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Florianópolis, 09 de Junho de 2008

FILOSOFIA COMO POLÍTICA CULTURAL (RICHARD RORTY)
Por: Aurora Bernardini

Filosofia como Política Cultural
(Philosofical Papers – vol.IV)
Richard Rorty ( 1931- 2007)
Cambridge University Press – New York, 2007

Este livro de ensaios recentes, publicado no ano de sua morte,  como complemento dos três volumes anteriores( Objectivity, Relativism and Truth; Essays on Heidegger and Others; Truth and Progress;) é, de  certa maneira, o testamento de  Richard Rorty.

O filósofo pragmatista americano, que publicou  seu primeiro sucesso (A Filosofia e o Espelho da Natureza) na década de 70, desenvolve aqui temas atuais e de interesse permanente como  a religião e a política cultural, o lugar da filosofia e da imaginação na cultura ocidental, holismo e historicismo, naturalismo e quietismo, dialogando e raciocinando com seus leitores,  inspirando-se em  John Dewey, Robert Brandom, William James e mensurando-se criativamente com Kant,  Heidegger, Hegel, Nietzsche, a hermenêutica, o desconstrucionismo, o pós-moderno, etc.


Escrevendo numa linguagem compreensível em que os termos são definidos na acepção empregada, indo do simples ao mais complexo e apoiando-se na proposta jamesiana de optar sempre que possível por aquilo “ que ajudará a criar um mundo melhor”,  Rorty vai  confrontando seu raciocínio com o de ilustres antecessores -- de Emerson a Schelling, de Hume a Darwin, a Spencer e  etc., semeando suas idéias  úteis, elucidativas e sintetizadoras.


Assim , para ele, como para Brandom , a noção de “objeto” é derivada da de “ prática social”, tal como a  da “ verdade a respeito de um objeto”. A democracia é para ele como para Dewey a única forma de “crença social e moral” que não repousa  na idéia de que a experiência deva ser, de um modo ou de outro, sujeita a algum controle externo, a alguma “ autoridade fora do processo da experiência”. A questão moral crucial dirá respeito ao tipo de pessoa que cada um  deseja tornar-se. O melhor que se pode fazer, em se tratando de escolhas morais ou políticas, de teorias científicas ou de convicções religiosas – diz ele --  é elaborar uma história o mais coerente possível. Isso não garante, entretanto que o juízo das gerações futuras estará de nosso lado.

A justiça passará a ser vista como lealdade para com a espécie humana, quiçá para com tudo o que vive, e a noção de racionalidade, dentro da filosofia moral e social, não será a de uma situação em que as pessoas  digam: “ seus interesses do momento levam-no a concordar com nossa proposta “, mas : “ suas crenças fundamentais, as que são vitais para sua identidade moral, sugerem que você concorde com nossa proposta”.


 Quanto à religião, a questão da existência de Deus passa a ser assim formulada :

“ Podemos ter a respeito da existência de Deus um argumento para sua utilidade tão bom  como o  que temos a respeito do tempo, do espaço, da substância, da causalidade?”. A resposta de Brandom será “não” e implicará a diferença entre a sua noção de “ política cultural”-- como sendo um infindável e variado processo de inquirição de geração a geração -- e a  noção de filósofos como Spinoza, por exemplo, para quem a última palavra nesse processo será a  passagem para uma visão que transcende esta política.


Uma das conseqüências mais originais das idéias de Rorty dirá respeito à literatura. Por um lado a poesia que, se  não pode tomar o lugar de uma religião monoteísta, pode, entretanto substituí-la como fonte de ideais – função  esta que remonta ao Romantismo, mas que pode muito bem ser descrita como uma volta ao politeísmo . Os  diferentes poetas aperfeiçoam diferentes aspectos da natureza humana projetando diferentes ideais: isso limita a possibilidade que alguém possa  dizer como as coisas são realmente. O cristianismo será um entre muitos poemas. Entre os poetas, destaca-se a  a revisitação  que Rorty faz de Wordsworth panteísta, de Whitman futurista, tal como antes ( no livro Contingência, ironia e solidariedade, Martins, 2007) fizera com escritores como Proust, Nabókov e Orwell).


Quanto ao lugar da filosofia em nossa cultura , ela costuma ser importante quando grandes crenças são abandonadas e ela sugere, em vista do futuro, o que se conserva e o que deve ser posto de lado. Há tempo, no Ocidente, a luta entre os deuses e os gigantes  descrita por Platão foi decidida  pelos intelectuais a favor desses últimos. Restam entretanto pendentes  algumas questões: será a razão que permitirá os homens se realizarem no que têm de melhor ou será a imaginação que os ajudará a se transformarem? Será que a físico-matemática e a matemática, ao decifrarem e resolverem quebra-cabeças, nos dizem o que é realmente o real ?

Rorty tende a se  alinhar com os que defendem a imaginação. “Pela primeira vez no pensamento humano os grandes românticos [ Schiller, no caso] introduziram a noção de que os ideais não têm que ser descobertos, mas inventados, gerados, tal como o é a arte em geral”. Frase essa que tem ecos revolucionários.

Defender a  “razão centrada no indivíduo” --  opondo-se, nesse caso à “racionalidade comunicativa” de caráter bakhtiniano proposta pelo também holista Habermas – significa, para Rorty, colocar os pés na terra ( to bourgeoisify ), coisa que os filósofos  deveriam fazer , e parar de tentarem atingir as alturas espirituais nas quais Platão e Nietzsche se confrontavam. Nada de ascender a alturas ou cair em abismos. Para os  pragmatistas os conflitos de ordem moral ou intelectual são questão de convicção ( belief).Não se trata de  decidir o que é real e o que é aparente, mas sim  de se chegar a um compromisso que permita aos dois lados em conflito  conseguir algo do bem que ambos originariamente esperavam.


O fato de alguém ler muitos livros,  diz Harold Bloom ( citado por Rorty a partir de How to Read and Why) leva-o a ter consciência de muitas possíveis alternativas ( alternative purposes), e o que importa desse processo é que esse leitor se torna um self autônomo. Essa autonomia, que tem muito a ver com aquilo que Heidegger chama autenticidade,  passa a ser o traço distintivo do intelectual. Só quem lê livros para saber quais alternativas poderia  ter é um intelectual: outros há que os lêem por distração, lazer ou entretenimento, mas apenas o intelectual  busca neles o que  Rorty chama redenção – um conjunto  de crenças que finalmente  coroará o processo de reflexão sobre o que fazer de si mesmo. No Ocidente, o intelectual  esperou essa redenção primeiro de Deus, depois da  filosofia e, finalmente, da literatura. Isso porque a literatura permite travar conhecimento com uma grande variedade de seres a que foi dado  o nome de Deus  ou de Verdade, respectivamente pela religião e pela filosofia.


Escuso dizer que Rorty brilha particularmente nos tópicos em que trata das escolhas que realizou: holismo ( relacionalismo), pragmatismo, historicismo,  filosofia “conversacional”   não científica e  não analítica, apesar de sua admiração pelo último Wittgenstein.Entretanto, et pour cause, atinge pontos altos nos capítulos finais em que trata da questão da linguagem e da filosofia analítica e de suas relações  com outras linhas (sequences), particularmente a pragmática ( conforme a definição de Shiller : a aplicação do Humanismo à teoria do conhecimento, sendo a pretensão dos humanistas a da responsabilidade recíproca entre os seres humanos), o que, descartando de um lado o realismo e do outro o representacionalismo,  não deixa -- conforme  o espírito de sua proposta -- de apontar caminhos.

 

 

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