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Por:Aurora Bernardini |
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Por:André Cechinel |
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Por:Aurora Bernardini |
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Por:Kátia Américo |
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Por:André Cechinel |
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Por:Dirce Waltrick do Amarante |
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Por:Aurora Bernardini |
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Por:André Cechinel |
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Florianópolis, 26 de Junho de 2008
A DURAS PENAS
Por: André Cechinel
Nova tradução dos contos de Flannery O’Connor André Cechinel é doutorando em Literatura pela UFSC.
Uma das principais características ficcionais do gênero dito “gótico” está na decisão de situar-se entre o riso e o medo, entre o racional e o místico, ou seja, em zonas fronteiriças cuja ambivalência nunca se resolve. O romance “O Castelo de Otranto”, datado de 1764 e tomado como ponto inaugural dessa literatura, preserva-se justamente em um campo dual, irresolúvel, tal como o próprio autor atesta no prefácio incluído ao livro quando de sua primeira publicação: “algumas pessoas podem defender que o comportamento dos serviçais é pouco sério se confrontado com os demais personagens da narrativa; contudo, é da ‘naïveté’ e da simplicidade deles que nascem as descobertas mais importantes”. Ora, na realidade, o prefácio de “O Castelo de Otranto” é por si só um item de grande interesse para a crítica, uma vez que nele, curiosamente, Horace Walpole incorpora a figura de um tradutor que teria passado o texto do italiano para o inglês, como se a obra não tivesse sido por ele mesmo escrita diretamente em inglês. No prefácio, Walpole advoga a possibilidade de o relato ser de fato verdadeiro, situando-o em um outro momento histórico (1529) e atribuindo-o a uma outra tradição literária; a seriedade de suas teses, no entanto, parece posta em xeque exatamente pelo jogo autoral por ele operado.
Vários dos elementos que marcam essa narrativa gótica clássica, que data da segunda metade do século XVIII (Walpole, Ann Radcliffe, Lewis etc.), estão presentes nos escritores do chamado “grupo gótico sulista” estadunidense, que, dentre outros, abriga nomes como William Faulkner, Tennessee Williams, Carson McCullers e Flannery O’Connor. De modo geral, são autores que se voltam para a complexidade que fundamenta o sul dos Estados Unidos pós Guerra Civil (1861 – 1865), local preso entre seus valores tradicionais e a necessidade de adequar-se à nova realidade social – é dessa dura disputa, inclusive, que resultam os aspectos que mais aproximam os escritores mencionados da ambigüidade gótica. Um dos textos mais citados do grupo é “Uma Rosa para Emily” (1930), de Faulkner, que nos fala do convívio secreto de Emily Grierson com o cadáver de seu marido, Homer Barron, que havia sido preservado secretamente em sua casa. Dentre as leituras mais freqüentes do conto, a crítica fala de uma possível alegoria sobre as disputas entre o norte e o sul dos Estados Unidos.
No Brasil, a editora Cosac Naify lança uma nova tradução dos contos da escritora sulista Flannery O’Connor (1925 – 1964), que já haviam sido antes traduzidos para o português (não em sua totalidade) por José Roberto O’Shea, professor da UFSC, tradutor também do romance “Sangue Sábio”. Os “Contos Completos” da autora contam agora com a tradução de Leonardo Fróes, e o volume preparado pela editora foi acrescido de um estudo crítico sobre O’Connor intitulado “Realismo e transcendência”, assinado pelo escritor Cristóvão Tezza. Nesses contos, o leitor pode perceber precisamente o modo como o cômico e o trágico caminham juntos na tentativa de dar conta de um espaço de alta complexidade. Se, por um lado, a faceta mais risonha e prosaica das narrativas fica clara já desde os títulos (“Gente boa da roça”, “Os aleijados entrarão primeiro”, “Tudo o que sobe deve convergir”), por outro, o desfecho trágico dos contos (que é quase regra) cobre uma atmosfera de inegável concretude, de realidade da mais bruta possível. Nesse sentido, o misticismo de alguns dos personagens, que nos leva a rir, abre sempre espaço para a entrada do trágico, como se o riso e o medo não fossem senão um só. Como na frase final de “Um homem bom é difícil de encontrar”, pronunciada pelo personagem Desajeitado (“Misfit”, em inglês): “É, na vida não há prazer verdadeiro”.
A indecisão entre os termos pode ser vista, por exemplo, no conto “Gente boa da roça”, que alia conhecimento e inocência como nenhum outro. A narrativa abre com a descrição de Mrs. Freeman, personagem que expressa toda sua sabedoria através de ditos populares: entre seus preferidos, “nada é perfeito”, "cada um tem o seu modo de ver" e “assim é a vida”. O conto segue em tom bem humorado até a chegada de um vendedor de Bíblias, Manley Pointer, a quem Mrs. Freeman refere-se como uma pessoa boa, tal como toda a “gente boa da roça”. A simplicidade do vendedor de Bíblias faz com que a filha de Mrs. Freeman se interesse por ele. Ela, formada em filosofia, acha-se deslocada perante toda a ignorância sulista, e a sensação de desconforto aumenta ainda mais por sua deficiência física – ela possui uma perna de pau. Os papéis se invertem quando, ao contrário do que todos pensavam, o vendedor de Bíblia revela-se não uma “pessoa boa da roça”, mas sim um vigarista de primeira, que seduz a filha de Mrs. Freeman apenas para lhe roubar a perna de pau. A filósofa, descrente convicta, havia acreditado na inocência do vendedor; o último, sob o abrigo da religiosidade, aplica seus golpes com perfeição. Nas palavras de Pointer, “‘Tenho uma porção de coisas interessantes. Com outra mulher, assim também, consegui até um olho de vidro uma vez’”. A simplicidade a ele atribuída contrasta, em suma, com sua verdadeira maldade.
São muitos os contos em que a boa vontade dos personagens leva a resultados desastrosos. Em “Os aleijados entrarão primeiro”, Sheppard, pai de Norton, deseja que seu filho seja menos egoísta, e para tanto decide abrigar em sua casa Rufus Johnson, que havia recém saído do reformatório. Para o pai, as dificuldades atravessadas por Rufus poderiam ensinar seu filho a ser mais generoso – além disso, dar um lar a Rufus significaria também concedê-lo a possibilidade de ter uma vida mais cômoda. No entanto, com o passar do tempo, Rufus mostra-se um garoto difícil, uma má influência para Norton, e com o intuito de fazer com que Rufus mude de vida, Sheppard acaba esquecendo da existência do seu próprio filho. Rufus convence Norton de que sua mãe estava no céu, esperando por ele; entretanto, para ir para o céu, era preciso ser puro, e só as crianças eram verdadeiramente puras. Assim, Norton se mata para poder viver no céu com sua mãe. Já no conto “Tudo o que sobe deve convergir”, Julian irrita-se profundamente com o preconceito incurável de sua mãe em relação aos negros, e fica muito feliz quando ela enfrenta uma experiência que lhe poderia ser muito educativa. No entanto, ao perceber que ela passava mal após ser desafiada por uma mulher negra, Julian grita “socorro” desesperadamente, como se fosse ele mesmo o responsável pelo estado da mãe.
Fala-se muito, hoje, no fim da narrativa gótica: o gótico seria, pois, improvável ou impossível no século XXI, se não já no século XX. Nossos conflitos atuais não deixariam margem para a aparição de vampiros ou formas labirínticas medievais, e quando falamos em romances góticos estaríamos aludindo a um grupo fechado de textos localizados em um passado distante, quando o embate entre o racional e o místico ainda fazia sentido. Se a razão venceu o fantástico, enfim, o riso gótico, oriundo do encontro entre luz e escuridão, perde sua força. Seja como for, a linhagem gótica certamente deixou rastros, e a prova disso é o campo conflituoso que marca as narrativas de Flannery O"Connor, por exemplo. Ali, somente podemos compreender um pouco mais do que se passa quando lançamos mão de um “ao mesmo tempo”. Mas, como diria Mrs. Freeman, “cada um tem seu modo de ver”.
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