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Florianópolis, 29 de Setembro de 2007 SOB O SOL, SOB A LUA: UMA LENDA Por: Dirce Waltrick do Amarante* Folheando um livro sobre os citas, um povo nômade que habitava a região da Eurásia, por volta dos anos 700 a.c., Cynthia Cruttenden viu a figura de um lobo e de uma serpente, os quais, segundo ela, “pareciam lutar”. Essa imagem lhe serviu de inspiração para escrever Sob o sol, sob a lua (Cosac Naify, 2007), publicado numa coleção destinada ao público infanto-juvenil. Num primeiro momento, o livro de Cruttenden nos faz acreditar que estamos diante de uma lenda cita, a qual reconta as lutas desse povo, notório na arte da guerra, através da figura de dois animais bastante emblemáticos, uma cobra e um lobo, que travam uma batalha: “Mas quando o sol caiu .../... e a lua subiu,/ a cobra e o lobo.../ ...se encontraram.../e lutaram”. Mas não é só isso, a sua forma narrativa também apresenta elementos característicos desse gênero literário, como, por exemplo, uma certa atmosfera religiosa e uma ação que, embora se desenrole no plano lógico, contém forte elemento sobrenatural: “O lobo e a cobra descansaram .../ ... e sonharam./ Então, naquele dia, não teve lua nem sol.../... teve lobo e cobra no céu”. Portanto, mesmo que, ao final do livro, a escritora afirme categoricamente que a história foi inventada por ela, o leitor ainda assim poderá resistir à idéia de que não esteja realmente diante de uma verdadeira lenda cita, que foi transmitida de geração para geração. Se a lenda foi imaginada pela escritora – e a imaginação é “um sonhar de olhos abertos ou dormindo, vazio e desprovido de verdade”, como diz Hegel –, ela nasceu, contudo, de uma imagem real: um lobo e uma cobra gravadas em ouro num objeto cita, imagem que poderia ser interpretada como uma alegoria desse povo. Sobre a veracidade ou não da história de Cynthia Cruttenden, sabe-se que a lenda, como toda literatura oral, quando escrita, precisa de um intérprete que lhe dará um tom próprio e, em alguns momentos, irá reinventar o enredo. A esse respeito, a estudiosa Lúcia Sá, ao se referir à lenda indígena de Jurupari, afirmou que, ao redor dela, se criou uma polêmica, já que alguns a vêem como uma invenção do conde Ermano Stradelli, responsável pela compilação dessas narrativas amazônicas, no início do século XX. A voz de Stradelli está, decerto, nesta lenda quando descreve, por exemplo, uma estátua “‘como tendo um sorriso malicioso nos lábios’ – uma descrição que se assemelha mais a Boccaccio do que ao restante do texto”, como lembra Sá. Aliás, Macunaíma, de Mário de Andrade, também é, de certa forma, uma invenção do escritor modernista, já que o herói que ele descreve não é o Makunaína (com k), o herói cultural dos Pemon, mas Kaláwunség, outra personagem com características de trickster (malandro). Diferente da atuação de Makunaíma, todavia, as mentiras de Kaláwunség não têm significado positivo nenhum, elas só se prestam para irritar os outros personagens. De fato, na literatura oral e nos seus desdobramentos escritos não existe uma versão oficial, nem tampouco a preocupação em se ter uma. Como ela é feita na base da memória e da recriação, cada nova versão será diferente da anterior. Mas, no contexto oral pelo menos, toda versão é legítima, ou seja, a história é exatamente aquilo que o narrador conta naquele momento. A lenda de Cynthia Cruttenden também foi recriada inúmeras vezes, antes de sua versão escrita: “Fiz e refiz este livro inúmeras vezes (...) O lobo e a cobra mudaram muito”. Independente do fato de a história de Cynthia Cruttenden ser ou não uma legítima lenda cita, sabe-se que, segundo Theodor Adorno e Max Horkheimer, “todo animal recorda uma desgraça infinita ocorrida em tempos primitivos”. Sob o sol, sob a lua talvez tenha se fundado nesse princípio. Contudo, o animal, por não ter razão, também não tem palavras, logo cabe ao homem, o detentor da razão, contar aos leitores a sua história. Adorno e Horkheimer afirmam que, “para o animal, o transcorrer do tempo, que não é interrompido pelo pensamento libertador, é sombrio e depressivo. Para escapar do vazio lancinante é necessário uma resistência cuja coluna vertebral é a linguagem”. Coube a Cynthia Cruttenden libertar o lobo e a cobra de suas tumbas, coube à autora tirar-lhes do exílio eterno da falta da razão, quando se identificou com eles e, segundo os mencionados filósofos, descobriu a “fórmula salvadora”, com a qual abrandou “no fim dos tempos o coração de pedra da eternidade”. Do mesmo modo, coube à autora recontar, através de sua lenda, inspirada numa gravura cita, a história desse povo. Levando-se em conta a opinião de Jacques Rancière, segundo a qual “o estatuto da história depende desta dupla ausência da ‘própria coisa’ que não está mais lá – que é o que passou e que jamais foi – porque ela jamais foi tal como foi dito”, poder-se-ia dizer que Cynthia Cruttenden contou a história cita a partir justamente dessa dupla ausência. A sua história se fundaria na sua condição de impossibilidade, que surge na “figura das palavras assassinas”, de acordo com Rancière, mas que, ao mesmo tempo, é o que a tornaria possível. Em Os nomes da história, Jacques Rancière diz, citando Michelet, que “o historiador é um Édipo”, ou seja, é “um libertador de almas”, sendo as almas entendidas aqui como “estes habitantes dos Infernos que gemem por sua condição de sombras e suspiram pelo sangue da vida terrena”. Cynthia Cruttenden faria, em Sob o sol, sob a lua, o papel de Édipo, ao tirar as almas dos citas da sombra e ao tentar explicar o enigma desse povo, através da interpretação de uma de suas gravuras. Pode-se então dizer que Sob o sol, sob a lua nos aproxima, com a sua “falsa” lenda, da história dos citas, história essa que se originou de uma gravura de um lobo e de uma cobra, gravados em algum objeto desse povo. Mas, no momento em que a escritora transforma o reino das imagens em reino dos nomes, no momento em que dá nome aos animais, ela estabelece domínio sobre eles e os torna ideais para si, a ponto de transformá-los, paradoxalmente, em sua própria memória (“no nome é anulada a realidade por si existente do signo”, como nos fala Giorgio Agamben, citando Hegel). Uma outra característica do livro que nos faz pensar na história de uma civilização passada é a sua ilustração. Cynthia Cruttenden, que é artista plástica, criou dois carimbos para ilustrar o seu livro: um carimbo representa o sol e a cobra e, o outro, a lua e o lobo. Os desenhos atuariam como inscrições rupestres que, depois de interpretadas, deram origem à narrativa de Sob o sol, sob a lua. Obviamente, as impressões acima são de um leitor adulto, mas a lenda, como toda literatura oral, embora sob o domínio dos mais velhos, tem como maiores interessados as crianças, dentre outras razões, devido ao elemento fantástico dessas narrativas, que recriam um universo que lhes é bastante familiar. *Professora de Literatura Infanto-Juvenil na UFSC, onde desenvolve pesquisa de pós-doutorado júnior como bolsista do CNPq.
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