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OS NOMES MÁGICOS
Por: Júlia Studart*

O que são e quem são os cães? Para que servem os cães quando por perto dos homens, ao lado, como companheiros de viagem, de morada, de vida? Desde a idéia mais simples, mais cotidiana, quase um dito popular, de que o cão é o melhor amigo do homem, talvez apenas porque lhe seja muito servil, e diferente dos gatos, por exemplo, que também num olhar cotidiano parecem saber onde pisam e, quando aparentemente domesticados, tomam a posse do homem e lhe imprime ordem e maneiras de quando e como as suas vontades; até uma outra idéia menos simples, de que haveria um cão no homem, dentro do homem. Assim, o quanto poderia o cão no homem? São perguntas, talvez, a partir do que se sabe como convivência, troca, estados de percepção etc.

A editora 34 acaba de lançar Histórias de Bulka, de Lev Tolstói e O cão fantasma, de Ivan Turguêniev, que são pequenos e charmosos livrinhos, ambos traduzidos por Tatiana Belinky e ilustrados por Ulysses Bôscolo. Além de seu já importante trabalho como tradutora, Tatiana Belinky foi, de certa forma, quem primeiro fez experiências com adaptações de clássicos infantis para a televisão, trabalho reconhecido também ao fazer o roteiro de inúmeras obras literárias, entre elas o do seriado do Sítio do Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato, numa boa leva de anos. O seu primeiro livro, A operação do Tio Onofre, publicado em 1985, é hoje o mais conhecido entre os seus cerca de 130 títulos publicados. Lembro que eu tinha apenas seis anos quando este livro me caiu nas mãos pela primeira vez, lido muitas e repetidas vezes como um encantamento. O livro conta da pequena e esperta Talita que dava nome de gente às coisas da casa como, por exemplo, a poltrona que é a Vó Gordona, o armário que é o Doutor Mário ou o cofre, o Tio Onofre; nomes que fazem parte das memórias mais afetivas e mágicas que tenho da minha infância.

E esses livros, de Tolstói e Turguêniev, dizem, de alguma forma, dessa convivência entre o homem e o cão; uma espécie de convivência do homem com um seu si mesmo, com um seu outro; se de fato, como é o caso de Tosltói e Bulka, um cão mordachka. Os desta raça, diz-se em nota no livro, são uma espécie de mastim russo, e é uma raça extinta. Diz-se que o último da espécie pertenceu ao canil do czar, que foi destruído na revolução bolchevique, de 1917. O livro de Tolstói narra pequenas aventuras de Bulka e também de um outro cão, Milton, que pertenceram ao autor em sua juventude quando viveu no Cáucaso, e foi publicado pela primeira vez em 1872: “Arranjei para a caça aos faisões um cão peludo setter. O cachorro chamava-se Milton. Era alto, magro, cinza-malhado, de orelhas compridas e muito forte e inteligente. Ele e Bulka não brigavam. Nenhum cachorro jamais rosnou para Bulka. Bastava ele arreganhar os dentes, e o outro cão encolhia o rabo e se afastava”.

Já O cão fantasma, de Ivan Turguêniev, numa outra maneira, uma construção fabulosa do imaginário, diz de um cão suposto, que não existe, mas que como sombra o faz depois ter um cão de fato, Tresor, que lhe salva a vida: “(...) um filhote de dois meses de idade, pêlo castanho, beiços e patinhas da frente brancos”. O livro conta a história de uma reunião de amigos que discutem fervorosamente a existência ou não do sobrenatural, até que um pequeno proprietário rural de Kalunga, recém-chegado a São Petersburgo, começa a narrar sobre uma possível experiência sua sobrenatural. O fato é que um cão assombrado aparecia todas as noites em seu quarto; diz: “e é certo que é um cachorro: ouve-se muito bem como ele respira, como raspa o pêlo com os dentes, procurando pulgas... (...) E digo-lhes, cavalheiros, acreditem ou não, mas o fato é que desde aquela noite, e durante seis semanas, a mesma história se repetiu comigo”. As aparições do cão fantasma apenas tiveram fim quando o pequeno proprietário, aconselhado por um homem um tanto misterioso, e um outro tanto vidente, adquire o pequeno Tresor, um cão que virá a dar a vida para salvar o seu dono e amigo.

O cão, nestes autores, cada um a sua maneira, mais rude ou mais delicada, é uma morada da experiência afetiva, um afeto para além do homem e de sua condição singular e disforme de humanidade. Bulka, o cão amigo da historinha de Tolstói, é antes de tudo um bom exemplo desta experiência afetiva como memória. E imediatamente ao ler o nome dos cães que aparecem nestas narrativas, Bulka, Milton e Tresor, remeto ao bonito texto de Giorgio Agamben, “Magia e felicidade”, que está em seu livro Profanações, quando comenta sobre os nomes secretos e de certa instância mágica que seria, essencialmente, uma ciência dos nomes secretos, ou ainda uma marca do gesto, no sentido de uma inscrição (imaginação?) invisível e mágica. Diz Agamben que a capacidade de se fazer magia ou de se inventar nomes mágicos é algo próprio da infância: “Uma criança nunca está tão contente como quando inventa uma língua secreta”. O nome Bulka, o nome Milton, o nome Tresor, além de serem uma memória afetiva de Tolstói e Turguêniev, é ainda, e muito, nomes secretos, destes que colecionamos desde a infância e que quase sempre nomeiam nossos primeiros, e mais generosos, afetos. Como o exercício da pequena Talita ao nomear os seus objetos-seres-amigos-imaginários. Ler estas pequenas narrativas é abrir um possível encontro com a nossa capacidade (aparentemente perdida) de fazer magia.


*Júlia Studart é mestranda em Teoria Literária, UFSC, e autora de Wittgenstein e Will Eisner – se numa cidade suas formas de vida (Lumme Editor, 2006)

 

 

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