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Florianópolis, 26 de Julho de 2008

LUIGI PIRANDELLO – 40 NOVELAS DE LUIGI PIRANDELLO
Por: Aurora Bernardini

(USP)

Luigi Pirandello – 40 novelas de Luigi Pirandello (Seleção, tradução e prefácio de Maurício Santana Dias), Companhia das Letras, 2008.


Para  o escritor siciliano Luigi Pirandello (1867-1936 - Acadêmico da Itália em 1929 e prêmio Nobel em 1934) “entender o jogo” tanto pode significar para o indivíduo descortinar (driblar) a equívoca ambiência social  que o envolve, bem como, adotando uma personalidade ilusória, tentar fugir dos limites de sua condição, limites estes porém que, quando imprecisos, podem fazer com que ele resvale na loucura. É  por essas três vertentes que se desenrolam algumas das narrativas (“ Quando se entende o jogo”, “ Pense nisso , Giacomino”, “ A senhora Frola”, etc.)  que compõem essas sintomáticas 40 novelas de Luigi Pirandello,  escritas entre 1894 e 1934 e que irão confluir para peças teatrais de grande repercussão. Aliás , foi esse critério adotado para a organização da coletânea pelo tradutor Maurício Santana Dias que mostra, no prefácio, como as 40 novelas  escolhidas redundaram em 30 peças elaboradas pelo autor um pouco mais tarde. Isso explica, por exemplo, o caráter marcadamente dramático que as acomuna, seja ele de cunho  circunstancial, psicológico ou mesmo filosófico.  “Enquanto o mundo se embebia de Saint-Simon, Marx e Bernard Shaw, a Itália tendia a ser individualista e não coletiva, filosófica e psicológica e não social” – diz Carol McLeanton em seu The Age of Pirandello. E em particular, em relação à mulher :” era uma vergonha a  condição das mulheres na sociedade italiana que, ao negar-lhes os direitos humanos elementares [ elas passariam a votar só em 1948] as obrigava  a uma  

subordinação em que só podiam trapacear e afogar seus melhores sentimentos”. Prova disso é - na época das heroínas de Ibsen , das  vitoriosas sufragistas inglesas,  americanas e das populistas russas - a preocupação feminina constante, que se vislumbra nesses contos pirandellianos, de “fisgar” um marido, refugiar-se na maternidade ou esquivar-se,  pelo sacrifício ( “O medo”; “ Xale negro”), pela “perdição”(“O ninho”) ou pela trapaça ( “A senhora Speranza”) da condenação  tacanha e inexorável da moral corrente. As primeiras duas, prerrogativas das mulheres de extração mais baixa ( às vezes também dos homens, como em “ Certas obrigações”) e a última, apanágio das artistas (“Os limões da Sicília”) e de algumas mulheres cuja circunstância as levou a serem um pouco mais autônomas: “ A grande Pompea [ a cantora lírica de “ Tirocínio”] naturalmente não o deixou escapar. Porém, considerando a própria constituição física e prevendo que, com o passar do tempo, ele talvez perdesse  o apetite por tanta abundância, encontrou logo meios de pôr à sua disposição uma graciosa filhinha.”

Esse tom farsesco , levado adiante por Pirandello com uma maestria toda especial  quando da narrativa passa à cena (vejam-se “Pense nisso, Giacomino” , “Não é uma coisa séria”e “Apelo à obrigação”[ ou O homem , a besta e a virtude] ) cede aos poucos espaço para o que o autor,  em O Humorismo (um interessante tratado que, junto com Arte e Ciência, lhe valeu a cátedra na Facoltà di Magistero romana, em  1897), chamou de “sentimento do contrário”. Não se trata de “ rir de volta para a vida”, como propunha Isak  Dinesen mas, “devido à reflexão inserida no germe do sentimento, feito um visgo maligno, trata-se de despertar as idéias e as imagens em contraste [ e não em acorde] com esse sentimento”.Algo como o que Giordano Bruno caracterizou como “In tristitia hilaris”. Resulta disso uma espécie de decomposição, de livre movimento da forma e da percepção, que faz com que o indivíduo veja e sinta sua própria máscara exterior (o disfarce que ele veste para viver), mas ao mesmo tempo não deixe de criar uma máscara interior. Enfim, é a desunião interna do homem moderno, obviamente, com a superação do cômico e, às vezes, com a  passagem poética para o terrível, o horror ( vejam-se, por exemplo, “ Cinci”  e “ O outro filho”) .Em “ A mosca”, e especialmente em “Com a morte em cima” [ ou O homem da flor na boca], o terrível funde-se ao patético. Mas há ainda uma  outra dimensão, crucial nesse conjunto de narrativas que, juntamente com o drama psicológico pós-dostoievskiano ( Henrique IV), foi responsável pelo reconhecimento mundial de Pirandello: a das personagens. Nas três narrativas “ Personagens” ,“Tragédia de uma personagem” e “ Conversas com personagens”( o germe de Seis personagens à procura de autor) trata-se, entre outras, de questões filosóficas em que “ o pensamento vê a si mesmo”, a consciência é “ o espelho interior em que o pensamento se mira” e a volubilidade em que as personagens se vêem “expressa a sua essencialidade”.

As personagens que mudam de ser a cada nova forma levam a se ter consciência da possibilidade de muitas alternativas. É nesse processo de busca - que o pragmatista Richard Rorty, em seu testamento ( Filosofia como Política Cultural) chamou de “ redenção” - que o leitor/espectador se torna um ser autônomo: “ No Ocidente, o intelectual esperou essa redenção primeiro de Deus, depois da filosofia e, finalmente, da literatura. Isso porque a literatura permite travar conhecimento com uma grande variedade de seres a que foi dado o nome de Deus ou de Verdade, respectivamente pela religião e pela filosofia.”

 

 

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