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Por:Dirce Waltrick do Amarante |
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Por:Eloí Elisabete Bocheco |
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Por:ALEXANDRE FERNANDEZ VAZ |
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Por:Dirce Waltrick do Amarante |
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Florianópolis, 30 de Agosto de 2010
FANFARRICES QUE SEDUZEM GERAÇÕES DE LEITORES
Por: Dirce Waltrick do Amarante*
Num ensaio intitulado “Aspectos da literatura infantil”, Cecília Meireles destaca três fontes da literatura para crianças: 1) a versão escrita das tradições orais, ou seja, a reapresentação, num outro formato, de enredos anônimos, como fábulas e contos folclóricos; 2) os textos escritos para uma determinada criança, os quais, mais tarde, passaram a ser também apreciados por um número infinito delas -- esse é o caso, por exemplo, de Alice no País das Maravilhas (1865), que o escritor inglês Lewis Carroll escreveu para a menina Alice Lindell, depois de narrar oralmente a estória a ela e suas irmãs, durante um passeio de barco; 3) e, finalmente, os textos que não foram escritos para crianças, mas que, por uma razão ou outra, acabaram caindo em suas mãos e elas os apreciaram, como é o caso de As Aventuras do Barão de Munchausen, cujas narrativas, lembra Cecília Meireles, “começaram por ser uma sátira às fanfarronadas atribuídas a esse oficial, quando contava suas proezas na Rússia, por onde andara a combater os turcos”. De fato, as primeiras aventuras do Barão foram publicadas em forma de anedotas, entre os anos 1781 e 1783, na revista Vade mecum für lustige Leute (Vade mécum para pessoas divertidas), em Berlim, e não tinham como público alvo as crianças.
Em 1785, quando Rudolph Erich Raspe finalmente as recontou e reuniu em livro, essas narrativas da revista, ao lado de outras também protagonizadas pelo mesmo Barão, acabaram sendo rotuladas de contos populares e foram vendidas nas ruas, como comumente se vendia na época, esse tipo de literatura. Em pouco tempo, contudo, o livro alcançou enorme sucesso, penetrou “nas bibliotecas infantis” e circulou em quase todos os idiomas, nas mais diversas adaptações. Diante disso, pergunta-se Cecília Meirelles: “quem se lembra que o Barão existiu realmente? – Em dois séculos, sua figura passou da história ao mito, em pleno processo folclórico”. Essa “folclorização” não atingiu apenas a figura real de Munchausen, pois, segundo John Carswell, “as viagens do Barão não deixaram nenhum autor famoso”, nem Raspe, que foi o primeiro a tomar a iniciativa de reuni-las, nem aqueles que o seguiram nessa tarefa, “ainda que tenham encontrado seu caminho em numerosas línguas e países, os quais nem o próprio Barão havia visitado.”
No tocante ao Barão de Munchausen, como era conhecido, sabe-se que ele realmente existiu, seu nome de batismo era Karl Friedrich Hyeronymos e nasceu em 11 de maio de 1720, em Bodenwerden, na Alemanha. Foi pajem do Duque de Braunschweig, acompanhando-o em uma viagem à Rússia. Mais tarde, Munchausen foi promovido a tenente, serviu num regimento russo e, acredita-se, teria lutado em duas guerras turcas (1737-1739). Depois de doze anos de serviço militar, aposentou-se. O Barão voltou, então, para sua terra natal, onde morreu em 22 de fevereiro de 1797, não sem antes, é claro, entreter, nas recepções que dava, seus amigos e convidados com suas aventuras fenomenais, suas caçadas extraordinárias (era, ou dizia ser, um exímio caçador) e incríveis viagens a terras estrangeiras. Numa de suas estórias mirabolantes, por exemplo, o Barão conta não só como seu cavalo foi divido ao meio, mas também como, tempos depois, encontrou intacta sua “outra metade realizando uma série dos mais hábeis saltos e cabriolas, e exibindo-se alegremente com os demais cavalos que ali pastavam.” Na cidade natal de Munchausen, essa estória fantástica ganhou destaque e, hoje, quem visita Bodenwerden pode apreciar a estátua do Barão cavalgando seu meio cavalo em frente ao prédio da Prefeitura.
Não coube ao próprio Barão, porém, tomar a decisão de escrever suas aventuras, ou de solicitar a Raspe que o fizesse. A história da literatura atribui o mérito da iniciativa ao cientista e bibliotecário alemão Rudolf Erich Raspe (1737 – 1794), uma figura controversa, sempre envolvida em confusões, mas grande especialista em poesia inglesa clássica e autor de trabalhos científicos. Ele publicou anonimamente, na Inglaterra, onde vivia, o livro Baron Munchausen`s Narrative and his Marvellous Travels and Campaigns in Russia (Narrativas do Barão de Münchhausen de suas Viagens Maravilhosas e Campanhas na Rússia), despertando imediatamente o interesse geral pelas narrativas do Barão de Munchausen.
Certos contos da antologia organizada por Raspe foram baseados, conforme já se falou, nas estórias que ele havia lido na revista Vade mecum für lustige Leute, outros, porém, segundo se acredita, foram inventados pelo próprio Raspe, verificando-se, nestes especialmente, a influência de As Viagens de Gulliver, do escritor irlandês Jonathan Swift, que escreveu para os adultos, mas é mais apreciado por crianças. Raspe honestamente admitia essa inspiração, que é evidente no seguinte fragmento de As Aventuras do Barão de Munchausen, no qual relata uma ida do Barão à Lua: “Um parente distante tinha uma teoria de que em algum lugar podia achar gente do mesmo tamanho daquele que Gulliver diz ter encontrado em Brobdingnag. Ele resolveu começar a procurá-la e convidou-me a acompanhá-lo. De minha parte, sempre considerei o relato de Gulliver como uma fábula e não acreditava em Brodbingnag mais do que acreditava em Eldorado; (...).” Assim, as fanfarronadas do Barão logo transcenderam o pequeno mundo do folclore de uma cidadezinha alemã e chegaram à literatura universal, graças a Raspe, talvez o único e verdadeiro autor de As Aventuras do Barão de Munchausen. Em The Prospector, uma biografia de Rudolph Erich Raspe, John Carswell é categórico ao afirmar que ele foi “sem dúvida o autor das narrativas de Munchausen”, além de ter sido também, o que aumenta o seu crédito como escritor, o próprio criador das anedotas da revista Vade mecum, que têm o Barão como protagonista, como seria possível depreender de alguns fatos da época.
Entre as muitas lendas e suposições que cercam a origem controversa das aventuras protagonizadas pelo Barão e narradas por Raspe, deve-se destacar ainda o dado, no mínimo curioso, de que Rudolph Raspe, quando ainda vivia na Alemanha, teria conhecido pessoalmente o Barão de Munchausen, o que parece reproduzir magicamente o encontro que o tataravô do Barão teve com um poeta chamado Shakespeare, o qual, na época, era um “grande ladrão de veados”, como se lê numa de suas aventuras. Numa outra estória, remetendo a um passado ainda mais remoto e maravilhoso, o Barão assegura que herdara a funda do Rei Davi. Se afirmações dessa natureza correspondem ou não à verdade é um debate de antemão absurdo, mas é inegável que têm grande poder de tocar a nossa imaginação, a prova é que os leitores do livro se multiplicam, ao mesmo tempo que novas versões continuam a ser escritas em vários idiomas. Cecília Meirelles alude a uma sucessão infinita de “nova mentiras – a ponto de poder-se julgar afinal, que, de todos, o mais modesto a mentir foi o Barão”.
A verdade é que “acreditamos piamente” nessas aventuras e nos deixamos seduzir por elas, imersos na realidade do “mundo” do Barão, do contrário desistiríamos de lê-las, como o próprio Barão estava ciente, aliás: A maioria dos viajantes ao contar suas aventuras tem por costume dizer que viram mais do que realmente viram. Portanto não é de espantar que leitores e ouvintes algumas vezes sintam-se inclinados a não acreditar em tudo que leem e ouvem. Mas se houver, entre os presentes a que tenho a honra de me dirigir, alguém tentado a pôr em dúvida a veracidade dos relatos que faço, ficarei profundamente magoado por essa falta de confiança; e vou sugerir-lhe que a melhor coisa a fazer é despedir-se antes de que eu comece a relatar minhas aventuras marítimas, pois elas são muito mais maravilhosas, embora não menos autênticas.
Em decorrência da magia literária que as atravessa do começo ao fim, dificilmente um leitor, qualquer que seja sua idade, desistiria de ler As Aventuras do Barão de Munchausen, “pois um clássico”, como lembra Italo Calvino, escritor que redigiu estórias não menos mágicas, “é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”, não importa se lido na infância ou na fase adulta. Para Calvino, a propósito, “(...) ler pela primeira vez um grande livro na idade madura é um prazer extraordinário: diferente (mas não se pode dizer maior ou menor) se comparado a uma leitura de juventude.” Na realidade, todo bom livro -- todo clássico -- é aquele cuja leitura nos deu prazer na infância e que, como opina Clive Staples Lewis, autor de Crônicas de Nárnia, ainda gostamos de ler, depois dos cinquenta anos. Esse é o caso de As Aventuras do Barão de Munchausen, que pode ser incluído perfeitamente numa coleção “infantojuvenil”, sem perder, contudo, o potencial de ser apreciado por todas as faixas etárias, da criança ao adulto, passando pelos adolescentes.
Há muito se discute, no Brasil e em outros países, se livros deveriam vir com a indicação de faixa etária. Creio ser interessante, diante deste livro em particular, relembrar o que disse o já mencionado C.S. Lewis: “não preciso lembrar o público a quem me dirijo de que a classificação rígida dos livros segundo faixas etárias, tão cara a nossos editores, tem uma relação muito vaga com os hábitos dos leitores reais.” Pois, prossegue o escritor, “aqueles que são censurados quando velhos por lerem livros de criança também eram censurados quando crianças por lerem livros escritos para mais velhos. Nenhum leitor que se preze avança obedientemente de acordo com um cronograma.”
Todavia, sugerir a faixa etária, ou incluir um clássico na estante infantojuvenil, ajudará os adultos na escolha de livros que atendam à demanda dos jovens leitores. As crianças, guiadas até essas estantes de livros pelas mãos dos adultos, haverão de sentir-se livres e seguras, num espaço criado especialmente para elas, mas, por outro lado, poderão se sentir impedidas de explorar melhor o mundo da literatura, pois, às vezes, o adulto parece criar, mesmo sem querer, uma cerca imaginária entre essas estantes e aquelas, numerosas, que se expandem à volta delas. É preciso ouvir mais uma vez Cecília Meireles, para quem, “em suma, o livro, se bem que dirigido à criança, é de invenção e intenção do adulto. Transmite os pontos de vista que este considera mais úteis à formação de seus leitores. E transmite-os na linguagem e no estilo que o adulto igualmente crê adequados à sua compreensão e ao gosto do seu público.”
Nem sempre essa fórmula engendrada pelos adultos é garantia de qualidade dos produtos culturais oferecidos às crianças. A esse respeito, o ensaísta argentino Daniel Link lembra que “poucos autores (...) falam às crianças a partir da literatura. Poucos pedagogos mostram às crianças a literatura de verdade.” Os adultos e as crianças se surpreenderão positivamente, porém, ao se depararem na prateleira infantojuvenil com o texto traduzido na íntegra de As Aventuras do Barão de Munchausen, ilustrado por Gustavo Doré. A escolha do livro oferecido pela editora Iluminuras às crianças porá em xeque, por sua qualidade intrínseca (a tradução é cuidadosa e as imagens são artísticas), o mero reducionismo do conceito de infância e o suposto gosto dos pequenos, como se costuma afirmar, erroneamente a meu ver, pelo fácil e o simples.
É do início do século passado a afirmação do pensador alemão Walter Benjamin de que se trata de preconceito ver as crianças como “seres tão diferentes de nós, com uma existência tão incomensurável à nossa, que precisamos ser particularmente inventivos se quisermos distraí-las.” Apesar disso, “desde o iluminismo, essa tem sido uma das preocupações mais estéreis dos pedagogos”, acrescenta Benjamin.
As Aventuras Barão de Munchausen é um daqueles livros que dá as boas vindas “à grande liberdade criativa da literatura, que é em primeiro lugar a liberdade de criar o leitor e fazê-lo criança e adulto ao mesmo tempo, homem e mulher, um em muitos”, como assevera um autor contemporâneo, o argentino César Aira. Ou melhor, a leitura dessas aventuras fabulosas poderá nos fazer sentir como os ratinhos espectadores do conto “Josefina, a cantora ou a cidade dos ratos”, de Franz Kafka: como eles, nós também perceberemos que “alguma coisa ali está de nossa pobre e breve infância, algo de uma felicidade perdida que não pode encontrar-se mais, mas também algo de nossa vida ativa cotidiana, de suas pequenas alegrias, incompreensíveis e contudo incontidas e impossíveis de esquecer”.
O contato com a literatura começa antes da alfabetização. Muitos pais, por obrigação, sentam-se ao lado das crianças para ler o livro da prateleira infanto-juvenil que compraram sem refletir, sem conhecer o enredo e seu potencial, seguros apenas de que, se pertence à prateleira para crianças, deve ser bom para elas. O resultado dessa postura comodista é que os narradores adultos, sem o menor interesse pelo texto, “com voz menos vibrante, ficam parados, a olhar os outros, porque são assim -- baços”, como fala a escritora portuguesa Maria Gabriela Llansol, e conclui: “(...) é preciso cuidar a leitura, porque a voz -- se for incerta no seu deserto -- mata, mata a leitura e o texto ¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬(...)”.
Um conselho que Llansol dá a esses narradores desmotivados é que “aprender a leitura tem um método, mas não obedece a um método. Depende da infinita variedade dos livros, ou seja, da corrente que flui, e nos mergulha nela, seja qual for o suporte.” E diria, aproveitando a deixa, que o prazer em ler determinado livro é o que garante em parte a boa desenvoltura do narrador. Parece ter razão, portanto, Malba Tahan, quando afirma que “a criança e o adulto, o rico e o pobre, o sábio e o ignorante, todos, enfim, ouvem com prazer histórias -- uma vez que estas histórias sejam interessantes, tenham vida e possam cativar a atenção”.
Ouçam, então, o que diz o nosso ilustre Barão, ao contar mais “uma história, cuja autenticidade é tão incontestável quanto a precedente, mas que supera de longe quanto à natureza estranha e maravilhosa de seus detalhes.”
* Texto de apresentação do recém-lançado As Aventuras do barão de Munchausen (Editora Iluminuras, 2010), com ilustrações de Gustave Doré e tradução de Ana Goldberger.
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