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Florianópolis, 14 de Novembro de 2009 ESSES DIAS EM QUE O CÉU APARECE Por: Manoel Ricardo de Lima * “Olá, meu nome é Oito. Eu ando por aqui, sempre. Você acha ruim? Ando sobre os telhados porque não tenho medo de cair. Só por isso. Você acha ruim? Você tem medo de cair? “Não sei, acho às vezes que não tenho medo de nada. Nem acho nada ruim. Ou ao menos não acho muita coisa ruim. “Mas você não anda bem sobre os telhados, como eu. O que faz aqui? “Você acha que anda bem sobre os telhados? “Ando, tenho quase certeza que ando. Você não acha isso? “Não sei o que acho. Mas suas pernas são magras demais pra ter equilíbrio. “Mas andar sobre os telhados não é um caso para pernas fortes ou equilíbrio. É uma espécie de coragem. “Talvez seja. Talvez seja. Mas ando bem, não sei se tanto quanto você diz, mas acho que ando bem. “Que seja, mas o que faz aqui, você não me disse. O que faz aqui? “Não sei bem, nem saberia dizer bem. Mas me aproximei porque vi você, vindo de longe, aqui, andando pra lá e pra cá. E achei que podia reclamar da vida, de alguma coisa como uma doença ou nem sei o que. Posso ajudar? “Não reclamo de nada, não preciso de ajuda. Meu nome é Oito. “Você já me disse seu nome, que seu nome é Oito. Quer que eu lhe pergunte algo por isso? “Algo? Como assim? Por causa de meu nome? “Não sei, mas me parece que sim. Ou quem sabe queira saber meu nome porque me disse o seu, duas vezes, ou talvez se meu nome é também algo próximo do seu, como Nove, ou Sete, ou Dez. “Se o seu nome é como o meu? “Sim, como o seu. “Meu nome é Oito. Você já estava aqui quando cheguei, não estava? Eu vi você quando vinha de longe. Eu também vim de longe, sabia? E meu pulmão é pequeno, não aguenta muito. Posso parar de respirar a qualquer momento por isso. “Uma pena. Tenho pulmões enormes, mas respiro com dificuldade. Acho que estou parado aqui há dias, mas não é bem assim. E você nem imagina o que é isso. Imagina? “Tenho imaginado pouco. Tanto que vi você se mexer, e tinha certeza que marcamos um encontro aqui. Marcamos? Seria bom que sim. Porque faz tempo ninguém me procura pra nada. São os telhados. Eles me tomam todo o tempo. “Não, não marcamos nada não. Também por causa dos telhados. “Todos tem reclamado demais, de tudo, cobram demais. Exigem correção, coerência, lembrança, escuta e grudam exageradamente no corpo. “Que coisa isso, hein !? Que coisa isso, hein !? “É. Que coisa isso! E repare, olhe devagar para os telhados, eles parecem ir embora agora. “É, parecem ir embora, agora. Que coisa isso, hein !? * É poeta, editor e professor da Universidade Federal de Santa Catarina, onde realiza pesquisa de pós-doutorado júnior como bolsista do CNPq
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