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Florianópolis, 02 de Junho de 2008

DUKHLESS
Por: Kátia Américo

Serguéi MináievДУХLESS  Em 2006, durante os 100 primeiros dias de venda nas livrarias russas, o romance “Духless” do empresário e publicista Serguei Mináiev bateu todos os recordes: foram vendidos 100 mil exemplares. Até hoje o livro continua liderando a lista dos mais vendidos em Moscou e São Petersburgo. Esse fato torna-se ainda mais surpreendente considerando que “Духless” foi a estréia literária de Serguei Mináiev. Ele, que até então era totalmente desconhecido, de um dia para o outro tornou-se uma estrela da mídia e participou de inúmeras entrevistas e programas de televisão.O titulo do romance é um neologismo, criado pelo Mináiev, que consiste em duas partes: a primeira, “дух”, pode ser traduzida do russo como “alma”, “espírito”; a segunda, o sufixo inglês “less”, ou seja, “sem”. A combinação, no título do livro, de dois idiomas vai muito além de uma simples fantasia lingüística. Desde a época das inovações de Pedro, o Grande, que “abriu uma janela para Europa” a Rússia se encontra diante um insolúvel dilema: de um lado, a possibilidade de seguir o modelo ocidental, de outro, voltar-se às raízes históricas e culturais e encontrar o seu próprio caminho. É interessante notar, que a parte “russa” da palavra possui uma conotação positiva (“alma”, “espírito”), enquanto a parte “estrangeira” é claramente negativa. A dualidade cultural reflete não apenas no título do romance, mas também em toda sua linguagem. De uma forma quase inacreditável, há uma infinidade de palavras, expressões e até letras de músicas pop em inglês que mostram o grau de ocidentalização da cultura da Rússia  de hoje combinando-as com os palavrões russos, mais autênticos e ofensivos.  Nas últimas décadas da existência da União Soviética a vida do mundo ocidental, em geral, e o capitalismo, em particular, pareciam, para os russos, um verdadeiro paraíso. O país inteiro adotou um novo sistema de valores e passou a aspirar por uma rápida e feliz transformação, mas tal como havia acontecido no passado, há oitenta anos, essas mudanças não foram tão felizes e favoráveis.       “Os sem espírito”: essa é a triste e severa definição, feita por Mináiev, sobre a sua própria geração: a última que ainda vivenciou a União Soviética e presenciou seu fim,  e a primeira geração “livre” da tirania comunista que cresceu ouvindo as palavras “perestróika” e “glásnost” e iniciou a era do capitalismo. São os jovens que descobriram que todos os valores aprendidos na infância eram falsos. Em seu lugar, foram apresentados os novos objetivos que podiam ser reduzidos ao seguinte: ganhar muito dinheiro e ficar rico. “Духless” é a confissão da uma geração inteira. Em sua dedicatória consta: “à geração dos nascidos entre 1970-1976, que prometia tanto e tinha tantas perspectivas, cuja estréia foi tão brilhante e cuja vida foi desperdiçada de forma tão medíocre. Que descansem em paz os nossos sonhos com um futuro feliz onde tudo deveria ser diferente”.O livro narra duas semanas da vida de um gerente superior de uma grande corporação multinacional em Moscou, um “romântico cínico”, como ele é descrito por Mináiev. Pelos padrões do mundo capitalista, o protagonista deveria ser uma pessoa extremamente feliz, pois, além de ser jovem e saudável, possui um ótimo emprego e salário. No entanto, já nas primeiras páginas descobre-se que toda essa prosperidade é uma fachada por trás da qual há um enorme cansaço e vazio. Descobre-se que o herói, formado na área de Letras em uma das melhores Universidades da Rússia, atualmente,  desperdiça a sua vida e seu talento em um trabalho estúpido e tedioso que não lhe desperta nada além de ódio. Obviamente, ele escolheu uma empresa multinacional porque na Rússia a carreira acadêmica em Letras jamais lhe daria sequer condições para sobreviver. As noites, o herói passa-as nos clubes e nas  infinitas baladas  junto aos amigos que ele despreza por serem “vazios” iguais a ele.  Na corrida atrás do dinheiro e da fama todos eles perderam o seu “espírito”, a sua essência e o seu rumo e simplesmente tornaram-se zumbis (“múmias”, escreve o autor). Mináiev descreve um quadro sinistro: Moscou noturna está cheia de múmias que estão nas ruas, nos bares, nos restaurantes, nas discotecas, em todo lugar. Nem as bebidas alcoólicas, nem as drogas que o protagonista e os seus parceiros consomem em abundância, conseguem livrá-los dessa sensação do “vazio”. Nas últimas páginas, o herói  está refletindo sobre sua vida desperdiçada em uma ponte sobre o rio Moscou, literalmente, a beira do suicídio. Toda sua formação, todas as noções de mundo, do bem e o mal que ele aprendeu na infância e na juventude entram em conflito com sua vida presente. Esse embate parece não ter solução. Será que é assim que Mináiev vê o destino da sua geração? Ou é um aviso que indica a possibilidade de uma mudança?Embora alguns dos fatos relatados no romance coincidam com a biografia do próprio autor, Serguei Mináiev nega que ele seja autobiográfico. Para ele, o enorme sucesso de seu primeiro romance foi uma surpresa: “Eu não posso chamar a mim mesmo de escritor. ‘Духless’ foi escrito em uma linguagem simples, usada pelas pessoas comuns. Literatura para mim é um hobby”. Apesar de sua  modéstia, em 2007, Mináiev lançou dois novos romances, um sobre o amor na geração dos jovens das grandes cidades russas e outro sobre a eleição presidencial.  

 

 

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