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Florianópolis, 15 de Novembro de 2007 MINHA DESCOBERTA DA AMÉRICA Por: Aurora Bernardini* Vladímir Maiakóvski ( trad. Graziela Schneider ) Ed. Martins – Martins Fontes, São Paulo, 2007 Para uma época em que está tão em voga a assim chamada “ literatura de viagem” aqui está um livrinho excepcional: Minha Descoberta da América, do poeta-jornalista-roteirista-performer Vladímir Maiakóvski( 1893-1930), editado pela Martins Editora, na tradução direta do russo de Graziela Schneider. Conhecido por seus versos sintéticos (no seu último poema “A plenos pulmões”- traduzido por Haroldo de Campos - ele explicava: /é tão fácil/alinhavar romanças/mas eu/me dominava/entretanto/e pisava/a garganta do meu canto); também em prosa ele pratica, agora, essa essencialidade tão atual de quem pressente que não tem tempo a perder: publicado o livro logo após sua viagem de seis meses (1925-26) à França, Cuba, México e EUA (Nova York e várias cidades), ele haveria de morrer pouco depois, em 1930. Assim, numa anedota arguta de poucas linhas ele é capaz de encerrar páginas de comentários, como a que fala da Cidade do México: Pela cidade, à noite, um monte de disparos. A polícia que acorre, nem sempre desvenda o assassinato. O presidente ordenou que não permitam a entrada no jardim do palácio quando está escuro e que disparem na terceira advertência.Não se esquecem de disparar. Só que às vezes se esquecem de advertir. Ou então, um de seus “apanhados”, em Nova York: Cada um almoça conforme o salário mensal. Os de 15 dólares compram lanche seco que custa um níquel e o roem com toda a aplicação dos jovens. “Eu escrevo infiel, mas semelhante”, diz ele no episódio dedicado a Detroit, onde é levado à fábrica da Ford, que visita após a leitura ( por ele comentada entre parênteses), do breviário do proprietário, Minha vida, minha obra. Veja-se tão somente um trecho: “ O próprio Ford diz : o objetivo de minha teoria é fazer do mundo uma fonte de alegria [ socialista!]; se não aprendermos a empregar melhor os carros, não restará tempo para nos deleitarmos com árvores e pássaros, flores e prados. O dinheiro é útil tão-somente na medida que contribui para a liberdade da vida [do capitalista?]; Se você servir em favor do próprio serviço, em favor da satisfação de perceber a justeza do negócio, então o dinheiro aparecerá para dar e vender [não percebi!]”. Depois de várias considerações pertinentes, sobre a limpeza, a organização , o controle, a técnica a prevenção de acidentes, a hierarquia dentro do sistema, etc. ( Maiakóvski faz questão de comentar o que lhe agrada e o que desaprova), ele entrevista operários que lhe confidenciam: “Seu sistema quer se fazer passar por um sistema de horas (jornada de trabalho de oito horas) , mas na verdade não passa de um trabalho pago por produção.” De fato, no final da jornada , o poeta repara nos operários saindo pelos portões da Ford: - as pessoas desabavam no bonde e ali mesmo pegavam no sono, extenuadas. E conclui: Em Detroit há a maior taxa de divórcios. O sistema de Ford torna os operários impotentes. Claro está que entre as tarefas ( Maiakóvski chama assim a seus trabalhos literários) que ele se propõe está a de levantar os contrastes, velados ou patentes, entre o socialismo incipiente de que ele era representante e o capitalismo reinante nos EUA, mas não deixam de ser observações objetivas e, muitas delas válidas, ainda hoje. Vejam-se, por exemplo, algumas conclusões de seu livro, sobre os EUA: 2º.A divisão do trabalho que aniquila a qualificação humana. A inteligente bipartição da classe operária em ordinários e privilegiados. Tudo isso e a terrível palavra “ deportação” afugentam para bem longe qualquer esperança sólida de explosões revolucionárias. 3º.A América engorda. Os empréstimos, os depósitos geram pouco a pouco a crença de que é preciso desvelar-se sobre os lucros e não sobre o trabalho. A América se tornará apenas um país financeiro e usurário. Se comparadas com o que diz hoje de seu país Noam Chomsky (entrevistado pela Cult de Agosto 2007), veremos que as semelhanças continuam: À conclusão, entretanto, não completamente pessimista de Chomsky: “ É mais fácil confrontar o consumismo que as câmaras de tortura, fato às vezes esquecido”, o tiro que Maiakóvski se dá, em 1930, já no regime stalinista instalado, talvez seja uma réplica das mais eloqüentes. *Professora de russo na USP, ensaísta e crítica literária
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