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POÉTICA DE UMA RUPTURA
Por: Ana Carolina Cernicchiaro

Na famosa aula inaugural da cadeira de Semiologia Literária, no Colégio de França em 1977, Roland Barthes nos fala de uma força semiótica da literatura que coloca os signos “numa maquinaria de linguagem cujos breques e travas de segurança arrebentaram”. É assim, rompendo os freios da linguagem, que Joaquim de Sousa Andrade – o Sousândrade (1832 – 1902) – nos apresenta uma poética onde o binarismo imperialista da língua se destrói e cala para dar voz a um novo universo de fragmentos, dissonâncias, hibridismos e balbucios. Como disse Haroldo de Campos em Sousândrade: Formas em Morfose, “A poesia de Sousândrade se inscreve, toda ela, num espaço de ruptura. Ruptura, primeiro com o cânon romântico, logo com o gênio da língua portuguesa (perturbada por suas inovações sintáticas e léxicas) e enfim com a própria linearidade e discursividade do pensamento lógico de modelo ocidental”.

Essa idéia de construir um “novo mundo” - não por acaso era esse o nome do jornal que escrevia quando morava nos Estados Unidos entre 1871 e 1885 -, através da reinvenção da linguagem, permeia a literatura sousandradina quase como um todo. Mas ganha inigualável radicalidade nas duas descidas ao inferno (O Tatuturema e O Inferno de Wall Street) de O Guesa - o longo poema épico que descreve o périplo de um índio errante em treze cantos. O Guesa é baseado no culto solar dos indígenas da Colômbia, segundo o qual uma criança roubada dos pais é oferecida em sacrifício ao deus-sol (Buchica) quando completa 15 anos, antes disso segue em peregrinação pela “estrada do Suna”. Em Sousândrade, a personagem lendária vai muito além da estrada muísca e faz o percurso do próprio poeta, com quem se confunde no heroísmo sacrificial por uma América una, retirada de uma filiação luso-hispânica ou britânica, livre da colonização-exploração e da imoralidade do capitalismo liberal que aparecia nos Estados Unidos do final do século XIX.

Aliás, é importante dizer, que é esse momento histórico que Sousândrade retrata com voz de decepção e pioneirismo em O Inferno de Wall Street (assim intitulado por Haroldo e Augusto de Campos a partir de expressões do próprio poeta). Esse fragmento é provavelmente o mais expressivo de seus textos, justamente pela radicalidade de uma forma que tenta dar conta de um real inexprimível e da revelação de impossibilidade do discurso lógico, sem contar, é claro, sua emancipadora crítica ao sistema mercadológico que se fortaleceu intensamente naquele momento e nos subjuga até hoje.

Nesse inferno tudo é desproporção, caos, informe. A linguagem é inoperante, uma fala apenas não é possível, a língua não é mais suficiente, palavras faltam e, portanto, são criadas e recriadas, numa morfologia e sintaxe impensáveis, como se pertencessem a outros idiomas (e muitas vezes pertencem), se juntando em rimas impossíveis, que transformam a fonética não apenas da sua língua, mas até das línguas que estão ali para subvertê-la.

Sousândrade quer se livrar das amarras da língua-mãe, essa ditadora, símbolo máximo da colonização, mas também não aceita a salvação de outros mundos, antes prefere sua própria invenção desarticulada e estranha. “Deixemos os mestres da forma – se até os deuses passam! É em nós mesmos que está nossa divindade. Não é pelo velho mundo atrás que chegaremos à idade de oiro, que está adiante além. O bíblico e o ossiânico, o dórico e o jônico, o alemão e o luso-hispânico, uns são repugnantes e outros, se não o são, modificam-se à natureza americana. Nesta natureza estão as próprias fontes, grandes e formosas como os seus rios e as suas montanhas; ela, à sua imagem, modelou a língua dos seus Naturais – e é aí que beberemos a forma do original caráter literário qualquer que seja a língua diferente que falarmos”, defende em Memorabilia.

Em O Inferno de Wall Street, Sousândrade encontra seu mais radical hibridismo, suas construções mais entorpecedoras. O multidiomático se torna um escape e o balbucio, os urros e os gritos tentam trapacear a linguagem, uma trapaça, que, como nos diz, mais uma vez, Barthes, “permite ouvir a língua fora do poder, no esplendor de uma revolução permanente da linguagem”. Um exemplo dessa trapaça é a estrofe que finaliza o fragmento com o sacrifício ritual do poeta-guesa condenado pelos bears (jargão que se refere aos especuladores da Bolsa de Valores de Nova Iorque): “-Bear... Bear... ber’... Pegàsus.... / Parnasus... / = Mammumma, mammumma, Mammão”. Aqui ecoam os gritos de socorro que clamam por pegasus, o cavalo alado, símbolo na mitologia grega da inspiração poética, e pelo monte Parnaso da antiga Grécia, consagrado a Apolo e às Musas. Como se só a poesia pudesse defender Sousândrade-Guesa do demônio Mammão, símbolo do dinheiro e do lucro.

Descobrir esse universo, no entanto, nunca foi tarefa fácil, não apenas pela obscuridade de sua poética mas, principalmente, pela própria escassez de publicações. O principal livro dedicado ao poeta, Re-Visão de Sousândrade [Perspectiva, a 3ª edição ampliada é de 2002], de Haroldo e Augusto de Campos, ainda que conte com ensaios bastante elucidativos sobre a obra sousandradina, traz apenas fragmentos de poemas. Mas, para alegria daqueles que se apaixonaram pelos cacos esparsos de Sousândrade, já é possível encontrar seus textos na íntegra em um único volume. Prosa e Poesia Reunidas de Sousândrade, organizado pelo estadunidense Frederick G. Williams e o maranhense Jomar Moraes, traz, além das “Memorabilias”, textos políticos, colunas de jornais, fotos, documentos e correspondências, os fac-símiles dos manuscritos de Harpa de Ouro e de Liras Perdidas e da segunda edição de Novo Éden e, o melhor de tudo, o fac-símile da terceira edição de O Guesa (publicada em Londres), com seus treze cantos na íntegra.

Serviço
Poesia e Prosa Reunidas de Sousândrade
Organização: Frederick G. Williams e Jomar Moraes
Edições AML - 536 páginas
R$ 100,00 mais frete
O livro está sendo comercializado pela Academia Maranhense de Letras e deve ser encomendado pelo telefone (98) 3231-3242


Ana Carolina Cernicchiaro é mestranda em Teoria da Literatura,
UFSC. Desenvolve pesquisa a partir do trabalho de Sousândrade.
anacer77@yahoo.com.br

 

 

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