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Florianópolis, 07 de Julho de 2010 DE BRAÇO DADO COM LYGIA Por: Mariana Mendes* Trabalho na Companhia das Letras há uns bons anos, na área de divulgação para professores, um departamento que cria estratégias para comunicar aos docentes os lançamentos e as ações da editora. Uma das minhas tarefas é fazer contato com os autores a pedido de alguma escola, universidade ou secretaria de educação. Em geral, os convites envolvem uma apresentação do autor sobre sua vida e seu trabalho, considerações sobre a profissão de escritor. Os estudantes demonstram ser leitores aplicados e, preparados para o encontro, discutem e questionam a obra. Quando comecei a fazer este trabalho, muitas vezes me sentia tímida e insegura no momento de telefonar ou encontrar o autor pessoalmente. Sendo leitora voraz desde menina, sempre encarei os autores como personagens principais, e veio daí o meu receio ao ter que passar a mão no telefone e falar com essas figuras. Era natural que eu me preocupasse com o meu jeito de falar, de me apresentar. Ai de mim cometer um erro de português! Felizmente a experiência ocupou o lugar da insegurança. Hoje falo com os autores com frequência. Esse trabalho cresceu bastante, principalmente com relação aos livros infantojuvenis, cada vez mais adotados. Quando ligo para um autor, aproveito para saber sobre seus novos projetos, pergunto com o que ele está envolvido naquele momento. Tudo parecia normal, sem novos segredos, até que noutro dia, ao acompanhar a escritora Lygia Fagundes Telles à feira do colégio Miguel de Cervantes, tive uma revelação. Recepcionei a Lygia assim que o motorista estacionou no colégio. Fiquei o tempo todo ao seu lado, me mostrava solícita para ajudá-la com o que precisasse. Desde pegar algo em sua bolsa, a caneta para autografar ou o batom, até ficar quieta ouvindo suas histórias deliciosas. Em tudo que é dela, dos objetos à fala, vê-se o estilo elegante, clássico e sóbrio. Por mais discreta que seja, é possível notar a vaidade. Tanto no gesto de se olhar no espelho portátil, quanto ao se precaver trazendo consigo uma pasta com algumas fotos, além de outros tipos de registros. Na conversa no salão do auditório, com os colegas Marina Colasanti e Affonso Romano de Sant’Anna, na palestra dirigida aos alunos do Ensino Médio que leram os seus contos, Lygia está sempre colada com as histórias que viveu ou inventou, e ainda existem aquelas em que mistura fato e ficção. Estar próxima de Lygia é se envolver com um mundo vivido e fantasioso. Ao me despedir, enquanto íamos em direção ao carro que a levaria para casa, ela me corrigiu, “Mariana, sou eu que lhe dou o braço”, e trocamos as posições: eu fiquei com o braço suspenso para que ela se apoiasse, e não o contrário, como eu havia feito sem me dar conta. Depois de se acomodar no carro, nos despedimos carinhosamente. Naquele sábado, ao voltar para casa, me senti orgulhosa e feliz. Me dei conta de que, apesar da experiência e dos anos acumulados, ainda sou a mesma menina que, tocada pela sensação da infância, continua acreditando no mundo mágico que envolve o livro e seus protagonistas. *Mariana Mendes trabalha na Companhia das Letras desde 1998 e é supervisora de divulgação escolar.
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