Por:Victor da Rosa
 
 
 
Por:Sérgio Medeiros
 
 
 
Por:Aurora Bernardini
 
 
 
Por:Sérgio Medeiros
 
 
 
Por:Aurora Bernardini
 
 
 
Por:André Cechinel
 
 
 
Por:Aurora Bernardini
 
 
 
Por:Kátia Américo
 
     
 

 

   

Florianópolis, 13 de Outubro de 2008

CHARLES BERNSTEIN EM PORTUGUêS
Por: Sérgio Medeiros

“Histórias da Guerra: Poemas e ensaios”

Foi lançada, recentemente, a antologia “Histórias da Guerra” (Martins/Martins Fontes, São Paulo, 2008), que contém poemas e ensaios do poeta norte-americano Charles Bernstein, autor de vários livros de poesia e ensaios-poemas, além de libretos. Bernstein co-editou a importante revista L=A=N=G=U=A=G=E, transformada depois, em 1984, em livro.

      A tradução dos poemas do líder do movimento L=A=N=G=U=A=G=E poetry é assinada por Régis Bonvicino (que selecionou os textos e prefaciou a edição) e Maria do Carmo Zanini. A tradução oferece várias soluções surpreendentes. Citarei duas:

      O poema que dá título ao livro, “Histórias da Guerra”, traz o seguinte verso:

       “War is sacrifice for an ideal.”

       Em português, lemos:

       “A Guerra é o pântano islâmico em Guantánamo.”

       Essa tradução (de Régis Bonvicino), como se vê, parece explicitar algo que, no original, estava mais ou menos dissimulado e que só uma leitura atenta (e criativa) revelaria. Parece-me que um tom mais latino-americano, ou decididamente nerudiano, predominou nesse verso do tradutor.

       No verso que fecha o poema do autor norte-americano, lemos:

       “War is us.”

       Lemos, em português:

       “A guerra sou E.U.”

       Uma solução feliz e irônica, que expõe toda a “culpa” dos EUA e, ao mesmo tempo, revela o E.U. do capitalismo contemporâneo, ou seja, a face do Ocidente, que é a nossa face também, a nossa máscara atual. Em suma, aqui, neste verso, o tom é muito mais paulistano e concreto do que chileno e neoparticipante, embora as duas traduções, apresentadas acima, sejam, no meu entender, cada uma a seu modo, igualmente eficazes como poesia.

       Num ensaio, incluído no livro que estou comentando, Bernstein recomenda a política cultural dos encontros e transformações, como uma das possibilidades de diálogo nas Américas, elogiando “uma colagem de diferentes práticas lingüísticas pela América afora”, que redundasse numa “constelação hipertextual ou sincrética, com camadas alfabéticas, glíficas e orais”.

      De certa forma, pondo em prática essa “poética das Américas”, essa constelação pós-mallarmaica, senti-me instigado a comparar o poema “Histórias da Guerra”, de Charles Bernstein, com o poema “A Bomba”, de Carlos Drummond de Andrade. 

       No poema de Drummond, lemos:

       “A BOMBA
             é uma flor de pânico apavorando os floricultores
       
         A bomba
             é o produto quintessente de um laboratório falido

        A bomba
             é miséria confederando milhões de misérias”


       No poema de Bernstein, lemos:

       “A guerra é um passeio infinito num cemitério finito.

         A guerra é um modo de a natureza se confirmar selvagem.

         A guerra é uma nova oportunidade.”


      Ambos os poemas, como se vê claramente, têm a mesma estrutura (são longos e definem exaustivamente seu objeto, ou seja, bomba e guerra), embora o poema de Drummond (no qual a palavra “bomba”, com seus dois fonemas explosivos, é usada acima do verso) pareça hoje mais ousado formalmente do que o de Bernstein. Ou seja, Drummond parece ter escrito uma poesia L=A=N=G=U=A=G=E  “avant la lettre” (poesia, aliás, muito atual e mais radical, em certos aspectos, do que o próprio poema do autor norte-americano). 

       No final do seu poema, Drummond afirma, singelamente:

       “A bomba
             não destruirá a vida

        O homem
             (tenho esperança) liquidará a bomba.”


       Lendo o poema de Bernstein, sabemos, porém, que:

       “A guerra é a última diversão.”


       Assim, ouso concluir, os dois poemas (o do século XX e o do século XXI) dialogam e se completam um ao outro: as bombas continuam a explodir, pois a nossa História contemporânea é... histórias da guerra. A poesia de Drummond e a poesia de Bernstein o comprovam.


SÉRGIO MEDEIROS é poeta, tradutor e professor de literatura na UFSC. Seu poema longo, “Retrato totêmico de Claude Lévi-Strauss”, será publicado em outubro, nos EUA, na “Mandorla Magazine”, da Universidade de Illinois.  Seu novo livro, “O sexo vegetal”, sairá no Brasil em breve.

 

 

HOME . GALERIA . POEMAS . ENSAIOS . EVENTOS . RESENHAS . TEATRO . NARRATIVAS . TRADUÇÕES . ACORDE COM VERA . INFANTO-JUVENIL . LINKS . CONTATO