista francês Antoine Gallant. Sobre As Mil e uma Noites, Malba Tahan adverte que “o verdadeiro livro (...) na sua forma completa, não é obra cuja leitura possa ser aconselhada para crianças e adolescentes. É um livro profundamente contra-indicado sobre vários aspectos, pois muitos de seus contos foram imaginados com a finalidade exclusiva de divertir adultos”. No entanto, Gallant, na sua tradução, que se tornou “obra clássica da Literatura francesa” e que foi retraduzida para vários idiomas, aproveitou somente “uma quarta parte dos contos originais (...), teve o cuidado de abolir as cenas que pudessem ferir os princípios morais cristãos. Suprimiu do enredo dos contos os versos, poemas e citações poéticas. Procurou fazer uma tradução que fosse isenta de expressões chulas e pouco edificantes”. De fato, a tradução do orientalista francês obteve sucesso entre adultos e crianças, as quais adotaram o livro, como se este tivesse sido escrito “especialmente para elas”.

O século XIX, diferentemente do século XVIII, é conhecido como “A Idade de Ouro” da literatura infantil, uma vez que, nesse período, segundo Ana Maria Machado, “o gênero se destacou com clareza da literatura para adultos. E foi também quando surgiram várias obras que, embora intencionalmente dirigidas para os pequenos, conquistaram os leitores de todas as idades por suas qualidades literárias intrínsecas”. Ou seja, “não eram apenas ‘livrinhos para crianças’, dispostos a dar alguma lição e, eventualmente, divertir”. Ana Maria Machado ilustra essa questão citando uma afirmação do já mencionado Clive Staples Lewis, que dizia não valer “a pena ler aos 10 anos um livro que não tenha o que dizer para quem o reler aos 50, em condições de fazer novas descobertas na releitura”.

Recentemente o crítico norte-americano Harold Bloom publicou uma antologia de textos “para crianças extremamente inteligentes de todas as idades”. No prefácio de sua coletânea, Bloom afirma que “qualquer pessoa, de qualquer idade, ao ler esta seleção, perceberá logo que não concordo com a categoria ‘literatura para criança’, ou ‘literatura infantil’, que teve alguma utilidade e algum mérito no século passado, mas que agora é, muitas vezes, a máscara de um emburrecimento que está destruindo nossa cultura literária. A maior parte do que se oferece nas livrarias como literatura para criança seria um cardápio inadequado para qualquer leitor de qualquer idade ou época”.

Na antologia de Bloom não há nada “que seja difícil ou obscuro, nada que não ilumine e divirta”, assim como ocorre no livro de Jacques Roubaud, que comentamos. Por isso o crítico acrescenta que, “se alguém encontrar aqui uma obra que não entenda imediatamente, sugiro perseverança. É quando nos ampliamos, pelo exercício de uma capacidade não utilizada antes, que alcançamos um melhor conhecimento de nosso próprio potencial. Abstenho-me de sugerir qualquer história ou poema em especial para uma ou outra idade, porque prefiro considerar o livro um campo aberto onde o leitor passeará e descobrirá, por si mesmo, o que lhe pareça mais apropriado”.

Ana Maria Machado compartilha da opinião de Harold Bloom com relação à leitura (seja o leitor de qualquer idade), quando afirma que “outra coisa muito prazerosa que encontramos num bom livro é o prazer de decifração. De exploração daquilo que é tão novo que parece difícil e, por isso mesmo, oferece obstáculos e atrai com intensidade. É uma delícia irresistível: ir se deixando fascinar, se permitindo ser conquistado por aquelas palavras e idéias, tentando ao mesmo tempo conquistar e vencer as dificuldades da leitura”.

Na realidade, o que se tem de concreto é que “ler bem” (qualquer bom livro, independente dele vir acompanhado do adjetivo “infantil” ou “infanto-juvenil”) “torna as crianças mais interessantes, tanto para si mesmas quanto para os outros, um processo no qual desenvolverão uma noção de serem pessoas separadas e distintas. Estar sozinho com um livro autêntico é ser capaz de conhecer a si próprio”, como afirma Harold Bloom.

Na opinião de Bloom, “a criança solitária com um livro é, para mim, a verdadeira imagem da felicidade potencial, de algo que pode se tornar realidade mais e mais”. O livro, esse companheiro, é um “amigo invisível”, é “a mente que aprende a exercitar com todos as suas forças. Talvez seja também o misterioso momento em que nasce um novo poeta ou um novo contador de histórias”.

Razão pela qual parece ter razão Malba Tahan, quando afirma que “a criança e o adulto, o rico e o pobre, o sábio e o ignorante, todos, enfim, ouvem com prazer histórias – uma vez que estas histórias sejam interessantes, tenham vida e possam cativar a atenção”. Tanto são os autores e os livros que merecem ser explorados por qualquer público, mesmo que careçam de adjetivos como “adulto” ou “infantil" (os quais não acompanham a edição de Os Animais de Todo Mundo).

 

 

HOME . GALERIA . POEMAS . ENSAIOS . EVENTOS . RESENHAS . TEATRO . NARRATIVAS . TRADUÇÕES . ACORDE COM VERA . INFANTO-JUVENIL . LINKS . CONTATO