|
Florianópolis, 23 de Outubro de 2007 A LIÇÃO DO MESTRE Por: André Cechinel* “A Fera na Selva”, de Henry James, nos coloca frente a frente com as diferentes possibilidades de enfrentar a fera que se oculta à espreita. Apesar de sua intensa atividade como ensaísta, o poeta anglo-americano T. S. Eliot pouco se pronunciou acerca da obra de Henry James, fato que nos surpreende até mesmo pelo semelhante modo como ambos os escritores se posicionaram em relação à tradição literária que os precedia. Seja como for, cabe notar que, entre suas breves considerações, Eliot atestou em um dado momento que “Henry James não nos concedeu somente ‘idéias’, mas sim toda uma outra concepção do que seja pensar ou sentir”. Ora, a afirmação tem seu peso, ainda mais se levarmos em conta a conhecida rigidez de Eliot em seus escritos. Seja como for, talvez o autor de “The Waste Land” refira-se principalmente ao mundo fantasmático criado por James em narrativas como “A Volta do Parafuso”, “A Vida Privada”, "A Esquina Feliz”, entre tantos outros. O último texto mencionado, por exemplo, nos coloca a par da dúvida de Spencer Brydon, um homem que, após passar 33 anos vivendo na Europa, retorna a Nova Iorque e se pergunta insistentemente sobre quem teria sido se houvesse ali permanecido durante esse tempo. Sem cair em biografismos, vale lembrar, aliás, que Eliot e James compõem o vasto grupo dos literatos americanos que decidiram morar na Inglaterra. De qualquer forma, essa “outra concepção do pensar ou sentir", da qual Eliot nos fala, pode ser perfeitamente compreendida na novela “A Fera na Selva” ("The Beast in the Jungle), antes conhecida no Brasil pela tradução de Fernando Sabino (Rocco) e agora publicada pela Cosac Naify na tradução de José Geraldo Couto (edição especial comemorativa dos dez anos da editora). Frequentemente lida como representativa de uma “renovação da história de amor” – tal como o faz Modesto Carone no posfácio que assina para a edição –, a narrativa breve de Henry James nos fala do percurso de John Marcher, personagem conhecido pelo curioso fato de que, a rigor, nada de especial lhe acontece na vida. Na verdade, aí está o paradoxo fundamental da novela: Marcher possui a convicção de que algo de "prodigioso e terrível" lhe aguarda, e, como método de enfrentamento, opta pela espera contínua. Desse modo, o personagem espera tanto e com tamanho afinco que, durante sua vida, deixa de perceber o pouco de especial que lhe estava reservado. É nesse sentido que penso que “A Fera na Selva" pode ser lido, também, como um texto sobre dois modos de espera: a espera como expectativa e a espera como acúmulo. Para o entendimento da questão faz-se necessária, antes, uma introdução ao relato. A cena que abre o texto nos leva ao revelador reencontro de John Marcher com May Bartram, muitos anos após travarem conhecimento na Itália, ou, mais especificamente, em Nápoles. A lembrança que Marcher tem desse primeiro contato com May é bastante nebulosa – pensava tê-la encontrado em Roma, não em Nápoles, e pouco recordava do que lá havia se passado –, ao passo que May lembrava de absolutamente tudo, pois o encontro havia sido, para ela, inesquecível, um verdadeiro ponto inaugural em sua vida. Em poucas palavras, apesar de não lembrá-lo, Marcher havia então revelado a May seu segredo maior, relacionado à contínua espera pelo grande acontecimento, pela coisa em si, dia em que a fera, sempre à espreita na selva, enfim se revelaria e o atacaria. Conforme havia notado no passado, esperar tal evento incluiria, logicamente, abrir mão de uma série de coisas, inclusive de uma vida amorosa estável – afinal de contas, um cavalheiro nunca submeteria sua dama ao ataque da fera, que, embora sem data marcada, certamente viria. Finalmente, quando questionado por May se o dia da grande ocasião já havia chegado, Marcher revela que não, que continuava aguardando “a coisa mais profunda”. Interessada por tal evento, May decide acompanhar Marcher em sua espera, ainda que o último exija dela um certo afastamento, para melhor preservá-la da gravidade do episódio vindouro. O tempo passa e, como era de se esperar, a dia do grande evento parece não se aproximar – ao menos não da maneira como Marcher o concebe. Quem se aproxima cada vez mais, entretanto, é May, que se coloca como auxiliar do primeiro na tentativa de fazê-lo “passar por um homem como qualquer outro”. É ela quem, ao lado dele, entrega-se "à própria lei”, coloca-se no “colo dos deuses”, muito embora sua cumplicidade não se consolide em uma relação concreta entre os dois. Certo dia, passado algum tempo, May fica doente, e é nesse momento que se dá a grande virada do conto: Marcher fica sabendo, através da fragilizada May, que o dia do grande evento já passou e ele sequer percebeu. Aquilo que seria o grande ataque, dia da aparição da coisa em si, já havia ocorrido, e Marcher estava ali, parado, estático como sempre. Ele insiste em perguntar o que fora esse acontecimento, o que poderia ter sido isso que ele sequer notou, mas a doente parece decidida a não lhe revelar facilmente a resposta. O que resta a Marcher, após a morte de May, é o fato de que ao menos ela sabia o quão especial ele havia sido, somente ela sabia do ataque da fera e de sua tão longa espera. É a isso que ele se apega, passando longas horas no cemitério junto da laje onde jazia sua cúmplice – único local onde sentia, pois, ter valido todo o seu aguardar. É em uma dessas estadias no cemitério, junto ao segredo que partilhava com May, que Marcher avista um estranho, cujas feições muito lhe chamam a atenção: “Marcher reconheceu nele, de imediato, alguém profundamente atingido – uma percepção tão aguda, que nada mais na sua figura se impôs, nem a roupa, a idade, o presumível caráter (...). Que é que o homem teria tido, cuja perdão fazia sangrar assim e ainda viver?”. A partir dessa pergunta Marcher finalmente faz seu primeiro movimento; é a partir da visão de uma face destruída, marcada pelas dores de uma perda, que ele entende, então, qual fora sua grande derrota. Retrospectivamente, Marcher nota que a fera havia sim atacado, não apenas uma, mas várias vezes, impedindo que ele percebesse a presença daquela que, ao lado dele, se colocara fielmente para enfrentar todos os obstáculos, inclusive os que só ele percebia. O personagem desperta para o horror maior: ter passado a vida inteira esperando passivamente por aquilo que veio e não foi avistado. As marcas do outro homem contrastam vivamente com a sua espera anterior, cheia de precauções e reservas. Ao contrário do desconhecido, riscado de tanto sofrer, Marcher soube somente criar expectativas, não agir efetivamente. Retomando a fala de Eliot, Henry James nos mostra aqui um outro mundo de sentimentos, no qual a espera que se coloca de modo hesitante é confrontada com a guerra que se dá diariamente. A lição do mestre parece relacionada ao fato de que a fera está e sempre estará à espreita, e a melhor maneira de combatê-la é, por vezes, esquecer do próprio combate, ou então armar-se com a experiência que só pode ser conquistada através do próprio confronto. Tudo o que Marcher fez foi contrariar seu próprio nome, uma vez que Marcher, em inglês, nos dá uma forte idéia de movimento. O que ele deveria ter feito? Acumular cicatrizes, para assim assustar a fera. *André Cechinel é doutorando em Literatura pela UFSC.
|
|||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||