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Florianópolis, 09 de Outubro de 2007 UM BARCO REMENDA O MAR - DEZ POETAS CHINESES CONTEMPORÂNEOS Por: Aurora F. Bernardini* Como acontece em geral com todas as artes, um pouco de iniciação é importante para a sua melhor compreensão e conseqüente fruição. Há tempo tinha lido um livrinho muito esclarecedor de François Cheng, A escritura poética chinesa (Seuil, Paris, 1977), e diante do impacto da leitura dos poemas de Bei Dao, o primeiro e mais consagrado poeta de Um barco remenda o mar – Dez poetas chineses contemporâneos, a coletânea bilíngüe organizada por Yao Feng e Régis Bonvicino, editada pela Martins e recentemente lançada na 13a Bienal Internacional do Rio de Janeiro, resolvi retomá-lo. Yan Li ( 1954), emigrado nos EUA em 1985, com o circular “Devolvam-me” e o afiado “Anzol”, que acaba por devorar a si próprio; Yu Jian (1954), conhecedor da Europa e dos EUA, com sua “Tempestade”, em que transfunde, modernamente ou pós-, cabelos, pele branca, fita cassete e uma pintura a óleo, e a sua complexa “Rosa”-mosca-ave migratória-treva do mundo; Gu Cheng ( 1956), emigrado para a Nova Zelândia e suicida, que circunscreve sua “ Origem” e seu “ Adeus” nos sintomáticos contrários de “ Longe ou perto”; Hang Dong (1961), agora publicado oficialmente na China, com o significado secreto de “Tua mão”, e Xi Chuan ( 1963), hoje morando em Pequim , com o surreal de “ A cidade onde moro” e o nonsense de “O céu estrelado em Haergai”. Finalmente, Yao Feng, o tradutor macauense de Fernando Pessoa e coordenador/co-tradutor dessa coletânea. Em português ele escreve “ pictogramas” como este, inédito antes dessa publicação: Às vezes/quero ser.../Às vezes/quero estar.../Às vezes/quero estar ... e ser.../Juntam-se/ todos os meus sentidos/moeda/ em movimento/Sei que se vai extinguir/ Não sei o que vai ficar/ . Nele, justamente, se nota a ligação pintura-poesia, que foi sempre muito intensa, na China, desde há três mil anos. O próprio Yao Feng, no texto do apêndice “ Encontro de línguas: os desafios da tradução”, fornece pistas preciosas para a compreensão da poesia chinesa, e em particular da de Bei Dao ( 1949), que ele também, como Régis Bonvicino na lúcida Introdução, considera o maior poeta chinês da atualidade e a ele refere a frase de Otavio Paz: A Poesia que se encarnou na História. Há motivos para tanto: Dao serviu na Guarda Vermelha, indispôs-se com a Revolução, foi reeducado, foi fundador da revista extra-oficial Hoje, ridicularizada pelo establishment literário chinês por sua linguagem obscura e, em 1989, foi acusado de incitar a revolta estudantil na praça da Paz Celestial porque os versos de um de seus poemas estavam nos estandartes dos manifestantes. Ora, muito bem. Se em “Mapa negro”, ou em “ Junho”, ou em “ Cantiga da estrada, a história de seu regresso à pátria dezessete anos depois explica suas imagens cortantes, a mesma já não mais nos basta para que entendamos, por exemplo, por que /a morte lança sementes no zênite/ ( em “Ramalá”), por que há /rumores de falhas /como o sol da manhã/ ( em “ Céu claro”) ou por que /em outubro sobre a retórica/o vôo é visível em toda parte/ e / soldados de neve removem seus disfarces / e tornam-se linguagem/ ( em “ Sem título”). A resposta, conforme explica o oportunamente lembrado François Cheng, parece estar justamente ... na linguagem. Sabemos todos que, na China, ela se expressa caligraficamente por ideogramas. O que eu não sabia é que dentro de um ou mais caracteres que compõem cada ideograma o poeta pode fazer surgir, dos múltiplos estratos gráficos, múltiplos sentidos. Num ideograma como “ na ponta dos ramos, flores de ibisco”, no caractere “ ramo” e no caractere “ ibisco”, pode ser descoberto, graficamente, o elemento “ homem” que – conforme explica Cheng – pode ser interpretado como o homem se introduzindo em espírito no arbusto. Com máxima economia e sem recorrer a comentários externos, o poeta faz reviver a nossos olhos uma experiência mística, em suas etapas sucessivas e com imagens ditadas pela própria fatura do ideograma. Daí a sua misteriosa riqueza, e muitas vezes, para nós ocidentais, sua desafiadora impenetrabilidade. *Aurora Bernardini
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