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Florianópolis, 22 de Maio de 2008

O PESO DE MOBY DICK
Por: André Cechinel*

 “Moby Dick” estrutura-se sobre um rigoroso tratado de cetologia, que confere à narrativa um caráter híbrido.


O relato é velho conhecido, ao menos tal como popularizado pelas diversas edições adaptadas, destinadas ao consumidor “sem tempo a perder” – mais vale assim chamá-lo, pois sabemos muito bem que as edições facilitadas causam fervor não apenas entre o público dito infanto-juvenil. Resumidamente, “Moby Dick, ou A Baleia” (1851), de Herman Melville, narra a derradeira viagem do navio baleeiro Pequod, comandado pelo vingativo Capitão Ahab, em busca da baleia branca Moby Dick. Cabe explicar: em sua viagem anterior, Ahab, experiente baleeiro, havia sido confrontado pelo poderoso Moby Dick, encontro este que resultou na perda de uma de suas pernas; tomado pelo desejo de vingança, Ahab não consegue pensar em outra coisa senão na morte da baleia, e é justamente esse impulso assassino que o leva a capitanear o navio Pequod. O desfecho do livro é igualmente célebre: em seu pensamento obsessivo, Ahab confunde-se repetidas vezes com a própria baleia que deseja matar, pois, para ele, não há nada no mundo que não remeta à vida de Moby Dick e à perda de sua perna. É nesse sentido que segue a tese exposta por Deleuze - "Ahab não imita a baleia, ele torna-se Moby Dick, [...] e golpeia-se a si mesmo ao golpeá-la". Ora, se Ahab já não se diferencia de Moby Dick, fazendo da baleia a razão da sua vida, golpeá-la significa, pois, golpear-se a si mesmo. Como era de se esperar, o terceiro dia de conflito com a baleia (o terceiro dia de um homem) resulta na morte do Capitão do Pequod. Porém, como adiantado, essa é apenas a superfície sobre a qual se estrutura o livro de Melville.   

Os leitores da nova tradução de Moby Dick para o português, publicada pela Cosac Naify, poderão voltar-se precisamente para os pontos do livro que dão sentido à caçada liderada pelo capitão Ahab, uma vez que, a bem da verdade, muito mais do que uma mera aventura fantástica, “Moby Dick, ou A Baleia” é um verdadeiro tratado náutico, marcado por uma mistura infindável de gêneros literários, fato esse que traz a obra inclusive para perto da experiência de Joyce em Ulysses. A nova tradução (o texto já havia passado pelas mãos de Monteiro Lobato, Berenice Xavier e Péricles Eugênio da Silva Ramos) conta com o trabalho conjunto de Irene Hirsch (que em 2005 publicou sua tradução do conto “Bartleby, O Escrivão” pela mesma editora) e Alexandre Barbosa de Souza, responsável pela pesquisa de vocabulário náutico preparado para a edição. Além do cuidadoso trabalho dos tradutores, o volume apresenta três estudos clássicos sobre a obra maior de Melville, assinados respectivamente pelo amigo do autor, Evert Duyckinck, pelo romancista inglês D.H. Lawrence e pelo crítico F.O. Mathiessen, especialista, dentre outros, na obra de T. S. Eliot. O último, por exemplo, observa o peso que a leitura de Shakespeare exerceu sobre a narrativa de Melville, dando voz novamente às diferentes textualidades que ali convivem.

A rigor, essa mistura textual pode ser lida no modo como o livro alia a descrição do itinerário percorrido pelos tripulantes do Pequod – as aventuras de Ahab propriamente ditas –, à necessidade de fornecer elementos específicos acerca de tudo o que está envolvido na pesca de baleias. Dessa forma, o texto varia do sermão religioso ao cientificismo mais enciclopédico, detalhados sempre a serviço dos episódios relatados ao longo dos 135 capítulos que compõem o livro. Em “Moby Dick”, Melville literalmente mistura o academicismo mais rigoroso com o lado aventureiro característico da vida a bordo de um navio, o que resulta em um texto de fato híbrido, muito antes de o conceito estar na moda. Ora, a princípio, desprovidos das explicações presentes nos capítulos do livro, poderíamos considerar absurda a própria idéia principal da narrativa, pois, afinal de contas, em meio a tanta água, como poderia o capitão Ahab localizar a baleia Moby Dick? Se sua busca era tão particular, e se Moby Dick raramente era avistado, como poderia o experiente capitão localizar sua presa? Com efeito, tal questionamento é levantado pela própria narrativa, e a resposta está ali mesmo presente, no capítulo 44, intitulado “The Chart” (algo como “Carta de Navegação”): nesse trecho, o narrador nos fala das linhas que Ahab traça em seus mapas náuticos para calcular precisamente onde se daria o momento do encontro com Moby Dick. Em outras palavras, através de um rigoroso cálculo das correntes marítimas, o exímio capitão seria capaz de antecipar aproximadamente o local de encontro com o poderoso leviatã. Em suma, Melville ultrapassa os limites dos gêneros, complica as divisões, ficcionaliza os dados e cria, como resultado, um verdadeiro tratado de cetologia.    

A narrativa de “Moby Dick” se dá em primeira pessoa, mas o próprio estatuto do narrador parece uma vez mais complicar os limites entre ficção e realidade. A famosa primeira frase do livro de Melville, “Call me Ishmael” (traduzida agora por “Trate-me por Ishmael”), nos coloca a par de um narrador que parece por vezes simplesmente se ausentar dos eventos, possivelmente com o intuito de torná-los menos parciais; contudo, a frase de abertura parece nos dizer, ao mesmo tempo, que Ishmael, além de um verdadeiro "outsider", nos relatará somente o que desejar, isto é, Ishmael é um nome emprestado, que pode falar de eventos que, a rigor, nenhum membro da tripulação do Pequod poderia ter testemunhado. Ishmael é o único pescador a bordo do Pequod que permanece vivo no final da narrativa, e aqui o nome emprestado se faz ainda mais plausível, já que o Ismael bíblico é filho ilegítimo de Abraão – pode-se pensar em uma sobrevivência ilegítima, em um relato ilegítimo, tendo em vista o fato de que todos os outros membros do navio não sobreviveram aos ataques de Moby Dick. Seja como for, vale insistir que o estatuto ambíguo de Ishmael na narrativa é mais um indício de que o livro de Melville deseja preservar-se no limite de diferentes gêneros textuais. Estaríamos diante de um diário pessoal? Diante de um compêndio científico sobre a pesca de baleias? O que é Moby Dick senão um pouco de tudo isso? 

Nantucket, ilha de onde parte o navio Pequod, é o local de encontro dos diversos pescadores, um local multi-étnico por excelência, pois ali as diferenças se perdem perante o desejo comum de viver no mar, de afastar-se um pouco da loucura que é estar na cidade. É exatamente esse encontro do diverso que fundamenta o livro de Melville, que, por si só, apresenta-se já em um processo contínuo de tradução, pois só podemos seguir adiante na narrativa se compreendermos um pouco mais dos aspectos técnicos e psicológicos envolvidos na arte da pesca (e, como defendido no livro, trata-se sim de uma arte). Em suma, a nova tradução da Cosac Naify, longe de definitiva, nos concede, ainda assim, a oportunidade de vivermos no mar com esse estranho que é Ishmael e com o louco cheio de razão que foi e é Ahab.

*André Cechinel é doutorando em literatura na UFSC.

 

 

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