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Florianópolis, 08 de Dezembro de 2009

LARANJA D´ÁGUA
Por: Eloí Elisabete Bocheco* 

Para Ângelo e Olímpia

Certa vez um homem levantou bem cedo e foi ver se estava tudo bem com o milho recém-nascido. Ao lado da lavoura de milho corria   um riacho de águas claras.

_ Preciso fazer uma ponte sobre este riacho; por ela chegarei mais rápido à porta de casa – pensou.  Fez a ponte e  sentou sobre ela para ver a água correndo. Um fio de cabelo branco do homem caiu, por conta, na água e virou um pé de laranja d´água carregado de frutos.

Ele achou aquilo muito engraçado e arrancou um fio de cabelo que ainda não tinha branqueado e jogou na água para ver o que acontecia. Não aconteceu nada.

Laranjas d´água são doces feito açúcar, têm a casca mole e são ótimas para fazer geléia – o homem disse à ponte, já antecipando o gosto da geléia numa fatia de pão fresco.

Vou em casa pegar um cesto para colher as laranjas – decidiu. Quando voltou não havia laranja alguma no pé. Vieram as aves do céu em bando e levaram todos os frutos. Ele ficou desapontado e esperou que o pé de laranja d´água ficasse novamente carregado de frutos. 

Veio uma tarde em que o pé de laranja d´água começou a crescer, a crescer e a invadir as alturas do dia. O homem arregalou os olhos de admiração. Largou a enxada que estava usando para limpar o milho e subiu na árvore  pra ver onde ela estava indo com tanta pressa.

Dum ponto em diante,  os galhos enroscaram nos carneiros dos céus, mas o pastor celeste veio depressa e livrou o caminho para a laranja d´água subir. O riacho, a ponte, o milharal foram ficando longe,  longe, só uns pontinhos,  e o homem sentiu medo. Distraiu-se do medo olhando os carneiros pastarem o capim das alturas.

Aí o homem viu os cavalos de vento e pulou do pé de laranja para o lombo de um cavalo de vento. Os cavalos brincavam de trançar suas crinas de vento e levavam o homem pelo espaço afora, até que ele despencou céu abaixo e foi parar dentro do riacho. O pé de laranja dá água já tinha voltado do passeio e estava cheio de frutos.

Ele colheu os frutos, deixando alguns para as aves do céu. De cesto cheio de frutos e de vida voada e brincada o homem  entrou na cozinha onde sua mãe fazia sopa de ervilhas.

_ Você também trouxe laranjas d´água?! ela perguntou surpresa.
_ Ué?! Alguém trouxe outras laranjas d´água para nós?
_ Eu mesma colhi um cesto cheio na lagoa verde – ela disse.
_ Como?! Na lagoa verde, até ontem, não havia laranjas d´água!
_ Pois é. Não havia mesmo. Mas, hoje, 21 de maio, as laranjas d´água vieram ver os marrecos nadarem. Eu aproveitei e colhi tudo que pude. Pouco antes dos marrecos se deitarem, no cair da tarde, elas foram embora.

_ Então, ouça: e ele contou tudo sobre a laranja d´água da ponte e os dois riram muito daquela coincidência. Foram dormir combinados que no dia seguinte fariam geléia com as laranjas.

A manhã surgiu luminosa e apresentou as laranjas d´água em estado de pura cor. Não eram mais cor-de-laranjas de todo ano, alaranjadas. Os cestos estavam cheios de laranjas roxas, verdes, lilases, azuis, encarnadas, grenás e de  toda cor que no mundo há.


O homem e a  mãe não sabiam onde botar tanto espanto e então botaram as mãos na massa, quer dizer, na geléia,  porque ficaram curiosos para saber que tipo de doce iria sair. O doce não saiu e o que saiu da panela foi um arco-íris que ficou passeando acima do fogão.

_Arco-íris  passeando sobre um fogão é uma coisa pra só se acreditar vendo! – o homem exclamou. _ Vamos guardá-lo que assim temos um arco-íris para o gasto.

_ Mas, onde guardar que não desbote? A mãe do homem perguntou.

Resolveram que o sótão seria um bom lugar para guardar arco-íris. Dormiam contentes pensando que agora tinham um arco-íris no sótão. Vinham anos de boa colheitas. Vinham anos de escassez, secas ou chuvas de granizo. Eles lembravam do arco-íris no sótão e, de novo,  espalhavam as sementes na terra.

Um dia o arco-íris não foi encontrado. Não estava no lugar de sempre. Procuraram por tudo: casa, jardim, lavoura, quintal. Descobriram que o arco-íris tinha se mudado para o broche que a mãe do homem usava na gola da blusa.

_ Se ele escolheu este lugar para ficar, ficará aqui para sempre – ela disse. E o arco-íris nunca mais saiu do broche. E partiu com ela no dia em que ela foi dar uma volta pelos céus  com a laranja d´água e nunca mais retornou. Nem ela, nem a laranja d´água.

 

* Escritora e ensaísta, autora, entre outros, do premiado “Beatriz em trânsito” (Editora Nova Prova, Porto Alegre)

 

 

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