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Por:Dirce Waltrick do Amarante
 
 
 
Por:Dirce Waltrick do Amarante e Sérgio Medeiros
 
 
 
Por:Marcelo Coelho
 
     
 

 

   

LONGE DE CASA: EMILY DICKINSON
Por: André Cechinel

No conto intitulado “Wakefield”, publicado pela primeira vez em 1835, Nathaniel Hawthorne nos relata a história de um homem que, sem maiores explicações, decide abandonar sua mulher de modo repentino, dedicando-se com afinco a uma espécie de exílio absolutamente voluntário. Curioso é que, apesar do afastamento, Wakefield, personagem do conto, opta por morar próximo a sua casa anterior, para assim poder acompanhar passo a passo os acontecimentos que cercam o lar do qual antes fazia parte. Subitamente, passados vinte anos desde sua decisão inicial, Wakefield resolve enfim retomar a vida que havia abandonado, sem, contudo, se dedicar a justificativas acerca do parêntese por ele mesmo imposto. Resumidamente, a narrativa parece enfatizar a impossibilidade de uma decodificação imediata dos motivos de Wakefield, ou seja, o inexplicável deve assim permanecer – o conto se sustenta justamente a partir da irresolução do relato.

A comparação parece inevitável: em 1853, dezoito anos após a aparição de “Wakefield”, Herman Melville (amigo pessoal de Hawthorne) publica o conto chamado “Bartleby, the Scrivener”, que nos narra a conhecida luta muda encaminhada por Bartleby através da frase-fórmula “I would prefer not to”, ou, simplesmente, “preferiria não”. A história de Melville encontra-se hoje bastante popularizada, principalmente após os estudos de Deleuze (sobretudo em “Crítica e Clínica”) e do romance escrito por Enrique Vila-Matas, intitulado “Bartleby e Companhia”. O que nos interessa, neste momento, é o fato de que, dentro de um breve intervalo de tempo, surgem duas narrativas com “temas” (se é que se trata disso) relativamente próximos. Em outras palavras, tanto Hawthorne quanto Melville demonstram-se ligados a uma vivência ao mesmo tempo individual e impenetrável, uma vez que Wakefield e Bartleby permanecem, de fato, personagens enigmáticos, vacilantes.

Ora, é bem verdade que a ficção se estende, até certo ponto (e se assim desejarmos), ao plano biográfico, especialmente no caso dos personagens não-ficcionais de Thoreau (correndo aqui os devidos riscos teóricos). Colocado de outra maneira, poderíamos lembrar que, em 1849, Henry David Thoreau publica o livro “Civil Disobedience” (“Desobediência Civil”), que, como é de conhecimento geral, abre com a célebre tese “That government is best which governs least” – “o melhor governo é aquele que menos governa”. Particularmente, em uma determinada passagem do texto, o autor nos afirma que, quando o governo aprisiona pessoas injustamente, o melhor lugar para um homem justo é precisamente a prisão, expondo, pois, sua própria experiência como detento “voluntário”. Logicamente, faz-se necessário esclarecer: tal como “Civil Disobedience” e dados biográficos nos descrevem, Thoreau foi aprisionado por se recusar a pagar seus impostos. Na realidade, ao que consta, tudo se tratava de uma resistência inteiramente política, já que Thoreau não só tinha dinheiro para acertar as dívidas, como também contava com o auxílio de outras pessoas para que sua fiança fosse paga. Ou seja, mais uma vez, estamos perante um isolamento que, apesar de agora explicável, sustenta-se como uma sorte de “exílio” espontâneo.

Talvez possamos entender um pouco mais do que está em pauta se lembrarmos, por exemplo, o início da epígrafe do texto de Emerson chamado “Self-Reliance” (algo como “Autoconfiança”), publicado, por sua vez, em 1841: "Man is his own star; and the soul that can render an honest and a perfect man” (“O homem é sua própria estrela; e a alma pode fazer um homem honesto e perfeito”). Parafraseando um outro trecho do livro, pode-se dizer que, para o autor, a sociedade funciona essencialmente como um mecanismo de anulação das competências individuais de seus membros, ou melhor, como força homogeneizante. Resulta disso, obviamente, toda uma literatura que diz respeito a um certo desterro que busca, digamos, esquivar-se de deliberações das quais não participa ativamente. Repetindo, Wakefield, Bartleby e Thoreau podem ser lidos como “personagens” do exílio.

Chegamos agora ao tópico de maior relevância: Emily Dickinson, como bem sabemos, é constantemente retomada pela crítica literária como escritora exilada. Conforme os (inúmeros) rumores biográficos nos indicam, Dickinson raramente deixava sua residência, levando uma vida notavelmente reservada, envolta de um hermetismo praticamente inabalável. Nesse sentido, a obra da escritora é muitas vezes entendida pela crítica como inextricavelmente relacionada a sua curiosa biografia, e seus versos recebidos como referência ao seu conhecido exílio. Cabe aqui dizer que, de fato, Emily Dickinson escreve uma poesia em fuga, apoiada em versos que sugerem uma dada “desatenção” (não por descuido), por exemplo, para com regularidades e formalismos literários comumente aceitos. Tal como Whitman, Dickinson produz uma obra “democrática”, que permite a entrada dos (inevitáveis) deslizes da linguagem. No entanto, como se pode ver, não se faz necessária a biografia da autora para tornar viável uma leitura de sua poesia sob a ótica do exílio, pois, a bem da verdade, sua poesia é dispersiva e de temática variada, inconsistente.

É dessa forma, como um “sim” a esse último lado da poeta, que recebemos, em 2006, a tradução de um recorte representativo da obra de Emily Dickinson, publicada pela editora Iluminuras. José Lira, tradutor do livro, deixa claro já a partir do título do volume seu desejo de preservar a poesia da escritora dentro de uma lógica não totalizante, ou melhor, ao intitular o livro de “Alguns Poemas”, Lira demonstra exatamente a obrigatoriedade de uma escolha sempre parcial em se tratando de Dickinson. Nas palavras do tradutor, “é preciso ressaltar que [...] a obra de Emily Dickinson é uma colcha de retalhos, costurada com poemas de grande força lírica e versos de ocasião, resquícios de devaneios juvenis ou meros rascunhos. [...] A grandeza do gênio poético de Emily Dickinson está, em larga medida, nas entrelinhas, nos subtextos e nos não-ditos de uma escrita elíptica, oblíqua, irônica, cheia de sugestões e insinuações. Tem-se a impressão de que algo sempre ‘está faltando’ nessa escrita”.

A divisão do livro em três seções principais – denominadas, respectivamente, “recriações”, “imitações” e “invenções” –, acentua a profusão de temas que caracteriza a inventividade dickinsoniana. Em outras palavras, sabendo que a poesia de Dickinson furta-se a qualquer epíteto descritivo ou temático que se proponha como ponto de convergência inevitável, Lira opta por agrupar os versos em torno de sua própria atividade como tradutor. Segundo comenta Paulo Henriques Britto, colega de profissão que assina o prefácio do livro, “em cada um dos três tipos de versão [“recriação”, “imitação” e “invenção”] temos sempre trabalho criativo e não recuperação de um sentido literal”. Temos, enfim, um experimento que, longe de tornar a antologia apenas mais uma entre as tantas já disponíveis em português, inova em sua maneira de apresentar a célebre poeta ao público brasileiro. Se Dickinson é, como dito, uma poeta do exílio em diferentes sentidos, nada mais adequado que uma edição que se arrisque a buscar formas alternativas de tradução.

Finalmente, para encerrar, vale deixar uma amostra do trabalho de José Lira. Note-se que, dentre outras coisas, os poemas de Dickinson não possuem títulos, e a eles geralmente nos referimos a partir do primeiro verso. Segue, então, a tradução das duas estrofes iniciais do célebre “Because I could not stop for Death” (“Porque não tinha tempo para a Morte”), poema que abre o grupo das “Imitações”:

Because I could not stop for Death – Porque não tinha tempo para a Morte
He kindly stopped for me – Ela gentil veio buscar-me –
The Carriage held but just Ourselves – A Carruagem só levou nós Duas –
And Imortality. E a Imortalidade.

We slowly drove – He knew no haste Fomos sem pressa – a Morte não tem pressa
And I had put away E por dever de Cortesia
My labor and my leisure too, Eu tinha posto o meu Lazer de lado
For His Civility. E o Afã do dia-a-dia.

 

 

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