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A POESIA NEOPARTICIPANTE DE BONVICINO
Por: Sérgio Medeiros*

O poeta paulista lança instigante coletânea de novos poemas

O novo livro do poeta Régis Bonvicino, Página órfã (Martins/Martins Fontes, São Paulo), recentemente lançado, é coeso e claro, atual e nítido. Se para definir isso eu devesse propor um paralelo com a imagem da tv, falaria de uma imagem bem focalizada, bem transmitida. Logo esclarecerei por que recorri acima a essa metáfora da tv.

Várias vezes, lendo o livro, tive a impressão de que um celular ia pelas ruas registrando tudo, mas em imagens de alta resolução. A clareza, insisto, mantém-se, mesmo nas zonas de turbulência do livro, quando o áudio vacila e ouvimos a “antiga” fala em primeira pessoa de um poeta talvez impaciente e ranzinza, que caminha com dificuldade a pé por um terreno acidentado ou imundo da grande metrópole.

Verifico no livro tal urgência em registrar cenas de várias partes do mundo que isso o torna, de certa maneira, e daí esclareço a metáfora da tv usada no primeiro parágrafo, um livro transmitido “via satélite”: nenhum outro procedimento poderia ser mais contemporâneo, pois situa o texto, simultânea e sucessivamente, em recantos díspares do planeta (São Paulo, Cidade do México, Florianópolis, aludida por meio de certas imagens e de um conhecido símbolo gráfico...), alinhando guerra e desfile de moda, festim e miséria, como numa tv ágil e diabólica que mostrasse a vida e/ou a morte contemporâneas. Mas, no livro, essa estética está a serviço de uma visão ácida e crítica, que articula tudo num conjunto evidente e não faz mera justaposição anódina de imagens, anulando, o que seria deplorável, a virulência dos contrastes e promovendo, por exemplo, o mero jorro de imagens sublimes e abjetas, como fazem decerto as outras tvs, os outros canais internacionais, que misturam notícia e entretenimento.

Esse método está bem ilustrado no poema que associa Pound com um crime praticado no metrô por motivos de segurança nacional (clara referência a Londres e ao trabalhador brasileiro morto sem motivo plausível por policiais ingleses). Há, nesse texto, não uma mera contraposição entre o sublime modernista e o abjeto contemporâneo, por assim dizer, mas, acima de tudo, um confronto de procedimento e de vocabulário, de visão poética, mesmo. Sem dúvida a poesia de Régis Bonvicino é bastante imagista, daí a oportuna presença do Pound, porém, nela, o abjeto pode predominar, por meio da imagem violenta, e aí tudo desce, desfaz-se, perde a grandeza. Tudo se acanalha, não há saída. Cito o poema “In a station of the metro”, no qual a tradução em português funciona como uma legenda “errada” para a imagem pura do poeta norte-americano (A aparição dessas faces na multidão, pétalas num galho molhado e escuro):

“The apparition of these faces in the crowd;

Petals on a wet, black bough.

Abruptos tiras ocultos na multidão;

Tiros na nuca, um corpo espúrio no chão.”

O poema que mais me emociona, ou que me emociona muitíssimo, dessa vasta série de textos escritos entre 2004 e 2006, é aquele sobre o lobo-guará, "Extinção". Citarei três estrofes dessa composição antológica:

“O lobo-guará é manso

foge diante de qualquer ameaça

é solitário

avesso ao dia, tímido

(...)

às vezes, quando está perdido,

vasculha latas de lixo nas ruas

engasga ao mastigar garrafas

de plástico ou isopores

se corta e ou morre ao morder

lâmpadas fluorescentes

ou engolir fios elétricos

morre ao lamber inseticidas”

Mas também me surpreende muito a justaposição complexa de mendigos, captados casualmente pela câmara do celular, digamos assim, durante deambulações pela cidade grande, a modelos famosas, registradas pelas lentes das máquinas profissionais, cujas imagens construídas, belas e já rotas, cobrem os outdoors. De repente, entre os mendigos, surge uma modelo internacional sublime, mas ela, ou sua imagem, logo se avacalha. Esse jogo de justaposições inusitadas e violentas, para mostrar a degradação contínua da paisagem urbana e a impossibilidade de propor, ao falar dela, uma síntese total, completa, dá um fôlego invejável ao conjunto do livro.

O poeta tradicional, ou popular, falsamente ingênuo, está nas repetições de palavras, de versos, mas se impõe logo o poeta-câmera, o poeta-celular, o poeta-satélite, que descreve o que vai vendo pelas esquinas do seu cotidiano e do mundo. Celebra-se aqui, para voltar a Pound, o poeta como antena da raça.

Acho que a poesia neoparticipante de Régis Bonvicino, um poeta que, como já fazia Maiakovski, escreve andando, mas olhando sobretudo para “o baixo” do século 21, traz essa marca do poeta-antena -- sempre tem mais alguma coisa para captar ou dizer "na próxima linha", o poema não acaba, as cenas ressurgem, tudo volta de roldão, criando enorme massa de cenas, vozes, a ponto de nós, leitores, quase nos sentirmos sufocados ou atordoados (há, decerto, alguma monotonia no livro, uma monotonia necessária, acredito: o reprimido, ou o imundo, que se calca ao caminhar, se expõe, se espalha e se repete, acompanhando os passos, pois gruda-se às solas quanto mais essas se movem), mas respiramos, porque, ironicamente, como numa matéria urgente de um correspondente internacional de uma rede de prestígio e de alta tecnologia, tudo é bem editado, tudo é tão nítido quanto possível.

Como grande consumidor de imagens, considerei o livro um grande espetáculo, apesar dos horrores que mostra. Acredito que há, o tempo todo, nesses versos à primeira vista simples, alguém em algum lugar do mundo tentando, como o lobo-guará, “fugir do ataque, cada vez mais inevitável”. Não raras vezes o ataque já ocorreu. Por isso mesmo, caberia concluir, a “tradução” que Régis Bonvicino oferece ao leitor atual do dístico de Pound é muito justa, justíssima.

O leitor vai achar que tanta agonia gera necessariamente um êxtase invertido, um êxtase às avessas. Achará que a precisão é o único consolo que nos resta -- ver tudo nitidamente. Pelo menos isso!. Mas descobrirá então uma enorme ironia e uma crítica feroz em tudo. Sentir-se-á desconfortável, no mínimo, diante da “coragem da poesia”, para usar uma locução cara a um grande leitor de poesia, morto recentemente, Philippe Lacoue-Labarthe.


*Sérgio Medeiros é poeta, tradutor e professor de literatura na UFSC

 

 

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